Editorial 

O mal-estar na babelização[1]  

Sérgio de Mattos    


Ao propor um retorno a Freud é preciso notar a radicalidade subversiva da proposta de Lacan. É necessário ler nesta orientação o convite para sairmos completamente dos esquemas mentais que definiriam até então o que seria o homem. O conceito de inconsciente, além de teorizar as determinações mentais que nos dominam, em sua radicalidade consiste em revelar em nós um traço de absoluto e radical desconhecimento. O sentido de retornar à lâmina cortante da descoberta freudiana, é, portanto, o de cortar as ideias prévias do que seria o vivente falante, e rescentrá-las desde este ponto original.   

A estrutura ternária permitiu a Lacan formalizar os elementos desta radicalidade. O ser falante é um composto, nó, colagem surrealista, umbigo do sonho, enlaces de um micélio que de um ponto denso se elevam como um fruto [2] e por isso também é constitutivo de sua existência a ignorância do que se passa em seu corpo. No encontro da linguagem com o corpo algo emerge como uma barra, corte, traço, fenda, escrita litoral, que só designa que “há algo”. Há aí algo informe – como na antiga noção de inconsciente: Unerkannt. Noção que para Freud designava a relação entre um corpo que nos é estranho e alguma coisa que o circula e o enreda, indicando esta zona opaca, região para onde a Ética da psicanálise nos dirige.  

Esta estrutura, não se restringe à do indivíduo, mas repercute no modo de se pensar a cultura, como laço social que se arranja não sem riscos, para navegarmos em conjunto nos limites do que é pensável. Pensável da relação de cada um, com o impacto da linguagem nos corpos, e de como se distribuem e se afetam os modos de gozo que surgem a partir da maneira como se alojam na estrutura. Tão ou mais importante que o fato da cultura ser expressão de um ordenamento discursivo do social, é o fato de que em Lacan, ela é também ao menos em parte, o que aparece de uma máquina discursiva estranha e não toda, isto é, produtora de vazios e imprevistos.      

A cultura é justamente aquilo que nos pega[3].    

Só a temos agora em nossas costas como pulgas, porque não sabemos o que fazer com ela senão catá-las. Quanto a mim, aconselho a que vocês as guardem, porque aquilo futuca, e desperta. E despertará os sentimentos de vocês, que tendem a se tornarem um pouco mais embrutecidos sob a influencia das circunstancias ambientes, quer dizer daquilo que os outros, que virão depois, chamarão de a cultura de vocês. Isto se terá tornado cultura para eles porque há muito tempo que vocês estarão lá em baixo e, com vocês, tudo que vocês suportaram de liame social.    

A incômoda imagem proposta por Lacan para representar a cultura, figura o mal-estar como algo que nos pega pelas costas. Não vemos exatamente de onde vem, mas sentimos seus efeitos, são S1 sem sentido, despertando sentimentos.  

Esta passagem sugere a falta radical de um saber no tempo em que as coisas ocorrem, “não sabemos o que fazer com elas, senão catá-las”. Há neste parágrafo uma orientação, “aconselho que vocês as guardem, porque aquilo futuca, e desperta. Vê-se aí uma espécie de atualização do apólogo dos três prisioneiros, onde cada indivíduo desconhece a marca escrita em suas costas e só em uma espécie de calculo coletivo incompleto é possível encontrar uma saída [4]. Certamente não será necessário comentar sobre o embrutecimento dos sentimentos influenciado pelas circunstâncias ambientes.  

A atenção dedicada por Lacan às relações do inconsciente com a civilização, sempre estiveram presentes ao longo do seu ensino, e esta relação foi pautada pela a ideia de que a realidade do sujeito é transindividual. A consequência lógica desta abordagem foram algumas elaborações sobre o lugar da presença do analista nas questões sociais. No escrito Função e Campo[5], convoca o analista: “Que ele conheça a espiral onde sua época o arrasta na obra continuada da Babel, e que conheça sua função de interprete na discórdia das linguagens”.   

Segundo um comentário de J.A-Miller[6], situa-se neste contexto o analista se distribui em duas posições dialétizáveis. Por um lado, em uma relação horizontal com o analisante, na medida que ambos são prisioneiros do espírito de uma mesma época. Por outro, destaca o analista ao situa-lo como um eixo – das vidas daqueles que com ele se analisam – “Pois como poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas aquele que não soubesse nada da dialética que o lança com essas vidas em um movimento simbólico?”. É preciso nesta passagem notar que enquanto uma espiral sugere a presença de alguma materialidade, o eixo de uma espiral, entretanto é um furo, um vazio.    

Miller nos permite assim entender que, se Lacan nos convida a sermos do nosso tempo, conhecendo o momento da história em que vivemos, chama sobretudo a atenção para o fato de que na referencia a Babel, a serpente, remete-nos a um saber de outra época, saber duvidoso, exotérico no sentido de um saber restrito e especializado.   

A espiral lacaniana, longe de nos convidar a sermos totalmente modernos, orienta-nos para situar-nos também no eixo que, no contexto da analogia com a torre, indica a natureza de um princípio: o do vazio pleno de todas as possibilidades. Não se trata aí do vazio da nulidade, mas daquela diferença absoluta em relação a qual toda tentativa de dize-la será sempre da ordem da equivocação.  

A propósito, o redator dos versículos em Gênesis 11, 1-9, certamente conhecedor do antigo sentido da palavra acadiana bab-Ilu - Porta do El- produz um equívoco jogando com o sentido do hebreu, balad, “misturar- confundir”, fazendo assim da palavra Babel, uma denuncia dos efeitos causados pelos anseios de fazer com tal construção, o  nome grandioso de um domínio   e de uniformizar todas as diferenças no império babilônico.    

A nova Babel constrói-se hoje com os tijolos das fake news, versão atualizada da sociedade no famoso livro 1984, de George Orwell. No livro, o governo cria uma “novalingua” forjada como reação à  queda das inúmeras organizações do significante, formas do discurso do mestre, que tinham o mérito de realizar uma simplificação da realidade, difundindo modelos de coerência e de comportamentos. 

A obra ilustra um novo mal-estar sentido pelos efeitos da presença de uma nova língua, efeitos de um sistema tecnológico que pretende tornar a linguagem apenas informação. A novalingua visa acabar com as nuances, os mal-entendidos, e com as palavras que se referem a sexualidade. O que se busca é transformar a comunicação em objetividade e, deste modo, nos termos que nos são próprios, dominar e silenciar o real. No livro os “funcionários da transparência”, apagam significantes dos dicionários e livros, falsificam registros históricos, é tornam-se uma ferramenta para que não se fale e nem se pense fora do regime do governo.   

Neste contexto, é preciso crucial reencontrar em nossos dias, o eixo vazio com poder suficiente para centrar o simbólico, com a condição de saber servir-se dele, para quê? “Para reter uma verdade côngrua, não a verdade que pretende ser toda, mas a do semi-dizer...”[7]  

Nas conferencias na universidade de John Hopkins em Baltimore[8]– 1966 – Lacan diz:    

“... a vida é algo, como dizemos em francês, que vai à deriva. A vida seque o curso do rio, tocando de vez em quando a borda, às vezes parando aqui ou ali, sem entender nada – e é o princípio da análise que ninguém entenda tudo o que está acontecendo. A ideia de uma unidade unificadora da condição humana sempre me pareceu uma mentira escandalosa.    

É justo dizer então, que só poderemos sustentar a cultura do vivente falante suportando este eixo condizente com o equívoco, o imprevisto e as novas formas criativas de esposa-lo, é preciso hoje cultivar como nunca a civilização e saber que qualquer torre, que pretenda ser como um enorme falo rígido e dominante, gerador de uniformização, conduzirá ao desastre.   

Neste número, privilegiamos discutir as novas vicissitudes do mal-estar. Ele já não é exatamente o do tempo de Freud, cuja causa era a proibição. Hoje, uma injunção ao gozo ilimitado, efeito da convergência dos discursos da ciência e do capitalista, produzem fenômenos característicos aparelhados na estrutura da sexuação do lado feminino. Como efeito, produz por um lado a desorientação do sujeito e por outro reativamente medidas fundamentalistas, autoritárias, populistas, radicais, racistas e xenofóbicas como tentativas de reordenar o mundo. O revival das grandes ou pequenas tiranias, surgem como um gesto desesperado, com matizes religiosos e na forma de imposturas, falsos heróis e utopias totalitárias. Surgem ainda novidades. Como o fenômeno surgido no Japão chamado Otaku. Ele se caracteriza segundo Jacques Alain Miller por formar coletivos que se ordenam como bolhas de certeza e de micro totalidades, compõe-se sujeitos imersos em saberes hiper especializados: mangás, animes, um pop star, uma espada katana.  Outro exemplo mais recente é o Honjok, um modo de estar no mundo criado por jovens sul coreanos em 2017, que encontrou recentemente grande expansão com a situação da pandemia. O “Honjok”, tribos de um só, não é um individualismo, é um modo de estar consigo mesmo, uma certa solidão, explorando limites e potencialidades subjetivas. Este fenômeno surpreende, por parecer uma nova onda de subjetivação em um mundo que até então parecia orientar-se em um sentido totalmente contrário, o da monetarização e quantificação de todos os valores. Como não pensar que como psicanalistas, não somos já a algum tempo parecidos a estes honjok, estes solitários, um a um, na tribo da psicanálise?    

Neste momento, nossa vocação e a orientação lacaniana, nos provoca a oferecer elementos de leitura desta situação, baseadas nos conceitos apreendidos da nossa práxis, bem como através de uma interlocução com as expressões artísticas, científicas e culturais no sentido mais amplo, visando lançar alguma luz sobre este panorama.   

Jacques Lacan, no final de suas conferências em Louvain[9]de 13 de outubro de 1972, conclui dizendo,   

... alguma coisa que se estabelece do analisante ao analista é a célula inicial de algo que deve ir muito mais longe, que irá ou não irá, mas se for, esta posição do analista terá um lugar essencial no mundo do mal-estar na civilização, que Freud já havia formulado”.    

Nossa aposta consiste em podermos saber fazer algo de novo em nosso tempo, com o disforme e a diferença absoluta que encontramos em cada ser falante, na fronteira onde ele toca os limites vertiginosos da experiência do encontro da linguagem com o corpo, sem recorrer aos antigos modos de defesa e filtros de saberes universais.  

É ali onde a cultura babeliza, que o analista deve advir, para desbabelizar.    

Temos a enorme satisfação de agradecer e apresentar neste numero de Derivas analíticas, um material farto e consistente, gentilmente cedido por colegas, amigos e artistas, cuja palavra se faz sentir pela excelente atualidade e qualidade da transmissão do qual são capazes.    

É ocasião para agradecer à Diretoria da EBP-MG, pela presença disposta e orientadora e também nominalmente à equipe de publicação, pelo caminho que realizamos juntos. Equipe dedicada, criativa, animada, onde cada um deu o melhor de seus talentos. Agradeço, portanto, Luciana Silviano Brandão editora assistente, a Elizabeth Medeiros, Fernando Casula, Letícia Soares e Olívia Viana.    

A Ricardo Aleixo e a Renato Negrão, nossos artistas, por tornarem essas páginas sensíveis e impactantes. Eles trazem com suas obras e palavras a força desta beleza emergente, audaciosa, crítica, que nos atinge com uma pitada de estranheza e brutalidade e talvez por isso podem conversar com tanto sucesso com a atualidade.   

Agradecemos ainda a Chirstine Maugin responsável pelas publicações da ECF por autorizar-nos compartilhar o formidável texto de Serge Cottet “Freud e sua atualidade no mal-estar na civilização”. Também somos gratos à contribuição de Angelina Harari, atual presidente da Associação Mundial de Psicanálise, pelo texto “O uso arbitrário da lei ou o ataque da democracia contra ela mesma”, veremos aí o toque próprio da psicanálise quando fala da política. Por fim, um agradecimento muito especial referente ao texto “A resistível ascensão do gadjet”, de nossa saudosa e querida Judith Miller, publicação possibilitada pela generosidade de seus filhos Éve e Luc Miller, bem como pelo empenho de Sérgio Laia em tornar disponível essa publicação digital. À Judith, nosso profundo reconhecimento por sua presença e trabalho fundamental na construção de nossa cultura do Campo Freudiano. 


[1]A expressão “babelização” deriva da proposta de Haroldo de Campos para transcriar, venaveláe Balale o verbo hebraico bibbêlque leva a Ibbel, significando: misturar, mesclar, embaralhar, confundir, transtornar a cidade Babel desconstruída pela balbúrdia.

[2]Esta é a metáfora da qual Freud se serve para nos fazer captar algo do que seria o umbigo do sonho.

[3]Lacan, J. O seminário livro 20 mais, ainda, Zahar, RJ,2008, pg. 60.

[4]Lacan Jacques. Escritos. O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada. Zahar,1998,Rj

[5]Lacan, J. Escritos. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, Zahar, 1998.RJ

[6]Miller, J.-A. Curso de psicoanálisis. 24/06/2017. EOl – publicaciones on-line

[7]Lacan. J O seminário livro 20 mais, ainda. Zahar.RJ.2008.pg.100.

[8]Lacan, J. Communiction and discussion at the intenational Symposium of the Johns Hopkins center in Baltimore, 21ist October, 1966.

[9]Lacan, J. Conférance de Louvain. Texte établi par Jacques-Alain Miller. La cause du désir 2017/2 Numero 96. Pg .7-30.