Os filhos: alguns pontos para a discussão do Simbólico em psicanálise

Luiz Henrique Vidigal

 

Proponho um exercício especulativo sobre as expectativas de Lacan em relação a seus conceitos. Um filho, normalmente o predileto, tem que carregar o ônus do desejo paterno sobre suas performances. Dentro dessa perspectiva, o Simbólico é o nome próprio de um dos filhos de Lacan. Ele tem dois irmãos, o Imaginário e o Real. Como nomes próprios, são escritos com maiúsculas, mesmo no meio de uma frase.

O Imaginário é o filho da leitura

A necessária leitura do texto de Freud frente aos descaminhos com a psicanálise do Ego... autônomo. As noções de corpo, do um, a constituição da imagem, o privilégio do olhar. Imaginário é como um filho no início do casamento – as paixões parecem misturadas. A paranoia como eixo de uma clínica provoca a ideia heroica da experiência. O psicanalista, pela transferência, poderia se prestar a um lugar onde as imagens opressivas, que o sujeito ignora, teriam um caminho para se reconstituir. O psicanalista paga com o próprio corpo por essa ideia da clínica.

Lacan não é ignorado, mas não produz efeito sobre a comunidade analítica. É o período de um filho só, da insistência em alguns conceitos e algum silêncio.

O Simbólico é o filho da intervenção

Em 1953, nascem dois filhos: o Simbólico e o Real. O Simbólico é claramente o preferido. É com ele que Lacan intervirá na psicanálise. Trata-se de um desconhecimento central dos psicanalistas. A cadeia significante, o campo das trocas, o sujeito, enfim, em questão. Instala-se essa tríade para se compreender a estruturação da subjetividade. Real, Simbólico e Imaginário fazem parte, os três, do que podemos chamar existência do sujeito. Se um deles falta, temos problemas na própria subjetividade.

No Seminário 3, Lacan (1955/56) nos diz que “... a ordem simbólica subsiste como tal, fora do sujeito, distinta de sua existência, e o determinando.” (p. 115). Temos, então, um “Simbólico Possível” que só determina as coisas quando elas são possíveis. Assistimos aqui a uma verdadeira invasão imaginária da subjetividade e a uma dissolução do outro como identidade.

Na falta da exclusão ou completa destituição de um dos termos... Real, Simbólico e Imaginário funcionam entre si – como é comum no campo fraterno – pelo mecanismo da intromissão. Penso, pessoalmente, que é difícil dizer que um é mais forte e o outro mais fraco, fora da singularidade de cada caso. A clínica da intromissão do Simbólico no Imaginário e vice-versa é sutil. Delicada e, em muitos aspectos, atual. Para essa clínica, Lacan indica disciplina. Talvez seja importante responder o que significa isso nos dias de hoje.

Penso que “limites do Simbólico” é interno à própria teoria lacaniana. O Simbólico não é, hoje, uma intervenção. Não tem o frescor do novo e não carrega a esperança. Não é mais o filho preferido.

Finalmente, não se pode deduzir o Simbólico, como se tentou nos anos 1950 e parte dos 60, do conceito central da prática psicanalítica que é o inconsciente. No texto Função e campo da palavra e da linguagem” Lacan diz:

(...) é na instauração de um terceiro termo que a descoberta freudiana do inconsciente se esclarece em seu verdadeiro fundamento (...): O inconsciente é a parte do discurso concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade de seu discurso consciente. (LACAN, 1998, p. 260)

O Simbólico vai falhar nessa tarefa de circunscrever o inconsciente, mas produzirá efeitos sobre a concepção da clínica.

O Real é o filho da invenção e o inconsciente da descoberta

São filhos de pais diferentes. O inconsciente é filho de Freud. Lacan tem a guarda e a responsabilidade de manter o seu caráter de descoberta revolucionária. O Real é filho assumido tardiamente. Podemos marcar os anos 70, mais claramente no Seminário 20, Mais ainda, e especialmente nos seminários 22, RSI* e 23, O sinthoma. Neste último Seminário, na Lição de 13 de abril de 1976, Lacan (2007) diz: “O que eu chamo de Real, eu o inventei, porque isto se impôs a mim” (p. xx). Poucas linhas depois, ele continua: “É na medida em que Freud realizou realmente uma descoberta – supondo que esta descoberta seja verdadeira – que pode-se dizer que o real é minha resposta sintomática.” (LACAN, ano, p. xx)

Não temos, como no seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, a afirmativa: “O inconsciente freudiano e o nosso” (LACAN, ano, p. xx). Agora, o inconsciente é freudiano, e o Real é lacaniano. É pelo Real que Lacan quer ser lembrado.

Mas, então, qual o lugar do inconsciente? Lacan, neste momento, o localiza ex-sistente aos três registros. O inconsciente não se deduz nem do Simbólico, nem do Real, nem do Imaginário, nem dos três juntos. O instrumento que temos para pensar a subjetividade não contém o inconsciente. Temos, então, o índice da dificuldade clínica, tanto no início do século passado, como nos anos 1950 e 60 ou nos dias atuais. Quem não se lembra das duas análises do caso do Homem dos Lobos? Ou do caso relatado por Lacan de um obsessivo que se queixava de impotência? Apesar da disciplina do analista e do trabalho efetivo realizado, a análise parece que vai fracassar até que a amante do analisante sonha algo que precipita a conclusão[1].

Como filho preferido de um pai na maturidade e que não necessita de reconhecimento, o Real não tem o mesmo estilo do Simbólico. Como filho preferido, o Real não é arrogante. Mais do que a ideia de “limites do Simbólico”, o que o Real nos oferece é a compreensão dos limites de uma prática.

O raciocínio borromeano do RSI faz parte desse período. Se um rompe, os outros estão livres. O que faz com que o Real, o Simbólico e o Imaginário se mantenham enlaçados? Se o inconsciente determina cada um... cada um goza do inconsciente. Esta é a definição que Lacan nos oferece do sintoma. Esta é a indicação de uma clínica. Entre o gozo e a determinação, entre o sintoma e o inconsciente, há coerência, há consistência.


Notas:

[1] Trata-se do caso de impotência comentado por Lacan, na Lição VI do Seminário VI O desejo e sua interpretação.

Referências:

LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: ___. Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 238-324.

LACAN, J. O seminário, livro 3: As psicoses. Trad. Aluísio Menezes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Trad. M.D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma. Trad. Sérgio Augusto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

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