“A infância como método de olhar o mundo”

Bianca Dias conversa com Ana Miguel

 

Bianca Dias

 

Conheci mais agudamente a produção de Ana Miguel ao trabalharmos juntas na exposição coletiva Da escrita, delas, elas, na Galeria do Lago, no Rio de Janeiro, em 2015, sobre a ideia do íntimo e da escrita na arte.

Toda a sua obra sempre me pareceu uma imersão pelo mais cortante das relações humanas. Dessa entrada surge uma escrita: palavras costuradas na desmedida do impossível, sentidos que deslizam na intimidade mais êxtima – experiência vivificada dos sentimentos e afetos, ainda que compareçam sempre como neblina que não se dissipa. Suas obras embaralham a evidência segundo a qual as coisas seriam simplesmente o que são, e, nesse laço entre a escrita, a arte e o íntimo, uma inscrição vai se fazendo no vazio que porta o inominável, mas que, paradoxalmente, aponta nome para as contingências, como um nó que articula três registros.

Didi-Huberman interroga no texto A semelhança interminável: (vasta como a noite),[1] o que isso implica para a linguagem e de que maneira a aparição via imagem coloca a palavra em estado de elevação, como se a escrita poética devesse sua própria intensidade à repercussão de um ressoar que nos põe na intimidade do poder poético, o ponto de jorro no qual, falando dentro, ela já fala inteiramente fora.

Nesse sentido, a obra de Ana Miguel porta também a chama de uma escrita poética: o seu segredo e sua infinita reserva. O íntimo é aqui uma política que pode salvaguardar o essencial: efeito de um tipo de inscrição da qual pode irromper a fricção necessária para fazer vibrar o corpo, espaço dos fulgores, de contágio e de beleza. 

Referência: DIDI- HUBERMAN, G. A semelhança interminável: (vasta como a noite). In: ______. Diante da imagem. São Paulo: Ed. 34, 2013. 



 

Bianca Dias conversa com Ana Miguel 

 

     

 


Ana Miguel
é artista. As relações humanas, a literatura, as palavras, os deslizamentos dos sentidos e a experiência do tempo, dos sentimentos e dos afetos constituem a matéria do seu trabalho desconcertante e pleno de humor. Ana atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu em 1962. É gravadora e desenvolve, a partir dos anos 80, obras tridimensionais e instalações. Colabora também com projetos de teatro, especialmente nas montagens de Samuel Beckett realizadas por Adriano e Fernando Guimarães. Já realizou mais de quinze exposições individuais, dentre elas Fechar os olhos para ver, na Galeria Laura Marsiaj em 2010 e Je tʼadore, no Espace Galerie Flux, Liège, Bélgica, em 2006. Entre as diversas coletivas em que participou podemos lembrar: Fernando Lindote, trair Macunaíma e avacalhar o papagaio, MAR, Rio de Janeiro, Ficções, Caixa Cultural, Rio de Janeiro, RJ, Ver e ser visto, MAM, Rio de Janeiro, RJ, em 2015, Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas, MAR, Rio de Janeiro, em 2014, Gravura em campo expandido, Estação Pinacoteca, São Paulo e Novas aquisições – Coleção Gilberto Chateaubriand, MAM, Rio de Janeiro, em 2012, Gigantes por la propia naturaleza, IVAM, Institut Valencià d’Art Modern, Valencia, Espanha, em 2011, Poética da percepção, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 2008, Manobras Radicais, Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, em 2006, 25ª Bienal Internacional de São Paulo, São Paulo, em 2002, II Bienal do Mercosul, Porto Alegre, em 1999. Seu trabalho já recebeu diversos prêmios como o Interferências Urbanas em 2008 e o Prêmio Internacional da II Bienal ArteBA de Gravura do Mercosul em 2000.

Bianca Dias é psicanalista, crítica de arte e autora do livro Névoa e assobio.
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