Respostas – se assim podemos dizer – a uma questão

 

Christiane Alberti – Sua obra Modo de gozar no feminino[1] aborda o feminino sem gênero, em uma incessante tentativa de captar o feminino, por uma via onde homens, mulheres, ... não são mais do que cores, como o diz Lacan. “A cor não tem nenhum sentido”, mas ela opera como diferencial.

Você evoca em sua obra modalidades de gozo no feminino, que condensa nessa forte enunciação: “eu sou a própria barra”[2], para cuidadosamente distinguir de uma posição de intriga histérica na qual se trata para um sujeito de se fazer enigma, por vezes até o mutismo.

Imediatamente, os fragmentos clínicos de que você faz uma série me evocaram um avanço de Jacques-Alain Miller, do qual cito um trecho: “A mulher não existe não significa que o lugar da mulher não exista, mas que esse lugar permanece essencialmente vazio. Que esse lugar fique vazio não impede que se possa encontrar aí alguma coisa”[3].

Do vazio de “A mulher não existe”[4], um gozo é possível, gozo correlato à falta de um significante para dizer A mulher, portanto um gozo não reabsorvível na linguagem, gozo do corpo, mais além do falo.

Nesse sentido, você sustenta e esclarece que, no lugar desse vazio, podemos encontrar aí uma energia plena. Uma energia plena dentro de um lugar vazio. Eu diria que o que se apresenta como um excesso de vida transborda o sujeito intermitentemente.

Essa energia não encontra sua mídia privilegiada nos equívocos da língua, na junção do significante e do real, aquém do sentido, lalangue como suporte de um gozo do corpo não sexuado, a-sexuado que esvazia o ser, onde se acentua o caráter não fixado em termos do ser, uma variabilidade, rompendo radicalmente com toda fixidez em termos de posição sexuada? No entanto, essa via não implicaria, a meu ver – e você estaria de acordo? –, sustentar que haveria uma escrita ou uma fala feminina? E isso, qualquer que seja a sensibilidade extrema das mulheres às palavras, que pode esclarecer certos excessos do neofeminismo e mesmo se, ao ler Le Carnet d’or, de Doris Lessing[5], ficássemos tentados a dizer: apenas uma mulher poderia escrever isso!

Será que em todo caso, essa via privilegiada da língua não esclarece isso que Lacan entende por “a instância social da mulher”[6], a saber a incidência no social das inovações, invenções, que podemos qualificar relativas ao feminino, no sentido em que elas transcendem a ordem do contrato[7], ultrapassam o comum da lei e, nesse sentido, têm repercussões sobre a sociedade inteira? Surgimentos contingentes que nenhum significante mestre coletiviza.

 

Marie-Hélène Brousse – Antes de fazer sua pergunta, você relembra a afirmação de Jacques-Alain Miller: “A mulher não existe não significa que o lugar da mulher não exista, mas que esse lugar permanece essencialmente vazio. Que o lugar permaneça vazio não impede que se possa encontrar aí alguma coisa.” É exatamente isso!

É desse vazio que parti. Eu fiz disso o centro do desenho que proponho[8], me inspirando no esquema[9] que se encontra no seminário 20, Mais, ainda [Encore], título eminentemente equívoco, em corpo [en corps], no corpo. Esse esquema se apoia também sobre o conselho de Lacan de sempre abordar os fenômenos clínicos em psicanálise a partir das três dimensões: do imaginário, do simbólico e do real. Guiada por essas duas indicações de caminhos, eu adentrei o continente negro! A noção do vazio, eu a tinha colocado à prova aprendendo com dois especialistas da física quântica, em torno de uma definição do vazio opondo-o ao nada e especificamente aos buracos negros. Em resumo, um vazio que é um cheio.

À sua primeira questão, “esse vazio, como o faz o equívoco na junção do significante e do real, rompe ele radicalmente com toda fixidez em termos de posição sexuada?", eu respondo sim, exatamente. À sua segunda questão, sobre a extensão impossível do adjetivo feminino à escrita e à fala, eu respondo sim também.

À sua terceira questão, retomando isso que Lacan chama “a instância social da mulher” e as inovações que ela produz não coletivizáveis, eu não estou certa de responder sim, pois eu penso que Lacan chamará em seguida isso que ele nomeava então “instância social”, um discurso. Ora, um discurso, exceto o discurso analítico, é sempre um modo de dominação que coletiviza um significante mestre. Eu vou desdobrar um pouco como suas três questões ressoam [résonnent] ou raciocinam [raisonnent] para mim.

Partamos de que eu falo do feminino e não d’A mulher, mas tampouco de mulheres. De fato, falo igualmente de homens, pois algumas das falas que cito foram enunciadas por homens.

O discurso e mesmo os discursos em geral se ordenam, queiramos ou não, por um lado, pela abordagem biológica, ou seja, da perspectiva da reprodução e, por outro lado, pela abordagem pelas identificações, sempre baseadas no gênero. Parto, ao contrário, dos corpos falantes. Mesmo se a história mostre que as diversas organizações do laço familiar quiseram sempre, de diferentes maneiras, limitar a fala das ditas mulheres na praça pública – a feira, diz Lacan – até que se prove o contrário, mesmo aquelas ditas “mulheres” sempre foram seres falantes. Elas pertencem à mesma espécie, a espécie humana, que os ditos homens e vivem no mesmo lugar, o lugar da linguagem. Portanto, a partir do momento em que se fala dos homens e das mulheres, desliza-se em direção ao universal e ao todo. É por isso que Lacan tem o cuidado de dizer os “ditos homens” (dits-hommes), as “ditas mulheres” (dites-femmes).

Falar do feminino obriga a libertar-se da mãe. Lembremos a afirmação de Lacan em “Televisão”, segundo a qual o inconsciente só conhece a mãe[10]: o inconsciente de Freud, o inconsciente decifrável, aquele do Édipo, sem dúvidas, mas não o inconsciente real, aquele não dos falasseres, mas dos corpos falantes. Vem daí o primeiro texto deste pequeno livro sobre as mutações da função materna tais como analisadas politicamente por Lacan no seminário 21, Les non-dupes errent[11]. Para falar do feminino, é preciso romper com a ideia de que mães são homens quase como os outros. Eu digo quase porque elas são determinadas, certamente de maneiras diferentes, mas sempre por esse objeto a, a criança, na medida em que saiu delas.

Uma vez que se operou esse corte entre mulher e mãe, resta operar um segundo entre mulher e feminino. Mulher reenvia sempre ao binário estrutural do funcionamento dos significantes, enquanto substantivar o adjetivo feminino permite reenviar a um modo de gozo específico, que Lacan considera como suplementar ao gozo do órgão e ao gozo fálico (função castração). Como você diz em sua terceira questão, esse gozo é fundamentalmente não coletivizável, e eu acrescentaria não localizável nas diferentes zonas erógenas divididas sobre o corpo por seus orifícios.

Daí decorre que o feminino enquanto modo de gozo não é próprio das “mulheres”.

É a razão pela qual, como você, eu não penso que se possa falar de uma escrita ou de uma fala feminina sem recair na perspectiva do discurso e das identificações, perspectiva que faz funcionar o sexo como faz funcionar a raça, a idade ou o caráter por exemplo. Você diz, a respeito do Carnet d’or, de Doris Lessing, que é difícil não pensar: “apenas uma mulher pode escrever isso!” [il n’y a qu’une femme qui puisse écrire cela!”]. Eu te responderia que o “há” [il y a] associado na sua formulação a “uma mulher”, coloca essa escritora em uma posição de exceção: aquela que responde a ∃x tal que não Φ de x. Por que não? Sem dúvida, pensaria em seu estilo que é único e que toca em você algo da própria singularidade de sua relação com o mundo e com lalangue. Por que reduzir ao sexo ou ao gênero essa singularidade que toca a relação com a língua quando ela se serve dela, de uma maneira que toca em você, a sua? E, além disso, trata-se de um gozo que é de uma outra ordem do que aquele do corpo, não se trata de um orgasmo.

Vamos à barra. Você toca no ponto ao qual eu chego a partir desses dizeres analisantes sobre uma forma de gozo que surpreende aqueles ou aquelas que o experimentam. Propus uma formulação: se fazer a própria barra[12] [se faire la barre elle-même]. São experiências bastante raras relatadas por aqueles ou aquelas que as encontraram como tendo ocorrido de surpresa, inéditas. Elas escapam a qualquer localização proveniente da divisão das zonas erógenas. Produz-se um buraco negro no Outro do simbólico e do imaginário, e se manifesta uma presença do corpo inteiro ligada ao desaparecimento de toda representação, a qual sempre é articulada à fantasia. É então um gozo sem a barreira da fantasia, fora de qualquer determinação. Pela expressão “cair fora” [se barrer] eu tendo a apostar que o corpo falante e isso que J.-A. Miller chama o “mais ninguém”[13] – des-subjetivação, des-objetificação – coincidem por um momento.

Agradeço por você ter me lido com tanta elegância!
 

Tradução: Olívia Viana
Revisão: Luciana Silviano Brandão 


Notas 

[1] BROUSSE, M.-H. Mode de jouir au féminin. Paris: Navarin, 2020. Disponível em ECF-Echoppe. 

[2] BROUSSE. Mode de jouir au féminin. Op. cit., p. 94. 

[3] MILLER, J.-A. Des semblants dans la relation entre les sexes. La Cause Freudienne, n. 36, p. 7, maio 1997. 

[4] LACAN, J. Televisão. (1972) In: ___. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 535. 

[5] LESSING, D. Le Carnet d’or. [The Golden Notebook] Paris: Albin Michel, 1976. 

[6] LACAN, J. Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina. In: ___. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 745. 

[7] LACAN. Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina. Op. cit., p. 745. 

[8] BROUSSE. Mode de jouir au féminin. Op. cit., p. 78. 

[9] LACAN, J. O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p. 84. 

[10] LACAN. Televisão. Op. cit

[11] LACAN, J. Le séminaire, livre XXI: Les non-dupes errant. (1973-1974) Inédito. 

[12] BROUSSE, M.-H. Mode de jouir au féminin. Op. cit., p. 93. 

[13] MILLER, J.-A. L’orientation lacanienne. Nullibiété. Tout le monde est fou. Curso do Departamento de Psicanálise da Universidade Paris 8. Aula de 11 de junho de 2008. Inédito.

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