Racismos: apenas existem raças de discursos

Jésus Santiago

 

Não há no mundo um só racismo! Há racismos, no plural! Existem tantos racismos quanto são os “discursos em ação”[1] que lhes circunscrevem sob o modo de teorias e práticas segregativas. Portanto, raças e racismos são coisas inseparáveis. Precisamente, os racismos antecedem o saber sobre as raças, ou seja, é o racismo que cria as raças, e não o contrário. Esse verdadeiro mito de raças diferentes e hierarquizadas é produto de discursos que emergiram, no início do século XVIII, com repercussões evidentes no discurso da ciência. Para a psicanálise, as raças constituem um mito criado por diversas manifestações de discursos dominantes.

Assim, o paradigma de cunho racial faz-se presente, por exemplo, em iniciativas de naturalistas – entre outros, como Carl von Linné (1707-1778) – que buscavam um princípio de classificação de grupos de homens e de animais em categorias, segundo critérios biológicos e morfológicos. Os problemas acarretados por esse esforço de classificação agravam-se com o advento do evolucionismo darwinista, no século XIX, quando os critérios da antropologia física dão lugar a critérios biológicos e genéticos. Reforça-se, então, no contexto do saber, a ideia de uma hierarquia das raças, como resultado de uma presumível evolução do patrimônio hereditário modificado por adaptação ou por seleção natural.

Paradoxalmente, o próprio avanço da ciência acaba por demonstrar o equívoco desses princípios classificatórios, concluindo-se que sua postulação padece de uma nítida ideologia de viés racista. Os desenvolvimentos recentes e promissores da genética molecular e o sequenciamento do genoma humano torna possível um exame detalhado da correlação entre a variação genômica, ancestralidade biogeográfica e aparência física. Tais estudos revelam que as designações empregadas para distinguir as “raças” – amarela, negra, branca, vermelha – não têm qualquer base científica demonstrável. Por mais que possa parecer fácil distinguir fenotipicamente um europeu de um africano ou de um asiático, tal facilidade desaparece por completo quando se procuram evidências de diferenças “raciais” no genoma humano[2].

Lacan, nos anos 60, sob os auspícios do instrumental clínico da psicanálise, tem a ousadia de profetizar o recrudescimento do racismo[3] no momento em que os novos ares dos tempos sopram mudanças do mundo – fim do patriarcado, transformação da família, igualdade entre os sexos e revolução sexual. Para surpresa de todos, ele prognostica a escalada do racismo em função do que, na época, já se esboçava como o mundo dos mercados globalizados. Desde então, a atividade clínica do psicanalista extrai sinais evidentes de que as diferenças raciais se tornam intoleráveis, sobretudo quando emergem e se misturam em um mesmo espaço de convivência.

Neste ponto preciso, deduz-se o princípio lacaniano dos racismos: se o Outro não goza da mesma maneira, o Outro deve ser repelido e rechaçado. Eis também o que está na raiz da depreciação e difamação de mulheres e que se pode nomear como racismo antifeminino. A perspectiva contemporânea do capitalismo de globalização dos mercados, com a intensificação de novas ficções e novos imaginários de consumo, colocam em risco as diversas tendências civilizatórias cujo plano que lhe serve de base pode ser uma cultura, região ou país. A imposição dessas formas homogeneizadas de consumo ameaça a existência de modos singulares de gozo, especialmente, nos dias de hoje, em que não se goza da mesma maneira em relação a estilos de vida, crenças religiosas, Deus e, sobretudo, ao próprio corpo.

A psicanálise antevê a necessidade de uma “terapêutica de massa[4] que se traduz na promoção de discursos públicos que ofereçam outras perspectivas a sintomas do ódio implacável e da intolerância ao Outro. Tais discursos, inspirados na psicanálise, podem contribuir para tolher a cristalização de sintomas sociais que, no caso do racismo, têm sua raiz no gozo do corpo. Se certo número de discursos produzem identificações que convergem para o obscurantismo retrógrado, a defesa intransigente da tradição patriarcal, a hostilidade à vida civilizada, enfim, a morte do Outro, não há razão alguma para impedir a existência de outros discursos que se oponham à solidificação de tais identificações e que se transformam em ações dissolventes e corrosivas delas. Enfrentar a questão do racismo constitui um dos maiores desafios para a consolidação dos impasses atuais da democracia, concebida sob a égide do princípio republicano das liberdades públicas e da tolerância ao Outro. Dentre esses impasses devo destacar que as democracias atuais lutam contra suas duas doenças internas: a tirania da maioria e a tirania das várias minorias.

A presença dos racismos no mundo atual é um forte indício de que o gozo tornou-se, de uma vez por todas, um fator decisivo para as direções políticas que têm lugar na civilização atual. Essa entrada do gozo na política evidencia que, nos dias de hoje, o privado mistura-se com o público. Diante disto, penso que a psicanálise não poderá conservar a distância sarcástica com relação à questão política tal como ela o fez nos tempos das ideologias[5].

Com a hipermodernidade do capitalismo explicita-se a junção do inconsciente com a política. Toma-se o inconsciente pela presença do Outro e de seus discursos na existência privada do sujeito. A escolha do sujeito, sua escolha inconsciente, não é sem relação com o Outro e naquilo que nele se exprime por meio de seu patrimônio simbólico. Se a homogeneização do mundo globalizado desfaz as fronteiras e os particularismos, produz também certa fixação identitária de aspiração local e comunitária face ao risco de desaparecimento das trajetórias singulares do sujeito. As identidades tornam-se cada vez mais múltiplas e, no caso do Brasil, elas também se exprimem por meio de movimentos políticos e comunitários que, ao mesmo tempo, constituem-se numa espécie de refúgio para o racismo.

Se a reivindicação identitária é o retorno do recalcado gerado pela universalização do mundo, considera-se ainda que a identidade não é suficiente para dar conta do racismo que atinge a subjetividade de negros, pardos e mestiços. Eis uma das questões com a qual a política lacaniana se confronta diante das graves manifestações da segregação racial em um país profundamente miscigenado. É certo que a identidade por si só não oferece uma via de solução para o sintoma do racismo, pois se admite que esta não se apresenta como horizonte para a subjetividade do sujeito segregado. Nenhum sujeito segregado deseja ser reduzido àquilo que se torna objeto de sua exclusão do laço social. Se são da natureza do laço social a diversidade e a fragmentação, cada vez que se reforça a tendência em restringi-lo a uma identidade baseada no universal do pai, do masculino ou do branco, intensifica-se a segregação. Favorecer a presença de discursos públicos que se orientam por valores civilizatórios compatíveis com a vida exige da política lacaniana apresentar-se como não-identitária, ou, como propõe a colega Clotilde Leguil, incitar o sujeito segregado à “travessia das identidades”[6].


Notas

[1] LACAN, J. O aturdito. (1972) In: ___. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 463. 

[2] PENA, S. D. J.  Desinventando as raças. In: LANDIM, M.I.; MOREIRA, C.R. Charles Darwin. Em um futuro não tão distante. São Paulo: Instituto Sangari, 2009. p. 129. 

[3] LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: ___. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 263. 

[4] MILLER, J.-A. L’homme décidé: entretien avec Jacques-Alain Miller. Paris: Vacarme, 2014. 

[5] MILLER, J.-A. Lacan et la politique. Cités, n. 16, p. 122, 2003. 

[6] LEGUIL, Clotilde. “Je” Une traversée des identités. Paris: PUF, 2018.

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