EDITORIAL - 12 

 

A pulsão e seus aparelhos 


Nesta publicação, como ocorre em outras derivas, nos deixamos conduzir pelos acontecimentos. 

Neste número, privilegiamos discutir novas vicissitudes e novos efeitos que estão na pauta da atualidade: a internet e a Psicanálise; a pandemia, a tecnologia e as incidências sobre o corpo; a presença e o virtual. 

Em várias ocasiões, no seminário Os Quatro conceitos fundamentais e no escrito Televisão, Lacan propõe traduzir o Trieb freudiano por deriva, para esclarecer assim, sua característica, oposta àquela proposta na tradução deste conceito por instinto. Instinto, entendido como um programa biológico que visa um objeto específico que o satisfaz.

No Seminário XX, mais ainda, ele diz: 

Enfim, por enquanto, temos os Três ensaios sobre a sexualidade, aos quais lhes rogo que se reportem, porque terei novamente de usá-los sobre o que chamo de deriva para traduzir Trieb, a deriva do gozo.[1] 

A pulsão se caracteriza por estar à deriva! Por estar remetida à contingência dos encontros, sempre faltosos, ordenados pela linguagem. Deriva quer dizer que estamos sempre orientados para encontrar o equívoco, em função das incontáveis maneiras de ser satisfeita parcialmente. No encontro entre os corpos e a linguagem, o gozo obtido nunca é o esperado. Não é isso! 

Em que medida a pulsão e seus equívocos poderiam se articular aos usos e efeitos da internet? Seria a internet, por exemplo, uma extensão do que Lacan propunha, que “A realidade é abordada com os aparelhos de gozo”[2]

Para desenvolver uma discussão entre esses termos, recorremos a Marshall McLuhan, teórico da comunicação, quem nos anos 1960/70 introduziu uma reflexão crítica sobre os efeitos das tecnologias em nossas vidas, famoso por cunhar o aforisma O meio é a mensagem[3] e haver antecipado a internet trinta anos antes de sua invenção. Para esse autor, a mensagem de cada meio não é seu conteúdo, o sentido comunicado, mas, ao contrário, a soma total de todas as mudanças que ele produz no mundo, transformando o ambiente. Por exemplo: a mensagem dos automóveis é toda a infraestrutura criada para mantê-los. Essa visão se opõe àquela do General David Sarnoff, que declarou: “Estamos sempre inclinados a transformar o instrumental técnico em bode expiatório dos pecados praticados por aqueles que os manejam. Os produtos da ciência moderna, em si mesmos, não são bons nem maus: é o modo com que são empregados que determina o seu valor.” Fica claro que essa afirmação ignora a natureza dos meios como ativos agentes de efeitos. Temos aqui a voz do sonambulismo de nossos dias. 

Ao contrário da opinião do militar, é preciso considerar que, primeiro, a tecnologia serve como extensão de nossos órgãos, mas, sem que percebamos, nossos aparelhos transformam nosso ambiente e somos nós que nos tornamos seus servos. O pensador das mídias acaba por adotar uma “teoria da doença” que explicaria a invenção das tecnologias como uma resposta contra as pressões que excederiam o equilíbrio orgânico, através de um entorpecimento da função sobrecarregada e um estímulo para a invenção de um remédio – phármakon

Talvez seja então possível dizer, a partir de McLuhan com Lacan, que o prolongamento tecnológico de nossos órgãos reorganiza nossas pulsões, e, se o faz, é porque tecnologias são extensões e respostas da deriva mesma das pulsões.

 Para alimentar essa discussão, neste número convidamos vários colegas, aos quais de antemão agradecemos, para pensarmos juntos os efeitos atuais da internet no social e nos corpos.

 Éric Laurent gentilmente nos permitiu publicar a formidável e abrangente entrevista concedida à revista La Cause du Désir número 97 – Internet com Lacan, cujo título é justamente “Gozar da internet”. Na entrevista, veremos trabalhar essa acoplagem da pulsão nos novos aparelhos. Laurent mostra como a internet transforma radicalmente o modo como cada um se liga ao mundo, como um novo órgão que se acrescenta ao corpo. Veremos que, como uma matriz fractal, a entrevista de Éric Laurent repercute em praticamente todas as outras contribuições aqui presentes. 

Fabián Fajnwaks também autorizou a reprodução de seu texto “Não haverá algoritmo para digitalizar o analista”, publicado na mesma edição de La Cause du Désir. Ele busca situar o lugar da internet em relação a nossos conceitos: é um espelho, uma figura do Outro, um semblante ou um objeto a? Ali ele nos mostra que, diferentemente dos algoritmos da inteligência artificial, os algoritmos isolados singularmente em uma análise encontram um lugar reduzido à dimensão do semblante em relação ao gozo do analisante. 

Graciela Brodsky, cuja contribuição aparece na rubrica aquele texto, contribui com seu texto “Short Story”. Nessa rubrica, onde se publicam textos “clássicos”, optamos por oferecer esse escrito que discute o tempo da sessão como um contraponto à noção de Setting analítico. Sabemos que na história da psicanálise o dispositivo analítico foi confundido com formas rígidas do Standard. Lacan, como nos mostra Graciela, nos fornece meios para respondermos com ajustes sem, entretanto, ceder a medidas exteriores, que comprometeriam o dispositivo ao submeter implacavelmente paciente e analista a condições desfavoráveis ao trabalho com o inconsciente. Discussão que se reabre quando nosso dispositivo sofre um impacto pela dificuldade dos atendimentos presenciais. 

Jésus Santiago nos brindou com o artigo “Efeito phármakon: a injunção do gozo no mal”. Jésus retoma o termo Phármakon: remédio e veneno, desenvolvendo um percurso ao longo da história do termo, a partir do qual podemos fazer uma aproximação do efeito droga, tóxico, ligado aos usos da internet. Esperamos dele um segundo artigo para nosso próximo número, onde essa articulação vai ganhar mais precisão e esclarecimentos. 

Eduardo de Jesus nos traz uma rica e viva reflexão por meio da qual atualiza o pensamento de McLuhan com o artigo “Meios e mensagens no domínio do capitalismo contemporâneo”, onde faz um upgrade da famosa tese desse autor e demonstra que o meio deixa de ser atualmente só uma mensagem, mas se torna uma habilidosa forma de controle. Bastam, para verificar essa tese, os robôs e fake news nos cenários político e sociais em que vivemos. 

Emanuel Vianna nos apresenta inputs a partir de sua experiência. São considerações sobre algoritmos e a inteligência artificial. Esses inputs nos mostram, a partir da prática cotidiana do autor, um bom número de exemplos do poder de domínio e segregação embutidos na estrutura de funcionamento da IA, além de pontuações deste momento atual. 

Fernando Casula nos traz o artigo “Sexualidade contemporânea: o corpo na era digital”. Ele toma como plano de comentário o filme Her, do diretor Spike Jonze, onde Joaquin Phoenix interpreta Theodore, homem solitário que se apaixona pela voz de um sistema operacional, Samantha, intuitivo e sensível, voz emprestada de ninguém menos que Scarlett Johansson. Casula escreve um artigo sobre essa relação e suas impossibilidades, servindo-se como orientador teórico da expressão cunhada por Laurent: “erotômano da máquina”. 

A artista Ana Luísa Santos nos concedeu uma entrevista: “Conexões arriscadas”. Ana nos leva como artista a vermos certos aspectos das nossas relações atuais de um outro ponto de vista, perspectiva que emerge de sua experiência como artista que privilegia as performances e os encontros. 

Por fim, Teodoro Rennó Assunção nos trouxe seus “poemetos infamintos”. Vocês verão as mutações significantes, o enxame de letras cheias de humor, chacoalhando os sentidos, que atingem em cheio, no concreto do poema, nosso momento. 

Agradeço também à artista Julia Baumfeld, que generosamente nos cedeu seu trabalho Não delimito bem os limites. Ele ilustra esta Derivas com um tom tecnológico, mas vintage, trazendo, com certo humor e nostalgia, essa relação cheia de consequências e com limites porosos entre os seres falantes e as tecnologias. 

Esperamos que façam uma boa leitura.

Sérgio de Mattos  


Notas 

[1] LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 120. 

[2] Ibidem, p. 61. 

[3] McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem: understandig mídia. São Paulo: Cultrix, 1969.

Editorial 

O mal-estar na babelização[1]  

Sérgio de Mattos    


Ao propor um retorno a Freud é preciso notar a radicalidade subversiva da proposta de Lacan. É necessário ler nesta orientação o convite para sairmos completamente dos esquemas mentais que definiriam até então o que seria o homem. O conceito de inconsciente, além de teorizar as determinações mentais que nos dominam, em sua radicalidade consiste em revelar em nós um traço de absoluto e radical desconhecimento. O sentido de retornar à lâmina cortante da descoberta freudiana, é, portanto, o de cortar as ideias prévias do que seria o vivente falante, e rescentrá-las desde este ponto original.   

A estrutura ternária permitiu a Lacan formalizar os elementos desta radicalidade. O ser falante é um composto, nó, colagem surrealista, umbigo do sonho, enlaces de um micélio que de um ponto denso se elevam como um fruto [2] e por isso também é constitutivo de sua existência a ignorância do que se passa em seu corpo. No encontro da linguagem com o corpo algo emerge como uma barra, corte, traço, fenda, escrita litoral, que só designa que “há algo”. Há aí algo informe – como na antiga noção de inconsciente: Unerkannt. Noção que para Freud designava a relação entre um corpo que nos é estranho e alguma coisa que o circula e o enreda, indicando esta zona opaca, região para onde a Ética da psicanálise nos dirige.  

Esta estrutura, não se restringe à do indivíduo, mas repercute no modo de se pensar a cultura, como laço social que se arranja não sem riscos, para navegarmos em conjunto nos limites do que é pensável. Pensável da relação de cada um, com o impacto da linguagem nos corpos, e de como se distribuem e se afetam os modos de gozo que surgem a partir da maneira como se alojam na estrutura. Tão ou mais importante que o fato da cultura ser expressão de um ordenamento discursivo do social, é o fato de que em Lacan, ela é também ao menos em parte, o que aparece de uma máquina discursiva estranha e não toda, isto é, produtora de vazios e imprevistos.      

A cultura é justamente aquilo que nos pega[3].    

Só a temos agora em nossas costas como pulgas, porque não sabemos o que fazer com ela senão catá-las. Quanto a mim, aconselho a que vocês as guardem, porque aquilo futuca, e desperta. E despertará os sentimentos de vocês, que tendem a se tornarem um pouco mais embrutecidos sob a influencia das circunstancias ambientes, quer dizer daquilo que os outros, que virão depois, chamarão de a cultura de vocês. Isto se terá tornado cultura para eles porque há muito tempo que vocês estarão lá em baixo e, com vocês, tudo que vocês suportaram de liame social.    

A incômoda imagem proposta por Lacan para representar a cultura, figura o mal-estar como algo que nos pega pelas costas. Não vemos exatamente de onde vem, mas sentimos seus efeitos, são S1 sem sentido, despertando sentimentos.  

Esta passagem sugere a falta radical de um saber no tempo em que as coisas ocorrem, “não sabemos o que fazer com elas, senão catá-las”. Há neste parágrafo uma orientação, “aconselho que vocês as guardem, porque aquilo futuca, e desperta. Vê-se aí uma espécie de atualização do apólogo dos três prisioneiros, onde cada indivíduo desconhece a marca escrita em suas costas e só em uma espécie de calculo coletivo incompleto é possível encontrar uma saída [4]. Certamente não será necessário comentar sobre o embrutecimento dos sentimentos influenciado pelas circunstâncias ambientes.  

A atenção dedicada por Lacan às relações do inconsciente com a civilização, sempre estiveram presentes ao longo do seu ensino, e esta relação foi pautada pela a ideia de que a realidade do sujeito é transindividual. A consequência lógica desta abordagem foram algumas elaborações sobre o lugar da presença do analista nas questões sociais. No escrito Função e Campo[5], convoca o analista: “Que ele conheça a espiral onde sua época o arrasta na obra continuada da Babel, e que conheça sua função de interprete na discórdia das linguagens”.   

Segundo um comentário de J.A-Miller[6], situa-se neste contexto o analista se distribui em duas posições dialétizáveis. Por um lado, em uma relação horizontal com o analisante, na medida que ambos são prisioneiros do espírito de uma mesma época. Por outro, destaca o analista ao situa-lo como um eixo – das vidas daqueles que com ele se analisam – “Pois como poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas aquele que não soubesse nada da dialética que o lança com essas vidas em um movimento simbólico?”. É preciso nesta passagem notar que enquanto uma espiral sugere a presença de alguma materialidade, o eixo de uma espiral, entretanto é um furo, um vazio.    

Miller nos permite assim entender que, se Lacan nos convida a sermos do nosso tempo, conhecendo o momento da história em que vivemos, chama sobretudo a atenção para o fato de que na referencia a Babel, a serpente, remete-nos a um saber de outra época, saber duvidoso, exotérico no sentido de um saber restrito e especializado.   

A espiral lacaniana, longe de nos convidar a sermos totalmente modernos, orienta-nos para situar-nos também no eixo que, no contexto da analogia com a torre, indica a natureza de um princípio: o do vazio pleno de todas as possibilidades. Não se trata aí do vazio da nulidade, mas daquela diferença absoluta em relação a qual toda tentativa de dize-la será sempre da ordem da equivocação.  

A propósito, o redator dos versículos em Gênesis 11, 1-9, certamente conhecedor do antigo sentido da palavra acadiana bab-Ilu - Porta do El- produz um equívoco jogando com o sentido do hebreu, balad, “misturar- confundir”, fazendo assim da palavra Babel, uma denuncia dos efeitos causados pelos anseios de fazer com tal construção, o  nome grandioso de um domínio   e de uniformizar todas as diferenças no império babilônico.    

A nova Babel constrói-se hoje com os tijolos das fake news, versão atualizada da sociedade no famoso livro 1984, de George Orwell. No livro, o governo cria uma “novalingua” forjada como reação à  queda das inúmeras organizações do significante, formas do discurso do mestre, que tinham o mérito de realizar uma simplificação da realidade, difundindo modelos de coerência e de comportamentos. 

A obra ilustra um novo mal-estar sentido pelos efeitos da presença de uma nova língua, efeitos de um sistema tecnológico que pretende tornar a linguagem apenas informação. A novalingua visa acabar com as nuances, os mal-entendidos, e com as palavras que se referem a sexualidade. O que se busca é transformar a comunicação em objetividade e, deste modo, nos termos que nos são próprios, dominar e silenciar o real. No livro os “funcionários da transparência”, apagam significantes dos dicionários e livros, falsificam registros históricos, é tornam-se uma ferramenta para que não se fale e nem se pense fora do regime do governo.   

Neste contexto, é preciso crucial reencontrar em nossos dias, o eixo vazio com poder suficiente para centrar o simbólico, com a condição de saber servir-se dele, para quê? “Para reter uma verdade côngrua, não a verdade que pretende ser toda, mas a do semi-dizer...”[7]  

Nas conferencias na universidade de John Hopkins em Baltimore[8]– 1966 – Lacan diz:    

“... a vida é algo, como dizemos em francês, que vai à deriva. A vida seque o curso do rio, tocando de vez em quando a borda, às vezes parando aqui ou ali, sem entender nada – e é o princípio da análise que ninguém entenda tudo o que está acontecendo. A ideia de uma unidade unificadora da condição humana sempre me pareceu uma mentira escandalosa.    

É justo dizer então, que só poderemos sustentar a cultura do vivente falante suportando este eixo condizente com o equívoco, o imprevisto e as novas formas criativas de esposa-lo, é preciso hoje cultivar como nunca a civilização e saber que qualquer torre, que pretenda ser como um enorme falo rígido e dominante, gerador de uniformização, conduzirá ao desastre.   

Neste número, privilegiamos discutir as novas vicissitudes do mal-estar. Ele já não é exatamente o do tempo de Freud, cuja causa era a proibição. Hoje, uma injunção ao gozo ilimitado, efeito da convergência dos discursos da ciência e do capitalista, produzem fenômenos característicos aparelhados na estrutura da sexuação do lado feminino. Como efeito, produz por um lado a desorientação do sujeito e por outro reativamente medidas fundamentalistas, autoritárias, populistas, radicais, racistas e xenofóbicas como tentativas de reordenar o mundo. O revival das grandes ou pequenas tiranias, surgem como um gesto desesperado, com matizes religiosos e na forma de imposturas, falsos heróis e utopias totalitárias. Surgem ainda novidades. Como o fenômeno surgido no Japão chamado Otaku. Ele se caracteriza segundo Jacques Alain Miller por formar coletivos que se ordenam como bolhas de certeza e de micro totalidades, compõe-se sujeitos imersos em saberes hiper especializados: mangás, animes, um pop star, uma espada katana.  Outro exemplo mais recente é o Honjok, um modo de estar no mundo criado por jovens sul coreanos em 2017, que encontrou recentemente grande expansão com a situação da pandemia. O “Honjok”, tribos de um só, não é um individualismo, é um modo de estar consigo mesmo, uma certa solidão, explorando limites e potencialidades subjetivas. Este fenômeno surpreende, por parecer uma nova onda de subjetivação em um mundo que até então parecia orientar-se em um sentido totalmente contrário, o da monetarização e quantificação de todos os valores. Como não pensar que como psicanalistas, não somos já a algum tempo parecidos a estes honjok, estes solitários, um a um, na tribo da psicanálise?    

Neste momento, nossa vocação e a orientação lacaniana, nos provoca a oferecer elementos de leitura desta situação, baseadas nos conceitos apreendidos da nossa práxis, bem como através de uma interlocução com as expressões artísticas, científicas e culturais no sentido mais amplo, visando lançar alguma luz sobre este panorama.   

Jacques Lacan, no final de suas conferências em Louvain[9]de 13 de outubro de 1972, conclui dizendo,   

... alguma coisa que se estabelece do analisante ao analista é a célula inicial de algo que deve ir muito mais longe, que irá ou não irá, mas se for, esta posição do analista terá um lugar essencial no mundo do mal-estar na civilização, que Freud já havia formulado”.    

Nossa aposta consiste em podermos saber fazer algo de novo em nosso tempo, com o disforme e a diferença absoluta que encontramos em cada ser falante, na fronteira onde ele toca os limites vertiginosos da experiência do encontro da linguagem com o corpo, sem recorrer aos antigos modos de defesa e filtros de saberes universais.  

É ali onde a cultura babeliza, que o analista deve advir, para desbabelizar.    

Temos a enorme satisfação de agradecer e apresentar neste numero de Derivas analíticas, um material farto e consistente, gentilmente cedido por colegas, amigos e artistas, cuja palavra se faz sentir pela excelente atualidade e qualidade da transmissão do qual são capazes.    

É ocasião para agradecer à Diretoria da EBP-MG, pela presença disposta e orientadora e também nominalmente à equipe de publicação, pelo caminho que realizamos juntos. Equipe dedicada, criativa, animada, onde cada um deu o melhor de seus talentos. Agradeço, portanto, Luciana Silviano Brandão editora assistente, a Elizabeth Medeiros, Fernando Casula, Letícia Soares e Olívia Viana.    

A Ricardo Aleixo e a Renato Negrão, nossos artistas, por tornarem essas páginas sensíveis e impactantes. Eles trazem com suas obras e palavras a força desta beleza emergente, audaciosa, crítica, que nos atinge com uma pitada de estranheza e brutalidade e talvez por isso podem conversar com tanto sucesso com a atualidade.   

Agradecemos ainda a Chirstine Maugin responsável pelas publicações da ECF por autorizar-nos compartilhar o formidável texto de Serge Cottet “Freud e sua atualidade no mal-estar na civilização”. Também somos gratos à contribuição de Angelina Harari, atual presidente da Associação Mundial de Psicanálise, pelo texto “O uso arbitrário da lei ou o ataque da democracia contra ela mesma”, veremos aí o toque próprio da psicanálise quando fala da política. Por fim, um agradecimento muito especial referente ao texto “A resistível ascensão do gadjet”, de nossa saudosa e querida Judith Miller, publicação possibilitada pela generosidade de seus filhos Éve e Luc Miller, bem como pelo empenho de Sérgio Laia em tornar disponível essa publicação digital. À Judith, nosso profundo reconhecimento por sua presença e trabalho fundamental na construção de nossa cultura do Campo Freudiano. 


[1]A expressão “babelização” deriva da proposta de Haroldo de Campos para transcriar, venaveláe Balale o verbo hebraico bibbêlque leva a Ibbel, significando: misturar, mesclar, embaralhar, confundir, transtornar a cidade Babel desconstruída pela balbúrdia.

[2]Esta é a metáfora da qual Freud se serve para nos fazer captar algo do que seria o umbigo do sonho.

[3]Lacan, J. O seminário livro 20 mais, ainda, Zahar, RJ,2008, pg. 60.

[4]Lacan Jacques. Escritos. O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada. Zahar,1998,Rj

[5]Lacan, J. Escritos. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, Zahar, 1998.RJ

[6]Miller, J.-A. Curso de psicoanálisis. 24/06/2017. EOl – publicaciones on-line

[7]Lacan. J O seminário livro 20 mais, ainda. Zahar.RJ.2008.pg.100.

[8]Lacan, J. Communiction and discussion at the intenational Symposium of the Johns Hopkins center in Baltimore, 21ist October, 1966.

[9]Lacan, J. Conférance de Louvain. Texte établi par Jacques-Alain Miller. La cause du désir 2017/2 Numero 96. Pg .7-30.

  

 


Francis Alÿs, Cuando la fe mueve montañas (Quando a fé move montanhas), 2002.

Como separar a imunização necessária da destruição da vida em comum? Somos capazes de uma imunidade comunitária?

Entre fevereiro e março de 2020, foi produzida uma compilação do pensamento contemporâneo em torno do coronavírus e das suas repercussões no mundo,  Sopa de Wuhan, que reuniu a produção filosófica de pensadores importantes de diversas partes do mundo, com visões sobre aquele momento de início da pandemia e as hipóteses sobre o futuro. Agora, com a criação de vacinas e as campanhas de imunização, acena-se com uma possibilidade de fim da pandemia, e DERIVAS ANALÍTICAS, retomando esses escritos, lança o olhar contemporâneo sobre as interpretações e previsões desses autores, para atualizar a questão do "comunitário" e do "imunitário" desencadeada pelo vírus.

Encontramos, na Sopa, por exemplo, Judith Butler sugerindo uma política de solidariedade e comprometimento com os ideais de igualdade social, ao mesmo tempo em que assumia, severa, que "o capitalismo tem seus limites". Já Byung-Chul Han não parecia ter dúvidas de que o vírus não vencerá o capitalismo, de que não se chegará à produção de uma "revolução viral", simplesmente porque nenhum vírus é capaz de fazer a revolução, já que nos isola e individualiza, cada um preocupado apenas com a sua própria sobrevivência, que não gera nenhum sentimento coletivo forte, mas uma solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas. Para Gabriel Markus ‒ que reconhecia que "estamos todos no mesmo barco" ‒, o próprio século XXI "é uma pandemia", resultado que é da globalização, cuja vacina necessária seria contra o "veneno mental que nos divide em culturas nacionais, raças, grupos de idades e classes sociais". Slavoj Žižek é mais contundente, na Sopa, ao afirmar que, infelizmente, "necessitamos de uma catástrofe para pensar as características básicas da nossa sociedade", uma ameaça global que dê lugar à solidariedade global, a partir da qual nossas pequenas diferenças se revelem insignificantes, todos trabalhando juntos para encontrar uma solução. A suprema ironia está no fato de que o que nos uniu e nos levou à solidariedade global se expressa, no plano da vida cotidiana, em ordens estritas para evitar contatos próximos com os demais... Franco “Bifo” Berardi se permitiu algum otimismo ao dizer que, embora as condições criadas pelo neoliberalismo na condução do enfrentamento da pandemia pudessem nos fazer sair dela mais sozinhos, agressivos e competitivos, também poderiam, ao contrário, nos fazer sair com um grande desejo de abraçar, em busca de solidariedade e contato, cujo ponto de partida estaria na igualdade”. Patricia Manrique, em seu artigo na Sopa, focou na biopolítica, completamente visível agora, obrigada a se implicar, de uma forma identitária bélica, nas decisões de quem somos, de quem faz parte do "nós" que, para se defender do vírus, teria que rechaçar os "outros", os estranhos a nós, em vez de negociar e colocar à frente uma imunidade comum, com solidariedade entre singularidades, comunidades e nações.

Para circular por essas questões, é importante lembrar, com Roberto Esposito, filósofo italiano que se apropriou de modo muito original da noção foucaultiana de biopolítica, que os termos comunidade e imunidade têm em comum o radical munus, que revela, de forma bivalente, a noção de um dever ou ofício a ser cumprido, além do sentido de dom ou dádiva recebidos. Munus seria, então, a obrigação de retribuir uma dádiva recebida, na forma de algum benefício aos demais. Assim, o que une as pessoas em comunidade, para Esposito, não é a identidade ou uma propriedade em comum, mas um dever, uma dívida, uma falha original, que nos abre aos outros e da qual não podemos nos desfazer. Isso atribui um outro sentido ao termo comunidade, agora mais associado ao compromisso donativo mútuo entre os sujeitos, bem como ao termo imunidade, que designaria justamente o que nos livra do ônus e do compromisso para com os outros, ou seja, que nos desobrigaria do compartilhamento.

A professora Junia Ferrari, da Escola de Arquitetura da UFMG, trabalha essas concepções nesta edição de DERIVAS ANALÍTICAS, na seção Você disse contemporâneo?, em seu texto “Comunidade Imunidade”, apontando para a necessidade de separarmos a imunização necessária da destruição da vida, convidando-nos a lutar para a “desativação dos aparatos de imunização negativa” por meio da “ativação de novos espaços do comum”. Trazemos também, na seção Sinopses, resenhas etc. & tal, uma resenha do livro Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI, de Pierre Dardot e Christian Laval. Dardot é filósofo e pesquisador da universidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense, especialista no pensamento de Marx e Hegel; Laval é professor de sociologia da universidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense. Os autores mostram que o princípio político do comum se impõe atualmente como questão central da alternativa política para o século XXI, radicalizando a democracia ao instituir os "comuns", isto é, a disponibilidade para um agir com outro, tendo o cuidado e o compartilhamento como motores, em oposição à racionalidade neoliberal, que estimula a competição e a acumulação entre os sujeitos.

Imunidade de grupo produzida pela vacinação em massa é um conceito teórico que representa o nível de proteção coletiva que poderia deter a transmissão do vírus, baseada na premissa da criação de uma barreira de proteção. Vacinar-se seria, portanto, um ato de solidariedade, porque não se trata apenas de se proteger, mas de proteger toda a comunidade com a qual nos relacionamos. Na negação da doença e na recusa à vacina, ao percebermos um movimento identificatório que, mais que algo que vá de um sujeito em direção a outro sujeito (de um com um), vai do Outro ao Um, por redução, podemos inferir um movimento de massa que, fazendo existir o Outro como sujeito, tenta, na realidade, reduzi-lo ao Um?

Na seção Mathesis, contamos com a colaboração dos psicanalistas Sérgio Laia (EBP-Minas Gerais) e Marcelo Veras (EBP-Bahia) para responder a essa questão. Sérgio Laia, em seu texto “A transferência, ainda, frente ao Um-sozinho” – a partir do convite de DERIVAS ANALÍTICAS para esclarecer o alcance psicanalítico que o termo "comum" poderia ter no momento em que o mundo inteiro enfrenta a pandemia do coronavírus –, reescreve e modifica o texto intitulado A transferência, suas mutações e o Real, que serviu de preparação para  seu texto intitulado “A transferência, suas mutações e o Real”, escrito como uma preparação para o X Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana (ENAPOL), de 2021, fazendo um interessante percurso da Psicanálise de Freud ao ultimíssimo Lacan para conceber o "em comum" por meio da transferência ("autismo a dois"), do Outro que não existe e da questão de como, diante do corpo que goza de si próprio, é possível uma abertura aos outros que não seja a do stalker.

Marcelo Veras comparece, em texto duplo produzido com Patrícia Veras, pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz - Bahia, para discutir a questão do singular e do coletivo na Saúde, com base nos dispositivos de segregação do mundo contemporâneo acentuados pela Covid-19. Num mundo que parou de comprar, o sujeito contemporâneo determinado pelo objeto cedeu lugar ao mestre sanitário, que passou a estabelecer as novas regras de organização da vida em comum, quer elas fossem acatadas pelos governos ou não. O furo que o vírus faz no Real, inassimilável à imagem do espelho, faz pensar nos "campos de aglomeração", que difundem a pandemia, e em um saber científico que ainda está por vir...

Jacques-Alain Miller, em “Teoria de Turim: sobre o sujeito na Escola”, diz que foi pouco compreendido o que é uma “lógica coletiva” em Lacan: "o coletivo não é nada – o coletivo não é nada senão o sujeito do individual". Que quer dizer isso? Miller propõe uma nova definição do coletivo: "o coletivo é feito de uma multiplicidade de indivíduos que tomam o mesmo objeto como Ideal do eu". O coletivo se analisa como uma multiplicidade de relações individuais ao Um do Ideal do eu. O efeito sujeito que se produz aí, que perturba as funções, está articulado ao Outro: "é o que chamamos o coletivo ou o social". Desse modo, no sentido de Lacan, a transferência não é, de modo algum, um fenômeno individual, sendo perfeitamente concebível uma transferência de massa: é uma transferência multiplicada, "causada em um grande número de sujeitos pelo mesmo objeto suportado pelo mesmo sujeito suposto saber, que se manifesta por sentimentos negativos tanto como positivos, e que é constitutivo de um grupo".

Há um discurso, fundamental na entidade política, que, a partir do lugar do Ideal, opõe “Nós” a “Eles”, reforçando e intensificando a alienação subjetiva ao Ideal. Mas os psicanalistas, da posição do Ideal, podem emitir um discurso inverso, que consiste em enunciar interpretações. Interpretar o grupo é dissociá-lo, e remeter cada um dos membros da comunidade à sua solidão, à solidão de sua relação ao Ideal. Remetendo cada um à sua solidão, separado do significante mestre, como se sustentaria uma comunidade? O texto do psicanalista Marcus André Vieira (EBP-Rio de Janeiro) na seção Mathesis, “Entre o um e o coletivo”, aborda a tensão entre a política e a Psicanálise, e pergunta: é possível para o psicanalista, em sua política do sintoma, ir além da subversão “um por um” de cada análise? E o psicanalista argentino Luís Tudanca (Escuela de la Orientación Lacaniana), com o texto “Vizinhança: um comum não recíproco”, também na seção Mathesis, resgata, topologicamente, o termo "vizinhança" no seminário 21 de Lacan (Les non-dupes errent), que se opõe à lógica da demarcação e da segregação ‒ um bando e outro bando, disputas de territórios que geram guerras ‒, para falar de relações de conexidade, para localizar distintas e móveis modalidades de amarração entre as instâncias do Real, do Simbólico e do Imaginário, concebendo modalizações específicas de subjetivação para os seres falantes.

Em tempos de pandemia ‒ e, talvez, de fim de pandemia ‒, DERIVAS ANALÍTICAS quer analisar, por meio de vários trabalhos aqui apresentados, a imunidade ‒ tão necessária à conservação das nossas vidas ‒ quando é levada a extremos. Pode-se, em nome dela, tolher a oportunidade de convivência e até "o próprio sentido da nossa existência", como pergunta Esposito? A imunidade iria na contramão do conceito de comunidade ‒ como o que determina a ruptura das identidades e da noção de próprio e privado ‒, constituindo barreiras contra qualquer responsabilidade em relação aos outros? A pandemia, ao contrário de quem vaticinou seu poder de convocar a solidariedade, pode ter contribuído para uma descoletivização da vida? Como desativar os aparatos da imunização negativa em prol da ativação de novos espaços do comum ‒ entendido como o autogoverno dos seres humanos, das instituições e das regras criadas para ordenar democraticamente suas relações mútuas? Ou, ao modo de Roland Barthes, em seu curso no Collège de France, em 1976-77, nos perguntarmos "como viver junto" após o coronavírus e suas ameaças... A seção Aquele texto... resgata “Como viver junto? Fronteiras e territórios”, dos psicanalistas mineiros da EBP Célio Garcia, Fernanda Otoni Brisset e Andréa Guerra, para tratar o espaço banal onde cada sujeito encontra seu enlaçamento com o Outro, a fronteira, em sua conexão do singular ao universal, e pensar a produção, no caso a caso, do espaço comum. Já Eliane Robert de Moraes, professora de Literatura Brasileira na USP e pesquisadora das figuras do excesso na prosa de ficção brasileira dos séculos XX e XXI, com seu “Sobreviver junto”, na seção Você disse contemporâneo?, acrescenta à tópica do viver junto uma localização. Ao "como" de Roland Barthes ‒ “Como viver junto” ‒, vem somar-se imediatamente um "onde", referido à complexa arquitetura da convivência humana, explorando, no imaginário náutico, a questão da sobrevivência, que parece se sobrepor à mera convivência.

A questão colocada por Barthes interessou à equipe editorial de DERIVAS ANALÍTICAS no ponto intersticial em que a convivialidade se confunde e coincide com o viver sozinho ‒ algo referido a uma particularidade radicalmente só ‒, em formas de vida comunitárias nas quais cada membro segue seu ritmo pessoal, mas depende, ainda que em escala mínima, de uma organização partilhada. E o Outro? Como fica? Essas reflexões convocam algumas aporias psicanalíticas, que vão do dualismo inicial freudiano entre as pulsões sexuais e de autoconservação até o embaraço lacaniano entre o Um e o Outro. Se a tendência às identidades de grupo e à desagregação social já vinham se acentuando de forma acelerada com o uso da internet, a globalização e o esgarçamento de referências simbólicas tradicionais, é provável que a pandemia do coronavírus venha favorecer esse tipo de “imunidade”...  Em torno disso, trazemos, em Você disse contemporâneo?, o ensaio “Cozinha do comum”, escrito pela equipe editorial de DERIVAS ANALÍTICAS como efeito da provocação do tema desta edição, no qual, por meio da ideia de "banquete", trabalhamos a construção possível de um novo laço social a partir de uma adição de solidões, de gozos e sintomas singulares. E na seção Sinopses, resenhas etc. & tal, convidamos Jacques Fux, escritor, matemático, mestre em Computação, doutor em Literatura Comparada e autor de livros premiados (Literatura e Matemática, Antiterapias, Brochadas, Meshugá, Um labirinto labiríntico), para se embrenhar conosco num puzzle, o livro A vida modo de usar, de Georges Perec, com suas regras, jogos e contraintes matemáticas, que funcionam como um objeto de desejo velado que tenta governar o mundo contingente, em histórias inter-relacionadas de habitantes de um mesmo prédio no 17° arrondissement de Paris.

Como na edição passada, tentaremos nesta 16ª edição ter a presença da Arte na DERIVAS ANALÍTICAS não como ilustração, mas como mais um ensaio imagético ‒ que contará, como suplemento, na seção Sinopses, resenhas etc. & tal, com o texto “Tornar-se outro para ser si mesmo: Francis Alÿs dentro da fronteira”, de Laymert Garcia dos Santos, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, com atuação em áreas como tecnologia, biotecnologia, arte contemporânea e política ‒, em diálogo com o público leitor. A arte entra na rede de textos como ator, no "entre" textos, como um meio potente de criar reflexões por meio de imagens, para além da palavra. Por isso, convidamos Francis Alÿs, artista com reconhecimento internacional (ou seja, que ultrapassa as fronteiras do seu meio cultural de origem e dialoga com o mundo), para convocar a vislumbrar, por meio do reconhecimento da estratégia usada pelo artista, uma resposta ao Real inédita, que faz laço com o Sistema da Arte, em um discurso já reconhecido: discurso que significa, na Cultura, a inscrição do artista no humano, em ressonância com o mundo, por meio do traçado de uma linha, para encontrar uma fissura no espaço irrespirável do já dado e penetrar nela, abrindo nessa fronteira a reconfiguração do espaço-tempo numa perspectiva inédita, e criando, pela arte-política, condições que permitam à vida fluir e romper, por minimamente que seja, os obstáculos e barreiras de toda sorte que a represam no marasmo da repetição e da submissão. A arte de Alÿs, segundo Laymert Garcia dos Santos, é "a manifestação de um encontro liberador entre eu e o outro, no qual eu torna-se outro para poder, enfim, ser ele mesmo".

Uma edição de uma revista de Psicanálise e Cultura como esta da DERIVAS ANALÍTICAS, atenta aos encontros e acontecimentos propostos pela política decolonial, não poderia deixar de fazer uma oferenda, um ebó. Na seção Sinopses, resenhas etc. & tal, a partir da mitopoética de Exu nas religiões de matrizes africanas, apresentamos a compositora, percussionista e cantora pernambucana Alessandra Leão, que, como se estivesse num terreiro ou numa encruzilhada, propicia ao espectador uma experiência musical e sensorial de abertura para caminhos de possibilidades. Exu, mensageiro dos Orixás, é quem conduz nossas jornadas, e a "encruzilhada", onde está Exu, pode ser lida aqui, para além de crenças religiosas, como uma poética e um método de inconformidade com a racionalidade cartesiana e eurocêntrica como único projeto de mundo possível. A ética introduzida pela encruzilhada é a do reconhecimento da condição de existência individualizada e do outro como possibilidade, da vida e do mundo como projeto inacabado, e da possibilidade de inscrição no mundo somente quando se está em relação com o outro:

Quando Exu chega
Ele abre
Eu vou lá
Abre estradas
E olho
Para além de mim