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 logoder Revista Derivas Analíticas - Nº 25 - Agosto de 2026. ISSN:2526-2637  

Editorial 

Enigma

Cristiana Pittella
Psicanalista

Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP)
e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
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editorial25Antonio Obá - Situação terreiro: estripulia, 2025

Por que Derivas Analíticas se dedica ao enigma?

Consideramos que o enigma ocupa um lugar central na própria condição e experiência humana.

O que sou? De onde vim? Para onde vou?

O enigma está ligado à falta estrutural de saber e ao sem sentido que a própria existência humana coloca em jogo.

Vários campos de saber desenvolvem interpretações transmitidas pelos textos e pela tradição. Dedicam-se a inventar respostas.

Abordarmos esse tema, hoje, é uma oportunidade, uma abertura e um frescor, pois as exigências de transparência, de desempenho e de mais satisfação, marcadas pela tecnologia e pelo excesso de informações, evitam a complexidade, o conflito e afastam o ser falante da verdade e do desejo.

Várias são as ofertas de apagamento, rechaço e tamponamento do enigma com um saber prêt-à-porter. Diferentemente, diante do mistério da existência, do corpo falante e da opacidade do mundo, a arte, ao desbravar o caminho, nos convida a nos deixar ser habitados pelo enigma. Ela nos aproxima da psicanálise.

A psicanálise, o encontro com um psicanalista, permite que as formações do inconsciente – sintomas, ato falho, chistes e lapsos –, inicialmente enigmáticos, sejam decifrados pela interpretação. Entretanto, o enigma não se reduz ao sentido, pois ele toca os limites da linguagem diante do real. Há uma dimensão da subjetividade que permanece irredutivelmente enigmática, cujo núcleo é o ser humano como um enigma para si mesmo.

Em sua rubrica Aquele texto, Derivas 25 endereça ao leitor uma das correspondências de Freud a Fliess, convidando-o a se deixar levar pelo que não cessa de não se escrever na escrita dessa carta. Nela, Freud revela o quanto seu trabalho e a invenção do aparelho psíquico se sustentam a partir do que lhe aparece obscuro e enigmático.

Vilma Coccoz nos brinda com um “Elogio do enigma”! Ela parte do mito de Édipo para ir além. Com Freud e Lacan, percorre os caminhos e descaminhos do desejo como um enigma em si mesmo. Preservar esse caráter opaco possibilita a cada falasser inventar uma solução que convenha à sua singularidade. E ela alerta: aqueles que tentam eliminar o enigma que cada ser humano representa estão condenados à cegueira e condenam a humanidade à desaparição.

O texto de Laurent Dupont, “A dignidade do enigma”, atualiza a importância do enigma no mundo, cujo empuxo é o de suprimi-lo. Seja pela via do cientificismo, ao propor sentido a tudo, na tentativa de reduzir o psiquismo ao cérebro, seja ao tentar reduzir o humano numa série de algoritmos.

Ao entrarmos em Mathesis, encontramos Simone Souto, cuja escrita propõe o enigma como a evidência da não-relação sexual. Com uma vinheta de sua clínica com a psicose, ela nos ensina a importância de não se tamponar o enigma com um saber, o que permite que cada um possa inventar, no encontro com o analista, um modo de se virar com o sem sentido que o habita.  

Ram Mandil enlaça Charada, Daniel e Joyce numa “arte de entrelinhas”... Seu texto “Joyce, o enigmista” é leve e rigoroso. O leitor verificará que há algo no enigma que resiste à sua resolução, o nó da não-relação sexual.

“Enigma e mistério” é o tema do texto de Sergio de Mattos. Com rigor conceitual e escrita envolvente, o autor nos conduz por um percurso instigante em torno da distinção entre tais termos. Ao desenvolver essas noções a partir de Freud e Lacan, demonstra que, embora designem formas distintas pelas quais o real se apresenta ao falasser, enigma e mistério constituem duas modalidades de aproximação ao real. 

“O enigma do feminino” é abordado por Graciela Bessa. De Freud até a formulação de Lacan do feminino enquanto um gozo que não se restringe à sexualidade feminina. Gozo experimentado pelo ser falante, na ausência de sensação de si mesmo, alteridade absoluta. As defesas que se erigem ao feminino são muitas, e o leitor poderá encontrar, entre elas, uma das causas do feminicídio.

Por sua vez, Vinícius Lima pergunta-se: “Enigmas do masculino?”. A queda dos ideais e o empuxo ao gozo levam ao recrudescimento de uma virilidade caricatural, que flerta com a misoginia. Leiam o percurso de sua escrita para apreender o que está em jogo nas correntes masculinistas como os red pill, os incel... E, se o leitor quiser ir mais além, o convidamos a apreciar o livro Homens em análise: travessias da virilidade.[i] Nele, Vinícius demonstra os destinos que uma análise pode oferecer aos homens, considerando as ressonâncias sociais e políticas da virilidade.

“‘Sou o que digo que sou’: há enigma na era do cogito contemporâneo?”: Cristiane Grillo responde a essa pergunta a partir de sua experiência com adolescentes. Suas vinhetas clínicas demonstram o quanto os enigmas do sexo, da origem e da morte ressoam no corpo. Ao verificarmos na contemporaneidade um rechaço do inconsciente, no empuxo à autonomeação e ao autoengendramento, o encontro com um analista pode introduzir, ao modo de cada adolescente, um tempo e um espaço para a singularidade do enigma e o direito à interpretação.

Na esteira do contemporâneo, Maria Rita Guimarães pergunta: “O conluio das tecnociências com o capitalismo na gestão da vida: qual espaço para o enigma?”. Ela faz um sobrevoo rico e detalhado sobre o laço gestionário da vida, atado entre biotecnologia e capitalismo, e o empuxo para se ter o bio-objeto em mãos, cuja lógica é universal. Maria Rita, ao aterrissar, deixa em aberto uma questão fundamental: há modos de sair desses circuitos capitalistas, nos quais as fronteiras que impediriam o gozo ilimitado já não se sustentam?

Em Você disse contemporâneo...

Derivas entrevista João Pedro Campos, mestre em IA, sobre o “Enigma na era da inteligência artificial”. Ele nos define o que é inteligência e a difere da inteligência artificial, delimitando suas funções, seu alcance e usos cada vez mais ampliados em diversos campos da vida do ser falante. Ao contemplar a diferença da subjetividade humana e o procedimento matemático das máquinas, em relação à aprendizagem, ao saber, ao pensamento e ao ato, ele ressalta ser imprescindível o estudo dos limites e da ética das IAs. Leiam!  

E no Podcast, Ana Helena Souza conversa com Teodoro Rennó Assunção, professor associado da Universidade Federal de Minas Gerais. Ele trabalha na área de Letras Clássicas, com ênfase em poesia arcaica, especialmente com estudos sobre as obras de Homero – a Ilíada e a Odisseia – mas, também, sobre Hesíodo e a “lírica arcaica”. O leitor agora poderá ouvir, na conversa dos dois, sobre a origem da palavra enigma na Grécia Antiga e outras formulações do enigma da Esfinge.

Escutem e verifiquem as ressonâncias com o que leram!

Agradecemos a João pela contribuição e generosidade com que respondeu às nossas inquietudes e perguntas. Agradecemos também a Teodoro, por ceder sua voz e seu conhecimento para a nossa Derivas.

Em Sinopses, Resenhas Etc. & Tal... 

“Enigmas em Infância” é matéria para Cristina Vidigal escrever a infância narrada por Graciliano Ramos. Seu desamparo, desafios, respostas sintomáticas e invenções são construídos por Cristina, que transmite o esforço do sujeito em “ler com os ouvidos” e fazer com que “as coisas e as palavras façam sentido”. O trabalho do menino Graciliano, destacado por ela, de alfabetização e letramento, é dirigido ao enigma, que se presentifica para ele nos intervalos, nos vazios do que o Outro enuncia, do que ele encontra no mundo e em si mesmo no encontro com a língua e o real.

Em “Borges e o enigma”, Daniela Viola é levada, pelo “esforço de poesia” necessário numa análise e o fundamento enigmático do falasser, a encontrar-se com Borges que, vivendo a obscuridade no próprio corpo, faz uso de sua experiência enigmática com a poesia, para tratar o real pela escrita. Saboreie sua leitura!

Olívia Viana, em “Vaga-lumes, pássaros e mariposas: um voo entretempos pela pintura de Antônio Obá”, nos transporta e nos conecta às telas de Antônio Obá. Vejam como sua obra causa um encantamento do mundo e a instauração do enigma para cada um. Olívia, com sua escrita, não preenche ou dá sentidos aos enigmas que encontramos, e ressalta como o imaginário contido nas telas de Obá é um modo de abordar o real.

Antônio Obá é um dos artistas contemporâneos mais prestigiados no cenário internacional. Seu trabalho investiga as relações de influências e contradições dentro da construção cultural do Brasil colonial e contemporâneo. Ele desafia a história oficial, cria narrativas de resistência e reflexão sobre a ideia de uma identidade nacional ao celebrar a cultura negra.

Nossos agradecimentos a Antônio Obá pela generosidade em ceder as imagens de algumas de suas obras para a Derivas 25. Agradecemos também à Galeria Mendes Wood pela pronta disponibilidade e acesso.

O leitor poderá conhecê-lo um pouco nesse vídeo publicado no Instagram. Antônio Obá fala sobre sua relação com o corpo para o Canal Curta! Não teríamos aí, algo do mistério do corpo falante? Cliquem ! 

Yolanda Vilela, em “Opacidade que não cessa de não se esclarecer: comentário de O enigma, de Pascal Quignard”, ressalta o quanto ele apresenta o enigma como uma estrutura do real, que resiste à significação, e não como um mistério a ser resolvido. O escrito quignardiano tem a estrutura de enigma e, em seu conto, o enigma aponta para um vazio estrutural e por isso ele tem, como a autora destaca, uma atmosfera tão inquietante e perturbadora. Acompanhem a leitura que ela faz desse conto.

“O enigma em Edward Elgar”, de Marina Del Papa, nos transmite e demonstra o quanto a sua obra advém de um saber-fazer que segue o rastro do real. Uma de suas criações mais célebres advém de uma experiência enigmática, cuja nomeação ele realiza com Enigma Variations.

Ler seu texto poderá levar o leitor a também querer experimentar essa escuta enigmática.

Agradecemos o Quarteto de Cordas da PUC-Minas, composto pelos músicos Edson Queiroz (1º violino), Vitor Dutra (2º violino), Joice Coutinho (viola) e Antônio Viola (violoncelo), por nos presentear e nos possibilitar degustar o que Marina Del Papa nos transmite.

Cristiane Barreto, em “Corpo de Baile, Cara-de-Bronze e o ‘quem das coisas’: um claro enigma”, nos conduz ao universo roseano do ser tão... complexo, vasto e obscuro. Fazer essa travessia com ela, com suas letras e entrelinhas, é deixar-se habitar pelo enigma tal como nos propõem os poetas, ou, ainda, meditar e aventurar-se nas frases de Rosa.

Chegamos ao fim desta Derivas.

Agradecemos a cada autor e artista, a cada um que colocou aqui a voz, o olhar e o seu grão.

Que a leitura desta Derivas seja uma experiência de imersão no enigma.
 

[i] LIMA, V. Homens em análise: travessias da virilidade. São Paulo: Editora Blucher, 2024.

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Equipe Editorial          

Cristiana Pittella (Coordenação)
Ana Helena Souza
Bruna Albuquerque
Daniela Viola
Laura Rubião
Olívia Viana
Vinícius Lima

Revisão: Sílvia P. Barbosa
Edição de Vídeo: Bruno Senna
                                 

Conselho Editorial da EBP-MG

Cristiana Pittella
Fernanda Costa
Gilson Ianini
Helenice de Castro
Henri Kaufmanner
Lucíola Macedo
Maria José Gontijo Salum
Sérgio de Castro

Diretoria da EBP-MG

Ludmilla Féres (Diretora Geral)
Anamáris Pinto (Diretora Adjunta Secretária –Tesoureira)
Fernanda Costa (Diretora de Biblioteca)
Bernardo Micherif (Diretora de Cartéis e Intercâmbios) 

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