Freud e a arte: entre a clínica e a ciência

 Ednei Soares

FREUD, S. Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015, 344 p.
(Obras incompletas de Sigmund Freud, 3)

 

 

Quem quer que se interesse pelas investigações de Freud se recordará da existência de um ou outro texto em que uma obra de arte ou um artista foram por ele estudados. A despeito disso, a aflição que hoje atormenta uma enorme parte da população do planeta, acometida de sintomas de pânico, estresse, depressão e ansiedade, exige dos responsáveis pelo tratamento desses sofrimentos uma eficácia terapêutica, e não algo em torno de uma discussão estética.

Consequentemente, uma coletânea como essa parece ter se tornado um subgrupo ou ganhado um espaço menor quanto ao pensamento e ao tratamento desenvolvidos por Freud. Na atualidade do desenvolvimento da indústria farmacêutica e das neurociências, esses textos parecem adquirir, no máximo, relevância histórica. Sendo assim, qual seria, afinal de contas, a verdadeira importância desses artigos para a compreensão da vida mental ou para o desenvolvimento de um método de tratamento?

Sabemos que, para investigar o que se passava com seus doentes, Freud, então neurologista, decidiu escutá-los. Isso lhe trouxe consequências. Pobre pesquisador de laboratório! Quanto mais aguçada era a sua curiosidade científica sobre seus doentes, mais suas consultas clínicas expunham cenas, suspenses, paixões, enigmas, humor, dramas, pistas, lembranças e ocultações. Nada disso foi insignificante para ele. Se o positivismo remetia esses dados à racionalidade fisiológica, a clínica de Freud, por sua vez, não os desprezou; pelo contrário, ele produziu a partir disso uma epistemologia específica. Ainda assim, é bastante curioso notar como aquele neurologista, fortemente motivado pelas ciências naturais e com uma análise rigidamente racional quanto à escuta de seus pacientes, acabou se mostrando um pouco decepcionado. Segundo o próprio Freud, suas descobertas clínicas nasceram carentes de seriedade científica.[1] Ainda em suas palavras, essas descobertas apresentavam um aspecto literário, pois foi justamente a partir das narrativas de seus neuróticos que Freud desvelou a face ficcional da vida mental criando, assim, o seu método. Antes de expor seu célebre “caso Dora”, por exemplo, ele admitiu a dificuldade em contribuir com a psicopatologia da neurose através de um roman à clef [2] como aquele.

Frente ao sentido ficcional do que Freud chamou de realidade psíquica, seu ponto de partida deixou de ser a fisiologia do cérebro. Apesar disso, seu novo laboratório, o ambiente da fala no consultório, manifestava fatos clínicos objetivos. Para transmitir a convicção do empirismo médico, Freud se viu com a tarefa de dar forma a uma escrita sem modelos preexistentes. Essa forma seria o veículo que levaria seus achados clínicos para o mundo. O pai da psicanálise operou, então, um deslocamento na linguagem da ciência médica ao inventar uma nova espécie de gênero (científico ou literário?) – a história do caso clínico. Ao mesmo tempo que as histórias de cada paciente ganhavam um sigilo disfarçado, elas se referiam a pessoas e eventos reais expressando, assim, a ficção poética de cada caso. Os antecessores de Freud, por outro lado, não fizeram o mesmo. Os casos de psicopatologia sexual descritos por Krafft-Ebing e as ilustrações de homens e mulheres disfarçados com retângulos pretos sobre os olhos tornavam os casos anônimos (Krankengeschichte).[3] Narrando suas histórias a Freud, seus pacientes reais se tornavam as histórias que contavam.

Outra observação. A convergência entre arte e ciência não se limitou somente ao modo de transmissão dos resultados das pesquisas clínicas. Havia algo nas obras de arte que também produzia efeitos terapêuticos nos doentes. Inicialmente, para aliviar seus pacientes e eliminar as excitações nervosas que geravam perturbações psíquicas, Freud aderiu a um método também proveniente das artes: o método catártico.[4] Ele conhecia a função catártica das obras de arte que, desde Aristóteles, produziam a purificação da alma a partir da arte poética. Foi nessa lacuna entre ciência e arte que, mais adiante, Freud criou a psicanálise. Ele pôde finalmente livrar os neuróticos da aflição “literal” de suas experiências e curá-los de suas dolorosas ficções.

Podemos dizer que as consequências desse procedimento são ainda mais abrangentes quando o assunto é a teoria psicanalítica. Pobre formação positivista desse médico! A natureza narrativa e literária daqueles fatos se impôs cada vez mais ao seu vocabulário neurológico. Longe da atual terminologia normativa da racionalidade diagnóstica classificatória do DSM, aqueles personagens introduziram, com suas narrativas, a criação de conceitos derivados de gêneros estéticos e discursivos: fantasia, romance familiar, narcisismo (mito), complexo de Édipo (mito; tragédia), lembrança encobridora, projeção, ameaça de castração, teorias sexuais infantis, etc. Embora tenham validade clínica inegável, esses conceitos carregam a herança de seu discurso de origem. Para Freud, tudo isso era consequência da natureza do objeto que ele investigava, e não de suas preferências pessoais.

Resultado: Freud reconheceu posteriormente que nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, havia começado com definições claras e precisas. Era preciso, segundo ele, aplicar às novas descobertas ideias derivadas de outras fontes. A arte se mostrou como um dos fatores que permitiram o avanço da teoria psicanalítica. O diálogo entre ciência e arte levou Freud a escrever especialmente sobre o interesse da psicanálise por esse espaço de intercessão entre dois campos do saber. Cabe observar que o termo utilizado por ele para nomear esse espaço sintetiza ambos os campos, Kunstwissenschaft,[5] algo como uma “ciência da arte”. Ali e no decorrer de suas pesquisas, Freud se dedicou aos principais temas que compreendem a reflexão psicanalítica sobre a arte.

Os doze textos que compõem a coletânea Freud: arte, literatura e os artistas,[6] traduzidos por Ernani Chaves e publicados recentemente pela editora Autêntica, esclarecem como a psicanálise se ancorou no terreno da estética, considerando o espírito científico de seu fundador. A leitura desses textos nos faz constatar que, mesmo sustentando em primeiro plano sua ambição científica, Freud admirava os artistas e era fascinado por eles. Obras de Da Vinci, Michelangelo, Dostoievski, Shakespeare, Goethe, Hoffman e os demais temas discutidos por Freud têm no seu centro o entendimento sobre a vida mental e o tratamento de seus males. Isso é possível na medida em que essas análises fundamentam suas hipóteses, levando em conta principalmente a importância da tensão entre registro pulsional e cultura.

Em boa parte desses artigos prevalece o interesse sobre as raízes arcaicas (ou neuróticas) do processo de criação. Assim, ao observar a liberdade e a inventividade da brincadeira infantil, em O poeta e o fantasiar (1908), Freud demonstrou o potencial das crianças na construção de realidades favoráveis, encontrando ali as bases psicológicas do ato criativo. Nesse sentido, o talento transformador dos poetas atualiza a capacidade infantil da fantasia. Se, em análise, a narrativa dos pacientes era feita de ambiguidades e distorções, a verdade clínica de suas histórias de caso se manifestava, portanto, através do caráter incerto e deformador das palavras. Daí a importância clínica das fantasias. Como na produção literária, os poemas, os romances e os mitos testemunham a racionalidade da fantasia, o que a escuta psicanalítica de Freud inseriu no interior da racionalidade científica.

Em O Moisés, de Michelangelo (1914) encontramos investigação similar. A atenção de Freud aos aspectos formais e estéticos da escultura o levou a ponderar justamente sobre o trabalho psíquico de Michelangelo, que consistia em recriar a imagem renascentista do profeta. Visto que o processo de criação artística é, então, correlato ao modelo de funcionamento neurótico, em Uma lembrança de infância de Leonardo Da Vinci (1910), o extenso estudo biográfico de Freud sobre o artista, sobretudo a respeito de sua infância, se concentrou justamente no conflito particular entre o autor e sua obra.

A pesquisa clínica em torno da neurose acabou por iluminar também os efeitos psicológicos que as obras de arte proporcionam ao leitor e ao espectador. Mais do que proporcionar alívio catártico, o teatro e a literatura comprovam o funcionamento do processo de identificação segundo Freud. Em Personagens psicopáticos no palco (1942 [1905-1906]), onde se vai do drama encenado nos palcos ao drama psicológico dos pacientes, Freud reflete sobre o modo como os espectadores das peças teatrais – e os leitores – participam, via identificação, dos dramas encenados. A estrutura íntima do tormento neurótico faz com que nos reconheçamos nos dramas literários e dramatúrgicos.

Finalmente, há uma variedade de destinos que as relações entre arte e psicanálise podem tomar. Talvez não seja demais afirmar que a importância da dimensão criativa que Freud encontrou na arte e nos artistas o tenha conduzido no desenvolvimento de seu método de tratamento até o fim de sua obra. As construções em análise[7] se configuraram numa necessidade técnica, que, ao longo do tratamento, foram capazes de alterar os modos de sofrimento de seus pacientes. Se a cura psicanalítica guarda consigo seu potencial de transformação[8] dos sujeitos e suas formas de vida, o método criado por Freud viabiliza o potencial criativo com que cada um pode estar no mundo.

O confronto entre o recurso estético e a marca rigorosa da ciência positiva que caracterizam o espírito freudiano parece, sem dúvida, tê-lo dividido durante a vida. Dados biográficos nos confirmam isso. Freud escolheu a carreira científica inspirado por um ensaio de Goethe[9] − um poeta − sobre a natureza. Ao seu biógrafo já sugeria admitir certo dom artístico,[10] e dos que abandonaram a carreira médica para se engajar na arte, ele se revelou um admirador.[11]

Quero evocar, por fim, um fragmento da polêmica entrevista concedida por Freud a Giovanni Papini,[12] na qual faz a seguinte confissão sobre seu trabalho como analista:

Sou cientista por necessidade, não por vocação. Por natureza, sou realmente um artista [...] Eu consegui vencer meu destino de forma indireta e realizei meu sonho: permanecer um homem de letras, embora, na aparência, ainda seja um médico. Em todos os grandes homens de ciência há uma pitada de fantasia, mas ninguém se propõe, como eu, a traduzir as inspirações oferecidas pelas correntes da literatura moderna em teorias científicas.[13]

Ednei Soares é psicanalista e professor no curso de psicologia da UNA-BH.

Derivas analíticas agradece a Ednei Soares por sua colaboração com este número da revista.

Notas

[1] FREUD, (1950 [1895]) 1981.

[2] Uma narrativa literária na qual se utiliza personagens fictícios para disfarçar fatos que aconteceram com pessoas reais.

[3] Cf. MARCUS, (1974) 2010.

[4] Junto a Josef Breuer.

[5] Sobre “Das kunstwissenschaftliche Interesse”, ver o “item F”, da segunda parte de Múltiplo interesse da psicanálise. Cf. FREUD, (1913) 1958.

[6] Há textos na coletânea, como o curto e belo Transitoriedade (1916) e O humor (1927), que não se detêm a artistas ou obras de artes.

[7] Cf. FREUD, (1937) 1996.

[8] Cf. FOUCAULT, 2004.

[9] Cf. FREUD, (1925) 1996.

[10] Cf. JONES, 1979.

[11] HELIODORO, 2007.

[12] O texto foi publicado em Freud as we knew him. RUITENBEEK, H. M. Freud as we knew him. Detroit, MI: Wayne State University Press, 1973. p. 98-102. Esse relato é pouco conhecido na literatura psicanalítica e costuma ter sua veracidade questionada. Vale lembrar que alguns autores de filiação lacaniana também o citam: Cf. FLEM, L. La vie quotidienne de Freud et de ses patients. Paris: Hachette/Le livre de poche, 1987. p. 167-168; FLEM L. L’homme Freud. Paris: Seuil, 1991. p. 134; e ANSERMET, F. Prefácio a La psychose dans le texte. Paris: Navarin, 1989, organizado por François Ansermet, Alain Grosrichard e Charles Méla.

[13] FREUD apud HILLMAN, 2010, p. 11-12.

Referências

FOUCAULT, M. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

FREUD, S. Construções em análise (1937). In: ______. Moisés e o monoteísmo, esboço de psicanálise e outros trabalhos (1937-1939). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 275-287. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 23).

FREUD, S. Estudos sobre a histeria (1895). 4. ed. Madrid: Biblioteca Nueva, 1981. (Obras completas, 1).

FREUD, S. Um estudo autobiográfico (1925 [1924]). In: ______. Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade, análise leiga e outros trabalhos (1925-1926). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 15-78. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 20).

HELIODORO, P. Freud & Schnitzler: sonho sujeito ao olhar. São Paulo: Annablume, 2007.

JONES, E. Vida e obra de Sigmund Freud. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

MARCUS, S. Freud und Dora. Roman, Geschichte, Krankengeschichte (1974). In: HILLMAN, J. Ficções que curam: psicoterapia e imaginação em Freud, Jung e Adler. Campinas, SP: Verus, 2010.

 

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