Dalí e Lacan: um flash sobre O grande masturbador[1]


Lucíola Freitas de Macêdo

O grande masturbador[2], de Salvador Dalí, é uma obra de 1929, da lavra de quadros pintados em Cadaqués, pequena vila de pescadores situada no litoral catalão, onde o artista tinha uma casa e ateliê. A tela pertence à série produzida logo após o pintor conhecer e se apaixonar por Gala Eluard, então casada com o poeta Paul Eluard.




É nesse período de sua criação artística que Dalí lê a tese de Doutorado de Lacan, defendida em novembro de 1932, Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade[3]. Ele declara que o estudo de seu amigo psicanalista sobre a paranoia o ajudou a sistematizar e formalizar seu “método paranoico-crítico” [4].

Vejamos algumas declarações de Dalí sobre a ascendência da tese de Lacan sobre seu método:

- “Por volta de 1929 concebi a fórmula experimental da paranoia crítica... meu método consiste em explicar de forma espontânea o conhecimento irracional que nasce das associações delirantes”[5].

- “Lacan ilustrou cientificamente um fenômeno obscuro para a maior parte de nossos contemporâneos e o definiu de maneira exata. A psiquiatria, antes de Lacan, cometera um erro grosseiro: defendia que a sistematização do delírio paranoico se elaborava depois, e que esse fenômeno devia ser considerado como um caso de ‘loucura do raciocínio’. Lacan demonstrou o contrário: o delírio é uma sistematização em si mesmo. Nasce sistemático. Elemento ativo a orientar a realidade ao redor de sua linha dominante. É o contrário do sonho, ou de um automatismo passivo frente ao movimento da vida”[6].

- Para Lacan, o delírio paranoico “constitui já, por si próprio, uma forma de interpretação”[7].

- “Sou um delírio vivente e controlado. Eu sou porque deliro, e deliro porque sou.”[8]

Situadas brevemente as coordenadas do método paranoico-crítico por meio do qual Dalí formaliza sua entrada no surrealismo, assim como o horizonte de sua fecunda interlocução com a tese de Lacan, não nos resta dúvida que de nada adiantaria nos arvorarmos em “interpretar” uma obra de Dalí tentando forjar-lhe um nexo ou sequer alguma narrativa linear, pois sua matéria é justamente “a arte sublime de gozar das próprias contradições”[9].

Dalí aplicou seu método a diferentes campos, tais como à pintura, à poesia, ao cinema, à construção de objetos surrealistas, à moda, à escultura e à história da arte. Há nos escritos dalinianos alguns relatos e também um poema sobre o quadro O grande masturbador. Deixemos que Dalí fale por Dalí, evitando assim forjar sentidos ou super interpretar o fluxo contínuo e irracional que jacula da profusão de imagens que essa obra de Dalí apresenta e evoca. Aliás, o método paranoico-crítico visava justamente capturar o observador, fazê-lo viver suas angústias e seus êxtases, projetando sua própria irracionalidade sobre a tela.

Passemos aos fragmentos escritos pelo artista sobre o quadro O grande masturbador:

- “Meu próprio corpo era naquele momento o centro do meu erotismo e o eixo de meu método paranoico-crítico. Eu o tinha como o ancoradouro ao qual se amarra um cabo, se posso dizer assim. Só havia eu e meu prazer... e então o resto do mundo. Nunca havia chegado ao coito. Passei de O grande masturbador, expressão de minha angústia heterossexual – com seu personagem sem boca encarnado por uma lagosta a quem as formigas devoram o ventre –, ao quadro As acomodações do desejo[10], pintado no verão de 1929”.

- “Morria de medo do amor. Passava do mais covarde estado de agressividade à mais arbitrária e servil submissão... Suplicava (a Gala), que me prestasse um pouco mais de atenção – a ela que me dava a sua alma! – e a deixava na porta do hotel, aniquilado, atomizado de angústia e de vergonha, silencioso, enfadado, humilhado”[11].

- “Minha alegria de viver é imobilizar a morte através dos fogos de artifício da vida. Eu sou a morte, ela me fascina com sua eternidade, como o Grande masturbador, imóvel frente às ondas. Creio que a amo apesar do medo, e não vejo que vá morrer por isso. Se alguma coisa tiver que acabar um dia, não poderia ser mais que em um orgasmo gigantesco. Uma descarga cósmica. Esse pensamento me exalta... só em pensar no retrato de meu irmão morto, pendurado no quarto dos meus pais ao lado de uma reprodução do Cristo de Velásquez já sinto calafrios. Me vejo cercado por todos os mortos que acumulei durante minha existência. Temo que minha obsessão me leve à vertigem. Então digo-me que cada um desses mortos trabalha para mim, são o húmus de minha espiritualidade, nutrem meu gênio, me convertendo de repente em sóbrio canibal que se alimenta dos cadáveres angélicos de todos os meus amigos desaparecidos... Creio que todos esses mortos alimentam minha vida... E disso extraio uma força inaudita”[12].

No último instante deste flash sobre o quadro, trago um pequeno fragmento do poema paranoico-crítico “O grande masturbador” escrito em 1930, no ano seguinte à finalização da obra, a partir das associações de Dalí em torno da pintura. Trata-se de um longo poema, que se estende ao longo de doze páginas. Eis aqui apenas um breve fragmento:

“Por fim nas medalhas/ mais resplandecentes/ estavam gravadas/ as imortais/ representações/ de asnos apodrecidos/ de cavalos apodrecidos/ de gatas apodrecidas/ de cavalos apodrecidos/ de bocas apodrecidas / de galinhas apodrecidas/ de horríveis galos apodrecidos/ de gafanhotos apodrecidos/ de pássaros apodrecidos/ de mortas apodrecidas/ de gafanhotos angustiantes apodrecidos/ de cavalos apodrecidos/ de asnos apodrecidos/ de bernardos-eremitas apodrecidos/ e mais particularmente/ de galinhas apodrecidas/ e de asnos apodrecidos/ e também de gafanhotos apodrecidos/ assim como uma espécie de peixe/ cuja cabeça é de uma semelhança/ lancinante/ com essa de um gafanhoto.”[13]

 


 

1 Apresentado na Seção Flashes da Conversação Clínica da XXI Jornada da EBP-MG: O inconsciente e a diferença sexual – que há de novo?

2 DALÍ, S. Confesiones inconfesables. Barcelona: Bruguera, 1975. p. 134 e 220.

3 LACAN, J. Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade. Rio de janeiro: Forense Universitária, 1987.

4 DALÍ, S. SIM: ou a paranoia. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. p. 31.

5 DALÍ, S. Confesiones inconfesables. Barcelona: Bruguera, 1975. p. 205.

6 DALÍ, S. Confesiones inconfesables. Barcelona: Bruguera, 1975. p. 203-204.

7 DALÍ, S. SIM: ou a paranoia. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. p. 32.

8 DALÍ, S. Confesiones inconfesables. Barcelona: Bruguera, 1975. p. 203.

[9] DALÍ, S. SIM: ou a paranoia. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. p. 19.

[10] DALÍ, S. Confesiones inconfesables. Barcelona: Bruguera, 1975. p. 134.

[11] DALÍ, S. Confesiones inconfesables. Barcelona: Bruguera, 1975. p. 133.

[12] DALÍ, S. Confesiones inconfesables. Barcelona: Bruguera, 1975. p. 220.

[13] DALÍ, S. SIM: ou a paranoia. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. p. 93-94. Cabe esclarecer que foi feita pequena atualização no 19° verso da tradução desta edição.

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