Passagem do século XX para o século XXI

Célio Garcia

 

    GARCIA, C. Passagem do século XX para o século XXI. In: Psicologia Jurídica - Operadores do Simbólico. Del Rey, Belo Horizonte, 2004, p. 46- 50    

 

O século XX preferiu ser o do fim e do começo radical, daquilo que ficou definitivamente para trás e do novo puro. Do Real, purificado de todo semblant, enfim. Poderíamos perguntar: como delimitar Real e semblant?

A violência com que se deu o combate ao semblant, violência com que pretendíamos retirar a máscara dos outros, será encontrada em diversas ocasiões. Na ordem do marxismo, a noção de ideologia designava a falsa consciência em contraposição a um Real não levado em conta, ignorado, mistificado. A ideologia sempre foi considerada uma máscara, uma figura discursiva por meio da qual aprendíamos as relações sociais na e pela violência. Daí a ideia da leitura sintomal capaz de interpretar, decifrar para chegar a um Real encoberto pelo desconhecimento, Real não percebido, já que olhado por um olhar vesgo. Méconnaissance, méprise são termos de que lança mão o francês graças ao prefixo me, partícula de valor negativo. Os termos assim criados dão conta do desconhecimento. Méconnaissance, todavia, não é um desconhecimento puro e simples.

A eficácia do desconhecimento nas ações do sujeito, nas disposições subjetivas ou coletivas, foi uma descoberta do século XX. O positivismo só conhecia a efetividade do conhecimento. A Psicanálise frequentou essas paragens e sua presença se faz sentir nas formulações da questão. Afinal, o real das pulsões só chegava ao Ego por vias indiretas. Sendo uma instância imaginária, o Ego se contentava com o nível do semblant, da máscara. Qual seria sua função diante da pressão do Real? O Real, tal como é concebido, pode muito bem passar como tal e não passar de um semblant. Como sabemos, o que vai sustentar o Real não é nada mais que um sistema de ficções.

Diante disso, a depuração vai se tornar a palavra-chave em muitas situações do século. Reforçar o partido (revolucionário ou outro) significava depurá-lo. Não foi somente o partido que conheceu a depuração, a arte também a adotou. A teoria também, e, assim, foi ela escoimada de toda carga ilusória. A paixão do Real supõe o exercício da decidibilidade, como se fosse sempre possível decidir perante o semblant; nossa experiência nos diz que, no passo seguinte, nos defrontamos com a destruição.

Após um intenso trabalho de retomada da reflexão política, dois caminhos foram admitidos:

- a depuração, tal como foi descrita;

- o caminho oferecido pela noção dita subtração.

A subtração nos remete ao estatuto do objeto contemporâneo em termos de ausência, que pode ser encontrada no ready-made de Marcel Duchamp (Roda de bicicleta) e em Quadrado branco sobre fundo branco, quadro de Malevich.

Vamos marcar uma distinção entre a leitura a partir do Simbólico, ao que parece atendendo a uma busca do Real a todo custo, e uma leitura que inclui o Imaginário, o que faria com que aceitássemos o semblant, sem pretender eliminá-lo.

Consideremos a abordagem de Philippe Lacoue-Labarthe, proposta em uma conferência realizada em Belo Horizonte, no dia 30 de abril de 1999, na FAFICH-UFMG. O argumento de sua conferência se constrói a propósito do quadro de Rafael, Madona Sistina. Trata-se de uma figura de Maria, a mãe, que tem em seus braços o filho, Jesus. Ele considera o objeto de culto, a Madona, que como tal se encontra no lugar que lhe coube quando criado, ou seja, entre duas janelas da Capela Sistina; ele considera igualmente o objeto, quando exposto em museu, seguindo a história e o destino da arte a partir da Renascença. Nessa segunda perspectiva, o quadro já não estava mais no lugar que lhe cabia, ele estava fora do lugar. Lacoue-Labarthe sugere que havia vrai-semblance na Madona tal como ela se encontrava na igreja: não era quadro, figura, decoração, nem exposição; era a verdade, um vrai-semblance. Quando passamos à exposição (museu), cabe o que assinalamos em termos de máscara, semblant, ideologia, sintoma.

Poderíamos mencionar Aleijadinho e seus Profetas no adro da igreja. Imaginem os Profetas transportados para o interior de um museu, sob pretexto de uma exposição ou de protegê-los do tempo. Do mesmo Aleijadinho, a Paixão de Cristo faz ver corpos mutilados, mutilação do próprio artista, mutilação das figuras de protagonistas da Inconfidência – do século XVIII mineiro. É uma figuração teatral que os mostra e exibe precisamente no lugar onde os acontecimentos se deram. Se passamos ao lado, sem uma palavra sequer, é porque o valor de exposição (museu) se sobrepõe aos corpos, mesmo que eles permaneçam no lugar que lhes convém. Deles, os turistas só se lembram graças aos souvenirs, exangues, tão kitschinhos, coitados.

A arte teria alcançado seu final, diz-se, com o declínio da forma representativa. O diagnóstico encobre uma questão importante: o que seria o Real na arte? Como um Real pode ser encontrado na arte? Sabemos que se esgotou sua doutrina mimética, assim como o romantismo. Terminada a era das figuras acima mencionadas, convoca-se agora a arte em seu ponto de Real. Para isso, basta não se remeter às considerações de Alain Badiou sobre o quadro de Malevich, Quadrado branco sobre fundo branco. Gérard Wajcman faz, em seu livro L’objet du siècle (1998), uma consideração próxima à de Badiou: o objeto do século no século dos objetos sugere o Real do século. Três objetos foram escolhidos por Wajcman: um outro quadro de Malevich, Quadrado negro sobre fundo branco, o ready-made de Duchamp e a Shoah (sobre o extermínio dos judeus pelo nazismo). De que se trata no Quadro branco sobre fundo branco? Trata-se do máximo de depuração em termos de pintura, uma vez que a cor e a forma são eliminadas e apenas um índice formal é mantido? Não, muito pelo contrário. Diríamos que conseguimos uma diferença evanescente.

Podemos trabalhar com a hipótese de um pensamento subtrativo, ou seja, funcionando com uma diferença mínima entre as coisas, evitando assim a destruição. Não se trata de interpretar ou explicar a destruição da pintura, mas de uma assunção através da subtração, próxima ao gesto de Mallarmé em poesia que consistia em tirar partido da diferença mínima, isto é, poetizar a diferença entre o ter lugar e o lugar. Essa diferença mínima é o quadrado branco sobre o fundo branco como ponto de indecidibilidade máxima que apaga todo contorno. Por que podemos dizer que Malevich aponta para outra coisa que não a segregação, fonte de destruição? Porque, de certa maneira, em vez de tratar o Real como identidade, ele é tratado como diferença ou distância entre uma coisa e outra. Em outras palavras, vamos abordar a questão entre o Real e o semblant, não por força de uma depuração ‒ que isolaria o Real como tal, gerando um processo infinito de destruição ‒, mas admitindo que a distância é real, e que o Real é o quadrado branco sobre o fundo branco, isto é, o momento em que alcançamos a distância mínima.

Para resumir o que acabamos de desenvolver, diríamos que a abordagem do Real divide-se em duas:

- a paixão pelo Real como identitário ou ainda a apresentação da identidade do Real, o que supõe desmascará-lo, desmascará-lo em todas as suas cópias, uma paixão pelo autêntico, enfim. A paixão identitária, agora sabemos, é destruição;

- a outra figura da paixão pelo Real é a paixão pelo diferencial; ela se dedica a construir a diferença mínima, o que significa opor-se à destruição máxima.

Certamente que na invenção há um ato novo como invenção de um contorno, diferença mínima onde há um quase nada. Eis a abordagem por subtração, ainda que, por vezes, ela possa caminhar encoberta pelo barulho da destruição. Como caminhar, pois que caminhar é preciso, sem que nossos passos sejam encobertos pelo ruído da destruição por nós provocada, pelos trejeitos e artifícios da depuração? O antigo é o antigo, não há problemas. O antigo se reforça por força da depuração. E o novo? Qual a conexão entre o fim e o começo?

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