EDITORIAL - 15

 


Doris Salcedo - Accion de duelo - MCA Chicago

 Musso Greco

2021 será para nós um ano inesquecível. Não exatamente por bons motivos, uma vez que só até o primeiro semestre já beiramos quinhentas mil mortes por Covid-19 no Brasil... Mortes que poderiam ter sido evitadas se a vida fosse um valor nesse momento histórico do país. Vidas nem sempre devidamente pranteadas, posto que se transformam em números que trivializam a morte. E o luto, nessas circunstâncias necropolíticas, é possível?

Em “Luto e melancolia”, de Sigmund Freud, o afeto do luto é definido como uma reação à perda, física ou psíquica, de um elo significativo entre uma pessoa e seu objeto. Para além dessa definição fundadora, o luto se tornou um tema crucial para diferentes domínios e perspectivas, abarcando e convocando a uma reflexão sobre a linguagem, a história e o sujeito. Em torno do luto, trazemos nesta edição da DERIVAS ANALÍTICAS muitas inquietações ‒ psicanalíticas, poéticas e políticas ‒, para orientar uma reflexão que acreditamos ser de todos nós.

Tentamos, nesta edição, ter a presença da Arte na DERIVAS ANALÍTICAS não como ilustração, mas como mais um ensaio ‒ imagético ‒ que, por sua "propriedade indutora", como definia Lévi-Strauss, em O feiticeiro e sua magia, de 1949, afete sensivelmente o público leitor. A Arte entrando na rede de textos como ator, no "entre" textos, como um meio potente de criar surpresas por meio de imagens, para além da palavra. Para isso, convidamos Doris Salcedo, artista do mundo ‒ segundo ela, "artista do terceiro mundo", ou seja, que ultrapassa as fronteiras do seu meio cultural de origem e dialoga com o planeta ‒, para convocar a vislumbrar, por meio de uma estratégia artística singular, uma resposta inédita ao Real, que faz laço com o Sistema da Arte, em um discurso (e um estilo) já reconhecido, significando, na Cultura, resistência à violência, ao luto e à memória. Além da presença dos trabalhos artísticos de Doris Salcedo em todas as seções desta edição de DERIVAS ANALÍTICAS, também trazemos em “O trabalho de Doris Salcedo no luto”, na seção Sinopses, resenhas, etc. & tal, o registro do seu pensamento vivo no processo de criação, pelo qual se orienta em direção à vítima de morte ou violência a quem sua obra se dirige, numa tentativa de apreender o que não está mais presente.

O mesmo vale para a escolha de escritos artísticos na DERIVAS ANALÍTICAS, na seção Sinopses, resenhas, etc. & tal: discutir as políticas do luto a partir das poéticas de escritores e de cantores populares pode propiciar ao leitor uma proximidade com o Real da morte, pela via do sensível, mas sem decoro, que opere como um verdadeiro "acontecimento".

A situação atual do Brasil, de uma doença respiratória pandêmica, "sob céus sombrios" de um descompromisso do Governo com a vida, faz ecoar, a plenos pulmões, por meio do poema “Fuga de morte”, a voz balbuciante de Paul Celan ‒ “se viesse um homem ao mundo, hoje, / […] só / poderia / balbuciar balbuciar” –, poeta "ferido de realidade e em busca de realidade", para que sejamos mais humanos diante da morte. Adriana Calcanhotto nos impacta com a canção 2 de junho ‒ dura e sem sentido como o Real ‒, data em que morreu o menino Miguel Otávio, de cinco anos, ao cair de um prédio no Recife, por negligência da patroa no cuidado com o filho de sua empregada. Por fim, um grave Gilberto Gil, em Não tenho medo da morte, canta o paradoxo da morte como um estado, posterior ao ato individual de morrer ‒ o acontecimento em si ‒ e o ponto de presente no tempo futuro ‒ "a morte é depois de mim" ‒, que nada propõe, além de se apresentar a nós, os vivos, como "medo de morrer".

Ainda na seção Sinopses, resenhas, etc. & tal, trazemos o livro O luto entre clínica e política, de Carla Rodrigues, que examina os conceitos da filósofa Judith Butler, construídos após "Luto e melancolia", de Freud, conjugando o direito público ao luto com a crítica à violência do Estado, mediado pelas categorias de biopoder em Michel Foucault, estado de exceção em Giorgio Agamben e necropolítica em Achille Mbembe, para instituir uma separação “entre vidas que importam e vidas que pesam”. E apresentamos o livro de Georges Didi-Huberman, que acaba de ser traduzido para o português, Povo em lágrimas, povo em armas, cujo ponto de partida nos coloca diante das lágrimas por meio das quais as pessoas mostram sua impotência na moderna sociedade de massa ‒ em torno da  cena de lamentação de Odessa, em O encouraçado Potemkin, de Eisenstein ‒, lágrimas que ativam a maior potencialidade do povo, a revolta, e se transformam em revolução.

A seção Aquele texto... resgata Sigmund Freud em uma entrevista concedida a George Sylvester Viereck, em 1926, a qual intitulamos “O valor da vida”, para convidar o leitor a refletir sobre os tempos sombrios que estamos vivendo, imersos numa pandemia fora de controle. No fim da Primeira Guerra Mundial, abateu-se sobre o mundo uma pandemia de gripe letal, que se espalhou pela Europa, provocando, em poucos meses, uma mortandade ainda mais sinistra que a dos combates. Naquele contexto, Freud pensava na própria morte, na dos amigos e dos parentes, e no envelhecimento, com seus achaques. Além disso, em 1920, sua filha Sophie contraiu a gripe e morreu em poucos dias. As circunstâncias em que ocorreu essa morte, quando todos estavam forçados a permanecer em confinamento, impediram que Freud e os demais familiares acompanhassem o enterro, aprofundando ainda mais o sofrimento dessa perda, com o luto solitário, sem ritual. Três anos depois, seu neto Heinz, filho de Sophie, morre das sequelas de uma tuberculose miliar, o que ocorre três meses após Freud ter descoberto o aparecimento de um câncer grave.

Ao conceder a entrevista, Freud já havia sido submetido à cirurgia que consistira na excisão de seu maxilar superior e de seu palato direito, fazendo uso de uma prótese. É nesse contexto, permeado por tantos sofrimentos e perdas, que Freud promove uma inflexão profunda em sua obra, com a criação do conceito de pulsão de morte em "Além do princípio do prazer", publicado em 1920, no qual postulava o psiquismo como um campo de batalha onde se enfrentavam duas forças elementares ‒ Eros e Thanatos ‒, tema também tratado por Freud na entrevista. Outro ponto passível de comparação com o momento que estamos vivendo é o contexto político no qual Freud concede a entrevista, quando se observava, na Áustria, o crescimento de movimentos populistas de direita.

A seção Mathesis traz, nesta edição, colegas do Campo Freudiano que, contemplando o eixo epistêmico da Orientação Lacaniana, nos brindam com suas considerações sobre a guerra e a morte. Henri Kaufmanner, por meio dos mortos-vivos, discute a posição da Psicanálise diante dos novos circuitos da pulsão de morte. O imprescindível Célio Garcia comparece com um texto inédito sobre o mal-estar na Cultura, tentando delimitar Real e semblant, enquanto Maria de Lourdes Mattos e Glacy Gorski refletem sobre esses tempos sombrios de pandemia e desgoverno a partir da política da Psicanálise.

Na seção Você disse contemporâneo?, contamos com pesquisadores do Rio de Janeiro e São Paulo – Ilana Feldman, Mario Iasi e João Camillo Penna –, ligados à universidade (UFRJ, USP, UNICAMP, UFF, e a algumas instituições estrangeiras, como Paris VIII Saint Denis-Vincennes, Paris Diderot-Paris VII, Berkeley), que contribuem com ensaios potentes para esta edição da DERIVAS ANALÍTICAS. Ilana Feldman examina as relações críticas e as invenções formais que as produções cinematográficas e literárias contemporâneas vêm estabelecendo com os campos teóricos do testemunho, dos estudos do trauma e das escritas de si. João Camillo Penna apresenta a polêmica, no campo das imagens, sobre a representação do infigurável, do invisível e do inimaginável, e, mais especificamente, sobre a representação do Holocausto judaico, considerando que o genocídio se dá precisamente por causa de uma “crise de identificação e uma falha do reconhecimento do semelhante”. Mauro Iasi, a partir de Freud e dos mortos por uma crise sanitária desassistida, fala do macabro trabalho da morte, auxiliada pelas hordas daqueles que a amam mais do que a vida.

A nova equipe editorial que assume a DERIVAS ANALÍTICAS agora – entendendo que as grandes catástrofes históricas, como experiências traumáticas de difícil (se não impossível) simbolização pela linguagem, interpelam, como mal-estar na Cultura, a Psicanálise – parte, nesta edição de uma revista de Psicanálise e Cultura, do que pode ser transmissível e partilhável na dor comum, tensionando a interseção entre a intimidade e a extimidade. Com isso, propomos aos leitores a imersão nos cuidadosíssimos textos, imagens e músicas dos autores convidados ‒ que tão gentilmente os cederam à DERIVAS ANALÍTICAS ‒ como se fosse um trabalho de luto, poético e político, que nos ajude na elaboração das perdas que estamos sofrendo neste momento, tanto para nos posicionarmos simbolicamente no presente quanto para vislumbrarmos alguma construção política de futuro.

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