Nem luto, nem melancolia

Mauro Iasi

 

Na minha opinião, a desorientação e a paralisia
da nossa capacidade funcional, sob a qual penamos, são
essencialmente determinadas pela circunstância de
não conseguirmos manter a nossa anterior atitude perante a
morte e de ainda não termos achado outra nova.
 

Sigmund Freud, "A nossa atitude diante da morte", 1915

 

 

Mais de dezesseis milhões de pessoas infectadas. Quase quinhentos mil mortos. Os dados são estarrecedores por si mesmos, ainda mais se somarmos a esse quadro macabro os cento e sessenta e seis milhões de casos e os mais de três milhões de mortos pela pandemia no mundo todo. Nossa reação, no entanto, é muito estranha. Parece-nos preocupar muito mais o andamento da vida, a suposta volta à normalidade ou, pior, os efeitos econômicos que podem se desencadear.

Os seres humanos passaram a enterrar seus mortos, segundo os estudiosos, há mais ou menos cento e trinta mil anos, associando ao evento formas ritualísticas e o uso de adornos corporais, urnas, artefatos e rituais fúnebres. Para a famosa antropóloga Margaret Mead, a primeira evidência daquilo que seria a civilização humana poderia ser encontrado no fóssil de um fêmur cicatrizado, uma vez que isso indicaria que o grupo teria cuidado do ferido e não o abandonado para morrer.

Parece haver uma relação entre quantidade e qualidade no que tange à nossa reação diante da morte. A morte de um ser distante costuma nos afetar pouco. Uma quantidade significativa, como em um acidente ou catástrofe, pode gerar uma comoção. No entanto, essa constatação nos deixa ainda mais incomodados uma vez que a atual pandemia parece indicar que, em situações em que esse número ultrapassa cifras assustadoras, acabamos por ficar diante de uma reação de passividade e negação anestesiante.

A morte nos coloca diante de uma ambivalência. Ela é vista como uma pura casualidade natural, como parte inevitável da existência, mas, ao mesmo tempo, como ameaça inexorável de destruição da pessoa, como ameaça suprema e aterrorizante. Freud tendia a acreditar que a base de nossa atitude perante a morte residia nessa ambivalência, isto é: um mecanismo de defesa diante de uma ameaça de nossa própria morte que ora a naturaliza como mera casualidade, ora nos serve de artifício para contornar a culpa que advém do desejo inconsciente da morte de outra pessoa. Para ele, tal atitude desdobra-se no culto da separação do corpo e da alma, fundamento de todo comportamento religioso.

Freud acreditava que essa postura seria resultado de um processo civilizatório. Ou seja, seria inexistente no ser pulsional “primitivo” movido por instintos e paixões, em mais uma expressão da premissa freudiana da luta entre instinto (primitivo) e razão (civilização). É, no entanto, essa premissa que leva o pai da Psicanálise ao espanto quando se defronta com a atitude dos povos que ele julgava “civilizados” no exercício sistemático da matança na primeira grande guerra. Vejamos em suas palavras, em "A nossa atitude diante da morte":

Estava-se, pois, preparado para que a humanidade se visse ainda, por muito tempo, enredada em guerras entre os povos primitivos e os civilizados, entre raças humanas diferenciadas pela cor da pele e, inclusive, entre os povos menos evoluídos ou incultos da Europa. Mas das grandes nações da raça branca, dominadoras do mundo, às quais coube a direção da humanidade, que sabia estarem ocupadas com os interesses mundiais, e cujas criações são os progressos técnicos no domínio da natureza e os valores culturais, artísticos e científicos, destes povos esperava-se que saberiam resolver de outro modo as suas discórdias e seus conflitos de interesses. 

O texto é de 1915 e trata da Primeira Guerra. Freud morreu em setembro de 1939, no mesmo mês e ano em que Hitler invadia a Polônia e dava início à Segunda Guerra Mundial, na qual as nações brancas a quem “coube a direção da humanidade” mergulhariam de novo numa carnificina organizada a fim de resolver seus problemas na disputa dos “interesses mundiais”. Acreditamos que a reação diante da Segunda Guerra não produziria no psicanalista o mesmo espanto que a primeira, ainda que o mesmo horror e aversão. Freud era um homem da ciência – portanto, como fica patente na frase apresentada, não imune ao preconceito. O traço distintivo é que o cientista não procura esconder os fatos sob o ataque de argumentos e justificativas, mas se propõe a entender aquilo com que se confronta de forma incômoda. Diante da eclosão do conflito, Freud sentencia: “A guerra, em que não queríamos acreditar, estalou e trouxe consigo a decepção”.

O problema, portanto, é saber por que as sociedades ditas “civilizadas” se entregavam à barbárie da guerra. O esforço dessas nações, prescrevendo aos indivíduos que dela participavam “elevadas normas morais”, muitas vezes rigorosíssimas, acaba por impor uma acentuada renúncia à satisfação das pulsões. Imerso nisto que Freud denomina de “cultura”, o homem branco civilizado – contradizendo tudo aquilo que Maquiavel afirmou sobre o fenômeno político moderno – estaria disposto a aceitar a renúncia das “extraordinárias vantagens que o uso da mentira e do engano proporciona na luta contra os outros homens”. Na guerra, no entanto, os mesmos Estados que se empenham em prescrever normas morais aos seus cidadãos se empenham em matar, mentir e promover o ódio contra outros povos, sobrepondo à condição de estrangeiro a de inimigo.

Para não nos alongarmos, bastaria dizer que, para Freud, o que a Psicanálise chegou a constatar é que os ditos instintos primitivos não desaparecem no ser civilizado, sendo antes, por assim dizer, canalizados em uma direção positiva. Mais do que isso: que os seres humanos são constituídos de instintos de natureza elementar ‒ que ganham com Freud a conceituação como "pulsões" ‒, ligados às necessidades primordiais que em si mesmos não são nem bons nem maus. Desta maneira, voltamos à ambivalência, isto é, à coexistência numa mesma pessoa de um “imenso amor e um intenso ódio”. E, como sabemos, para a Psicanálise esses impulsos frequentemente tomam a mesma pessoa por objeto – daí a ambivalência de amar quem tolhe seu desejo ou odiar quem é objeto de seu afeto.

Não apenas os indivíduos como também as nações se edificam, segundo tal premissa, na renúncia pulsional em nome da civilização. Ocorre que, diante das supostas vantagens de tal conduta, a sociedade torna-se o exercício sistemático de repressão dos impulsos fundamentais, forçando a maioria das pessoas a viver, nas palavras de Freud, “muito acima de seus meios”, aceitando formalmente as imposições morais e convivendo na prática com o que se refere às pulsões. Tal constatação leva Freud a acreditar que uma determinada sociedade é composta de fato muito mais por hipócritas do que por pessoas de cultura, de forma que chega a pensar se a hipocrisia não seria indispensável à cultura. Quando vemos os horrores da guerra, diante da decepção com que se esperava da conduta civilizada, devemos nos lembrar que aqueles que praticam os horrores, de fato, “não caíram tão baixo como temíamos, porque não tinham subido tão alto, como a seu respeito julgávamos”.

Não apenas o fato de multidões se ocuparem em levar a cabo o horror da guerra, como também a constatação de que há uma grande massa praticando uma espécie de “cegueira lógica” (o termo é do próprio Freud) faz com que cidadãos civilizados e cultos acabem por se apresentar com uma particular “obstinação e credulidade acrítica perante afirmações mais discutíveis”. Intervém aqui a racionalização, não como atitude científica, mas como mecanismo de defesa diante da emergência de impulsos que nos colocam frente a uma situação de ambivalência. Por exemplo, uma vez dirigido meu ódio a outro povo ou país, o desejo é de sua aniquilação. No entanto, matar milhares de pessoas é moralmente condenável… A menos que se trate de um povo “perigoso”, “encarnação do mal”, munido de “armas de destruição em massa” que podem atingir e pulverizar minha sala de estar e a garagem onde guardo meu carro de último tipo (mas para o qual ainda faltam pagar quarenta e oito prestações) – aí sim, se torna justificável jogar bombas, destruir cidades, assassinar milhares de pessoas incluindo crianças. Veja que o próprio Freud estaria disposto a aceitar que a guerra fosse o meio utilizado entre “raças humanas diferenciadas pela cor da pele e, inclusive, entre os povos menos evoluídos ou incultos da Europa”, mas se espanta quando a beligerância se apresenta como recurso entre os “civilizados”.

Aqui, no entanto, entra de forma abrupta a morte na escala de um horror imensurável. Lembremo-nos que um dos primeiros mecanismos de defesa seria a naturalização da morte como mera casualidade inevitável, como parte da vida. Assim procedendo, todavia, operamos na verdade no sentido de “eliminá-la da vida”, tentamos “silenciá-la”. A antiga atitude diante da morte não mais nos serve, mas ainda não se desenvolveu uma nova atitude, gerando desorientação e paralisia. A matança em massa só pode ser racionalizada se for radicalmente atribuída a um outro, distante e distinto. No fundo, segue Freud, nos comportamos como se ninguém acreditasse na própria morte, ou, em outras palavras, fosse imortal. A morte é uma coisa que atinge os outros.

Guardamos nossa atitude perante a morte para pessoas próximas e queridas, ou para figuras heroicas que representam para nós a interrupção que a morte configura: um aventureiro tentando subir ao cume de uma montanha, um time inteiro de jogadores mortos em um acidente de avião, um navio que se julgava imune a naufrágios. A morte desse outro nos atinge por que nos colocamos catarticamente em seu lugar. A guerra ‒ e, como veremos, a pandemia ‒ não comporta a atitude convencional diante da morte. As pessoas morrem, não como antes, mas aos milhares, de forma que isso não pode ser considerado acidente ou casualidade.

Apesar de fenômeno distinto por sua natureza, o ser humano não pode reagir a ele a não ser com os meios psicológicos de que dispõe. A morte da pessoa amada ou próxima, daqueles com que o indivíduo se identifica, ou mesmo uma abstração qualquer que se coloque no lugar do objeto (como pátria, liberdade ou algum outro valor), produz uma reação que Freud descreve, em "Luto e melancolia", de 1915 (publicado em 1917), como luto. Em outras palavras, o trabalho psíquico necessário diante da constatação de que o objeto amado não mais existe é o que opera no sentido de retirar todo o investimento libidinal das ligações com este objeto. A noção de trabalho aqui se apresenta uma vez que o psiquismo que tenta caminhar na direção descrita enfrenta na verdade uma forte oposição, pois ninguém abandona o investimento da libido no objeto ainda que agora ausente. Resiste, se afasta da realidade, sofre, pode desenvolver o que Freud denomina de “psicose alucinatória do desejo”. Mas o normal é que a realidade acabe por se impor e que o trabalho do luto seja feito.

Existiria um outro estado, que parte da mesma situação de perda mas se caracteriza por um profundo esvaziamento do ego, estado que Freud nomeia de melancolia. Diferente do luto, no qual o mundo se torna pobre e vazio, na melancolia é o próprio ego que se esvazia, levando a quadros de um profundo e doloroso desânimo, a suspensão do interesse pelo mundo externo, uma sentida perda da capacidade de amar, uma acentuada autorrecriminação que, em casos mais agudos, pode levar à autopunição. Outra diferença é que na melancolia a perda do objeto parece se deslocar da consciência, ao passo que no luto nada na perda é propriamente inconsciente.

Por mais interessantes que sejam as diferenças entre os dois estados e certamente as implicações clínicas envolvidas, o que nos chama a atenção é que ambos implicam num doloroso processo de desligamento do objeto. Ocorre, diz Freud em um comentário marginal (mas que para nós assume caráter determinante), que tal processo de desligamento envolve um custo psicológico muito grande, de tal forma que "se o objeto não tiver para o ego um significado tão grande, reforçado por milhares de laços, sua perda não se prestará a provocar um luto ou uma melancolia".

A triste constatação que se nos impõe ‒ e que remete à primeira parte de nossa reflexão sobre a guerra ‒ é que para boa parte de nossa população romperam-se os milhares de laços e vínculos que os unia aos seus semelhantes. Os outros são apenas isso, outros. Mais que isso: inimigos e ameaças que se tornam objeto do ódio e não da identidade. O país fraturado racionalizou uma guerra interna que dá vazão a um profundo ressentimento, como nos explicou Maria Rita Kehl em Ressentimento (2020), de maneira que outro pode receber o investimento do ódio e sua aniquilação não se converter na ambiguidade que está na base tanto do luto como da melancolia. Sua morte é somente isso, sua morte, seu desaparecimento. Não diz respeito àquele que odiava, não remete à sua própria morte, nem move sua culpa por desejá-la. É uma radical negação da morte, o exercício supremo de silenciá-la e, portanto, uma brutal afirmação de imortalidade para aquele que a nega.

Não se trata de uma mera fratura política. Como imaginava Freud na defesa de sua desejada civilização, ela só poderia se impor por meio de um longo período de incidência de uma cultura e dos meios de apresentar-se forte o suficiente diante das pulsões primordiais. Mas aquilo que se impõe como civilização, já nos alertava Walter Benjamin, pode se apresentar como barbárie. Uma relação entre seres humanos que se apresenta como uma fantasmagórica relação entre coisas, seres humanos reificados e coisas fetichizadas. Uma sociabilidade em que a própria vida não é mais que um meio de vida, em que os outros se degradam em meros meios de realização individual a serem usados e descartados. Não nos surpreende, portanto, que os “milhares de laços” que se obliteram sob o manto mercantil das coisas acabem por fazer com que os outros não tenham um grande significado para muitos e suas mortes não os toquem de forma alguma como uma perda.

A pandemia, diferentemente da guerra, parece eliminar os traços incômodos da intencionalidade, da defesa dos sagrados interesses mundiais, da defesa da civilização ou dos direitos de certos povos se afirmarem como direção da humanidade. Na sua objetividade viral, ela se espalha e mata, depois se espalha e volta a matar novamente. A racionalização possível é a conhecida casualidade incontrolável, natural e inevitável. O outro que morre é um ser descartável, não por ser o inimigo propriamente dito, mas por não ser aquele que se julga imortal. No início na pandemia da Aids, muitos a julgavam como um castigo que eliminaria os homossexuais, da mesma forma como um rabino ortodoxo afirmou ‒ até ser ceifado por ela ‒ que a atual epidemia seria a espada sagrada eliminando os pecadores. Não nos esqueçamos da “cegueira lógica” e das extraordinárias vantagens que a mentira proporciona na luta contra os outros. Nesse registro se incluem o “vírus chinês”, os remédios milagrosos, a relativização da doença (“gripezinha”), a negação do isolamento, o combate ao uso de máscaras e outras manifestações de irracionalidade (“E daí?”, “É a vida…”).

Mais de dezesseis milhões de casos e quase quinhentas mil mortes. Do meu ser são arrancados milhares de rostos, minhas mãos se tornam invisíveis diante de meus olhos e a noite é tomada por um rio de murmúrios que escapam dos corpos sem vida quando deito em minha cama. Hoje morreu uma pessoa que eu não conhecia, que nunca conhecerei e isso abre em mim um abismo que nem todas as palavras do mundo podem preencher. A indiferença e a negação me apunhalam como uma segunda morte que segue as milhares de mortes e fico com a clara impressão de que a senhora que cobre seu esqueleto com um manto escuro e segura a foice afiada em suas mãos levou muitas pessoas que já não estavam vivas.

Não é a vida que segue, é a morte que segue em seu macabro trabalho ajudada pelas hordas daqueles que a amam mais do que a vida. Lutemos para que os arqueólogos do futuro, quando escavarem os restos de nossa civilização, não encontrem como nossa principal realização a indiferença.

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