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PSICANÁLISE, DEMOCRACIA E CORRUPÇÃO [1]

 

ANTONIO BENETI

 

 

Vou me servir, hoje, nesta intervenção na Movida Zadig, da entrevista de Jacques-Alain Miller em Barcelona, feita por Lídia Vidal para o jornal El Punt Avui (em março de 2013) [2], por ocasião das “Conversações clínico-políticas” promovidas pelo Instituto do Campo Freudiano na Espanha.

Miller relata os principais momentos de seu percurso político e de sua militância até seu encontro com a psicanálise e com Lacan. Na entrevista, surgem perguntas e respostas sobre a relação da psicanálise e de suas possíveis incidências sobre o campo da política. Em uma das respostas, ele nos fala de democracia e corrupção.

Tomarei três delas.

1a – “De que maneira a psicanálise poderia incidir nos movimentos sociais, implicar-se e dar-lhes um pouco mais de força?”[3]

Miller: “A psicanálise não pode dar mais do que tem. É uma prática da palavra que não consiste em impor seus pré-juízos, ideais, concepções às pessoas e, sim, permite a cada um esclarecer os seus.”

Citando Heráclito – que dizia que os seres humanos, quando estão despertos, compartilham o mesmo mundo, porém, quando dormem, cada um tem o seu –, ele nos diz que “a análise se situa no nível deste mundo íntimo, privado e, de alguma maneira, trata de explicitar este mundo para o sonhador e levá-lo a se reinscrever no comum”. Ou seja, ele nos aponta os limites da psicanálise no campo da política.

Mais abaixo, faz menção à rebeldia de Lacan, que admirava os jovens do maio de 68, mas que dizia ter encontrado uma maneira de saber fazer com ela, lutando contra a psicanálise americana e a Psicologia do Ego.

Aqui nos perguntamos: a Psicologia do Ego não teria sido um elaborado sistema de corrupção da teoria freudiana? É certo que tivemos outras, com Jung, Adler, Reich, Binswanger, Stekel...

2a – “O que nos pode ensinar o discurso lacaniano para poder incidir diretamente na política?”[4]

Miller: “Ensina primeiro que tem essa oposição clássica entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. A primeira diz a verdade, qualquer que seja o momento, e não se preocupa com as consequências. A segunda diz: ‘preocupe-se com as consequências’.”

Max Weber, da primeira ética, não dizia verdade porque a verdade é sempre não-toda. Ou seja, mentirosa porque impossível dizê-la toda. E ela está sempre em função do tempo. Pode dormir uma e acordar outra...

3a – “Os casos de corrupção e as promessas não cumpridas dos políticos demonstram que se está perdendo o valor das palavras?”[5]

Miller: “O que o analista lhe pode responder é que não teve uma só época na história da democracia, e da não democracia, em que a corrupção não tenha sido extrema e, que não pudéssemos aguentar mais. A corrupção é o ar da política. A corrupção é a lei do assunto.”

Citando Robespierre, que se dizia “o incorruptível” e foi morto pelos corruptos, ele nos diz: “Minha conclusão, desde quando eu tinha 13 anos, é que se deve ser incorrupto, porém não se deve dizê-lo demasiado porque todos os corruptos vão te matar! (risos)”

E termina sua resposta dizendo: “A corrupção é tão comum que reprovar a um político é injusto porque isso vai com a profissão.”

Entendemos então que a corrupção é o Real da Política. E, neste momento, com a queda dos semblantes no campo da Política, no Brasil, o Real da corrupção emerge com extrema evidência e violência.

A frase que me veio foi: “Onde tem grupo, tem corrupção. Não existe zero de mais de gozar!”

E, logo em seguida, lembrando da luta de Lacan contra a corrupção da teoria freudiana pela Psicologia do Ego, pensei no nosso grupo-Escola, democrático, e nas Instituições ou Sociedades psicanalíticas, onde o regime hierárquico de poder é a tônica. Nelas não respiramos o ar puro do Discurso psicanalítico. Além dos ares dos outros Discursos, encontramos a poluição do Discurso do Mestre, cujo índice maior é o surgimento dos grandes líderes de grupos e os fenômenos de grupo advindos daí, atrelados às lutas de prestígio e poder.

Lacan, em “L’étourdit”, nos fala da Obscenidade imaginária dos grupos enquanto ela mesma o Real dos grupos.

Por ocasião da Dissolução de sua Escola, a École freudienne de Paris, ele nomeava a corrupção do Discurso analítico pelos fenômenos de grupo que chamou de Sociedade de Auxílio Mútuo contra o Discurso Analítico (SAMCDA). Ar intoxicante, sufocante que exigiu a Dissolução do Grupo. Se tem grupo, tem corrupção. Como tratar a corrupção na Escola se sem grupo não tem Escola?

 

A escola precisa do grupo para a transmissão da psicanálise.

 

Daí, a invenção lacaniana do Dispositivo do Passe, introduzido nas Escolas da Associação Mundial de Psicanálise por J.-A. Miller. Democraticamente. Não obrigatório. Todos podem pedir a entrada no Dispositivo para testemunhar sua passagem de analisante a analista.

Não se trata de disputa eleitoral ou eleições pela comunidade de membros da Escola. Trata-se do objeto a da Escola. E de um momento de se respirar o ar do Discurso psicanalítico para todos que escutam os relatos de Passes. Existem aí efeitos de grupo?

Talvez, porque onde tem grupo, tem corrupção (obscenidade imaginária dos grupos), mas sem poluição que demande uma dissolução... Pelo contrário, faz cada um do grupo trabalhar mais nas análises em intensão. Porque sempre, os relatos de passe tocam cada um em suas singularidades de gozo. O passe não é uma vacina anticorrupção no grupo-Escola, mas, ajuda muito, é fundamental.


 

Referências:

[1] Intervenção feita na Conversação “Psicanálise e democracia” da Movida Zadig, que ocorreu na sede da EBP-RJ, em 10 de outubro de 2018.

[2] MILLER, J.-A. y otros. Conversações clínico-políticas. 2. ed. Madrid:,Editorial Gredos, 2013. (Colección Escuela Lacaniana de Psicoanálisis).

[3] Ibid., p. 233.

[4] Ibid., p. 235.

[5] Ibid., p. 245.

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