Sobre a finitude

Glacy Gorski

 

No momento encontro-me em uma noite
polar e estou à espera de que o sol nasça.

Sigmund Freud, Carta a Karl Abraham, 1915

 

De forma bastante dolorosa, a calamidade se abateu sobre o planeta e nos confrontou com a pulsão de morte. Em um primeiro momento – que se configura como um momento de ver –, reina a perplexidade, acompanhada, muitas vezes, por uma negação dos acontecimentos, seja por parte dos governos, seja por parte dos sujeitos, um a um.

As notícias mais marcantes têm a ver com o que vem sendo mostrado: o crescente número de mortos e a impossibilidade de um ritual funerário, pois não é viável nem velar os mortos, nem tampouco viabilizar um enterro digno – ponto necessário para o início de um processo doloroso de luto. A dor e o horror se escancaram, e as ruas das grandes cidades agora estão desertas. Reina um silêncio sepulcral, interrompido pelos aplausos aos profissionais da Saúde e, por vezes, pela música que possibilita romper o isolamento e fazer laço com vizinhos outrora desconhecidos.

Nós assistimos atônitos à devastação ocasionada por este vírus invisível, que não é nem vivo nem morto, mas que, na posse de um corpo humano, se alastra. Diante desse cenário, faltam as palavras, de modo que escrever exige um esforço hercúleo: como analistas, somos convocados a esse exercício de elaboração. Encontro em dois textos de Freud um ponto de ancoragem para lidar com o inusitado desse momento.

O primeiro texto foi escrito por Freud em 1915, ou seja, alguns meses após a Primeira Guerra Mundial ter sido deflagrada, e porta como título "Reflexões à altura da época sobre Guerra e Morte". Interessa-nos assinalar passagens de suas colocações abalizadas sobre o horror da guerra e as desilusões que ela acarreta, “sem um vislumbre do futuro que está sendo plasmado”, em tempos nos quais “a própria ciência perdeu sua imparcialidade desapaixonada; seus servidores, profundamente amargurados, procuram nela as armas com que contribuir para a luta contra o inimigo”. Destacam-se as reflexões de Freud sobre as atitudes dos seres humanos diante da vivência da morte, tanto dos combatentes quanto daqueles que foram obrigados a se isolar em suas casas.

Freud concluiu que existe uma tendência inegável a colocar a morte de lado, silenciá-la, pois no Inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade: “nosso Inconsciente, portanto, não crê em sua própria morte; comporta-se como se fosse imortal". Segundo ele, é aí que reside o segredo do heroísmo. E se refere, então, à guisa de elucidação, à cena de uma comédia de Anzengruber, Hans, o quebrador de pedras, na qual o herói zomba do perigo e se desvela, mostrando seu convencimento de que nada lhe poderia acontecer.

Isso ocorre, hoje, em vários países, inclusive o Brasil: a dificuldade em reconhecer que a situação é verdadeiramente trágica, e que medidas extremas têm que ser tomadas, assim como o enfrentamento tem que ser uma ação coordenada de forma abrangente. A pandemia tem nos confrontado com uma incerteza avassaladora: que futuro há para a humanidade? A angústia que hoje vivenciamos é real, e suas consequências, terríveis, para cada sujeito de forma singular. Esse é um campo a ser investigado, assim como exige uma diferenciação em relação à angústia como sinal. Diante da constatação, sem nenhum véu, da finitude e da real ameaça à vida, o negacionismo vem se fortalecendo cada vez mais.

Podemos observar também que, se, por um lado, a nossa morte é negada, de outro, a admitimos para estranhos e inimigos, sem a menor hesitação. Os momentos de calamidade – sejam eles provocados pelos humanos, com as guerras, ou por pandemias – favorecem o aparecimento de posturas cruéis, injustas e irresponsáveis, o que revela o que há de pior no ser humano. Nosso Inconsciente se mostra “tão inclinado ao assassinato em relação a estranhos e tão dividido (isto é, ambivalente) para com aqueles que amamos...” Freud, no final desse texto, nos oferece uma indicação preciosa: “si vis vitam, para mortem”, ou seja, “se queres suportar a vida, prepara-te para a morte”. Como efetivar isso hoje?

Outra referência importante é um texto também escrito em tempos de guerra (1915-1916), no qual Freud se reporta às conversas que teve num passeio nas Dolomitas, no norte da Itália, ao lado de um jovem poeta que, segundo historiadores, seria Rilke. Eles tergiversavam sobre a transitoriedade, título que Freud deu ao seu artigo escrito em homenagem a Goethe – o artigo "Sobre a transitoriedade" tem como embasamento suas elaborações realizadas em outro texto, que, nessa época, já estava pronto, mas ainda não publicado, "Luto e melancolia". Deste texto extraio a reflexão de que a guerra – a vivência da morte, as grandes perdas que ela acarreta –, assim como a experiência de luto, tão frequente em momento de calamidade, obrigam-nos a refletir sobre a transitoriedade.

Freud nos impressiona com palavras que têm um tom esperançoso: “não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou”. E, mais adiante, diz ainda que “quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito que tínhamos das riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade”. E finaliza, acreditando na força vital vencendo a morte e a destruição: “reconstruiremos tudo [...], e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes”.

Num momento de tantas perdas e estragos, o que podem a Psicanálise e o psicanalista ofertar? Continuar apostando na emergência e na força da palavra para enfrentar e elaborar este confronto traumático com o inexorável, com o Real. A fala, a talking cure, parafraseando Anna O., ainda é um poderoso antídoto nesses tempos tão sombrios...

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