Entrevista com Efe Godoy

Por Lisley Braun Toniolo

 

Numa manhã de segunda, fui recebida por Efe em sua casa, no bairro Santa Tereza, ao som de Chico Buarque. Conversamos por um bom tempo, entre chá e biscoitos.
 

Como você começou seu trabalho com a arte? 

Eu nem sei se tem um começo assim. Minha mãe sempre foi professora e acho que começa muito daí, sempre tive muitos materiais em casa. Ela era professora de alfabetização e tinha muitas coisinhas para fazer, sempre estava fazendo uma lembrancinha para os alunos. Então, acho que aquele fazer ali já puxou um pouco. Minha mãe falava que queria ser artista, mas como a profissão de professora já a puxara, de uma vez, ela acabou ficando ali. Mas acho que foi daí, de ter muito contato com papel, de ver ela desenhando toda hora. Ela mexia muito com estêncil, fazendo cópias de desenhos todo dia, todo dia. E eu chegava da aula e queria fazer alguma coisa, criar alguma coisa.
 

Desde muito novo, então? 

Desde muito novo, criança.
 

Moravam você e sua mãe... 

Eu, minha mãe, meu pai e minha irmã, em Sete Lagoas, somos todos de lá. Então, eu vim para cá [Belo Horizonte] para estudar arte na Escola Guignard, mas não terminei. Não concluí o curso porque comecei a fazer vários trabalhos até que, de repente, abandonei a escola (risos). Mas também não sei se é necessário ter um diploma. Isso ainda é um tabu na minha vida. Às vezes, fico querendo: esse ano, fiz o Enem tentando voltar, mas falei “ah, será mesmo? ” (risos), não sei ainda.
 

O que te fez abandonar? 

Eu tinha também uma banda chamada Absinto Muito. A gente fazia um monte de shows e fomos largando os estudos porque não dava tempo. Viajávamos muito, fazíamos turnês, inclusive para fora: fomos para Londres, Bolívia...  Foram uns dois anos assim e tinha vez que a gente fazia três shows num dia só, loucura! (Risos)
 

E você não está mais na banda? 

Não. Ela vai voltar, mas deu uma dissolvida, os integrantes foram cada um para um canto. Porque é um relacionamento, né? E durou 5 anos! É como se você namorasse cada integrante (risos). Eu era vocalista: vocalista performer. Na verdade, todo mundo cantava, mas eu ficava ali, mais na frente mesmo.
 

Na sua forma de expressão, eu vejo muito uma multiplicidade, mas tem seu traço característico. Como você foi chegando nisso? Esse trabalho com a natureza, com o desenho, a aquarela... qual é a sua via de expressão? 

O desenho é meu carro-chefe. Eu desenho todo dia, estou sempre rabiscando alguma coisa, mesmo que não seja um desenho que vá virar um produto final. Tenho um caderninho que uso para anotar ideias ou só mesmo para ficar exercitando o gesto. Na verdade, eu vejo desenho em tudo – tudo, para mim, é muito desenhável. Então, toda hora, eu quero desenhar. É incrível isso! Às vezes, esgota um pouco, mas aí eu fico nesse exercício de fazer só por fazer e acaba que sai alguma coisa. Mas tem as outras expressões, a performance – que eu amo muito e acho que está superligada ao desenho também. Fiz aula com o Marco Paulo Rola e acho que ele abriu um pouco minha cabeça porque, antes, eu nem achava que meu desenho era bom. Ele tinha uma coisa de fazer com que a gente escrevesse um projetinho da performance e, um dia, me falou: “uai, mas esses desenhos aqui já são também um trabalho! Acho que você pode jogar com isso.” Então, agora, eu tenho feito isso: pensado os dois juntos. Além da performance, gosto muito de instalações tridimensionais e tenho feito trabalhos com fotografia, como pintura por cima da fotografia, colagens por cima da fotografia, que estou gostando muito. Mas passa sempre por um lugar de afetividade com objetos antigos, que já têm uma história anterior à que eu quero contar. E, às vezes, acho que nem sou eu que estou contando, sabe? Já conversei muito disso com a Ana [namorada], de algumas vezes estar desenhando uma coisa grande e pensar “nossa! ”, pois parece que você está sendo atravessado por uma outra força que não é você, você só está sendo uma ponte. Eu estava até pensando em pesquisar mais sobre isso porque é uma coisa quase sobrenatural essa de ser um interlocutor, apenas. Algumas vezes, escrevo coisas nos desenhos – tenho feito muito isso de escrever frases – que vêm assim: às vezes, elas têm ligação com o desenho; outras vezes, elas são subjetivas, mas eu sinto que completam o desenho. Tenho visto muitas pessoas que chegam para adquirir os desenhos e elas falam “nossa, isso foi feito para mim, está falando desse momento, que eu vivi isso, isso e isso”. Então, acaba que os desenhos encontram as pessoas, como se uma mensagem tivesse que ser postada para alguém. É muito louco isso e tem rolado bastante! Até mesmo ao ponto das pessoas se emocionarem muito e contarem histórias de chorar. E eu falo assim: “nossa, nunca pensei nisso na hora que eu estava fazendo esse desenho! ”
 

Mas essa reação do público vem mais com o desenho ou com essas instalações dos objetos antigos? 

Com os desenhos e os objetos, mas mais com os desenhos porque eles têm coisas escritas. Então, quando tem alguma coisa escrita ali, bate forte...
 

Tem esse caráter de mensagem mais forte? 

É real isso, ali. Mas rola também com objetos. Na exposição do SESC, aconteceu o seguinte: a proposta era pegar objetos em bazar – eu amo ir em bazar recolher coisas – e, a partir deles, criar uma narrativa nova via intervenção nas coisas, que vão criando cara nova, vão virando outros objetos mesmo. Eu fui em vários lugares, tanto perto lá do SESC quanto mais distantes, mas todos aqui, em BH. Aí, achei um documento de 1967, que era um passaporte de uma pessoa brasileira, tinha lá a foto da pessoa, o nome, data... Eu abri numa página onde estava escrito: “Não é válido para Cuba”. Então, peguei uma fotografia, também antiga, para compor de fundo – sempre penso em uma composição imagética mesmo – e fiz um desenho de uma mulher-pássaro que sobrevoava aquela história toda. Virou uma montagem e coloquei um fundo rosa, ficou bonitinho, gostei (risos): é esse o meu processo. Aí, uma pessoa chegou, viu na exposição e falou: nossa, essa é a data de aniversário de não sei quem e começou a contar várias histórias, falou da pessoa, falou que ela também tentou ir para Cuba e não conseguiu, na época. Aquilo era para ela, sabe? Era para encontrá-la. E ela gostava muito de pássaro também! Enfim, casou tudo. E assim eu tenho feito muitos outros trabalhos que são dessa mesma natureza de reunir objetos que estavam em outros lugares e que encontram pessoas. É uma coisa que eu não penso muito antes de fazer, é muito intuitivo.
 

Quando você fala que vê desenho em tudo, não necessariamente é via pensamento, né? Parece que tem algo do corpo que funciona sozinho, às vezes. 

É, tem isso de buscar, ir no lugar garimpar, achar, às vezes guardar aquela coisa por muito tempo. Porque tem isso também: tem vários objetos aqui que ainda estão guardados, esperando um momento de encontrar outros objetos. Eu acho isso muito mágico e sinto também que todas as coisinhas têm uma alma, todos os objetos, fotografias...  Às vezes, fico assim: “nossa, essa casa está cheia de coisas! ”
 

Pelo seu estilo, dá para ver que não tem uma hierarquia entre as coisas, nem entre as técnicas. 

É, não [tem]. Não vejo muito isso, gosto de ser mais fluido. Se tiver que ser música, vai ser música; se tiver que ser uma instalação, vai ser.
 

Como se cada coisa tivesse a sua dignidade?
 

Qual a sua relação com os objetos? Como é se desfazer disso? 

Nossa! É preciso um tempo...  Eu deixo eles morando aqui um tempo porque não consigo me desfazer logo, é como se eu tivesse parido um filho mesmo: é seu, ali, seu filho. Após um certo tempo, eu exponho e levo depois para a galeria. Não posso levar direto para a galeria porque preciso que outras pessoas vejam e, na galeria, fica muito restrito. Gosto sempre de colocar num espaço público para que mais pessoas vejam e eu tenha um retorno também. Porque acho que é uma pesquisa que nunca vai acabar: estou sempre recebendo retorno e entendendo o que eu estou fazendo ainda, não é uma coisa fechada. Não consigo dizer ainda o que é o meu trabalho, mas não acho isso ruim porque penso que está em constante modificação e pesquisa mesmo.
 

É porque a palavra, às vezes, mata a coisa ali, né? 

É. Se você define, já acaba logo.
 

Parece que, se você define, restringe essa possibilidade do encontro, que é tão importante para você.
 

Quais são seus temas principais? 

Flora e fauna, mais plantas. Meu pai e eu sempre tivemos todo tipo de bicho em casa. Quando ele era criança, ele teve um tamanduá, que ele achou e conseguiu autorização do Ibama pra criar. E ele teve o primeiro petshop lá de Sete Lagoas, chama “Canil Godog”. Eu achava ele um gênio! Nossa, que genial! Ele criou essa palavra, que é o nosso nome. Já começa um pouco daí. A gente tinha todo tipo de animal mesmo: tinha tartaruga, já teve iguana, papagaio e animais que todas as pessoas podem ter também. Tive periquito, tive muitos pássaros. Meu pai também criou pombo-correio, que ele soltava em lugares e eles voltavam. Por muito tempo ele fez parte de um clube de columbofilia. Então, essas coisas dos pássaros e dos animais passa por aí. E as plantas é porque a gente sempre teve muita planta em casa, sempre. Desde pequenininho eu pegava mudinha. Então, acho que vem de um desejo de retornar à infância mesmo, retornar ao que está lá em Sete Lagoas, trazer de volta pra minha vida de adulto.
 

Mas, da mesma forma que você faz com os objetos, é um retorno ou uma re-interpretação? 

Pois é, não sei ainda. Acho que pode ser os dois: é um retorno e uma representação (não seria re-interpretação aqui, como está na pergunta?), não sei. É uma boa pergunta! Eu tenho lido muito a [Clarice] Lispector e converso muito com a Julia Panadés também: sempre falamos que a gente está continuamente voltando à infância, ao recorrer às coisas que não estão resolvidas, que a gente quer retomar, tentar entender mesmo. Igual às pessoas que desenham e falam comigo assim “ah eu não desenho” e aí desenham um desenho de criança porque parou ali, naquele momento, e não desenvolveu, não continuou a praticar. Eu acho que é muito doido o fato de que o artista continua a praticar, mas ele poder voltar lá atrás também, de novo no seu desenho de criança. A gente recorda, mas é muito doido isso de voltar. Tô sempre voltando.
 

Você fala da relação da sua infância com a arte com muita leveza, mas quando você fala do mal-resolvido, sua arte te angustia? 

Um pouco. Essa coisa do meu pai, eu vejo muito linda, todos os animais e tal. Mas vejo também com muita angústia porque os animais eram presos, eles tinham um espaço restrito ali onde ficavam. E os pássaros também, nossa! Eu tinha crises de querer soltar todos, mas nunca fiz isso. Minha madrinha falou que fez isso com meu avô, que eu não cheguei a conhecer. Então, eu fico com uma questão: será que eu devia ter soltado todos? Não soltei. Será que ainda dá tempo? Ah, vou fazer isso? Meu pai ainda está lá agora mais velhinho não sei. Me, dá uma coisa assim, de mal resolvido, por causa disso. Mas eu trato essas coisas bem tranquilo, sei entender que isso poderia ter acontecido, mas sei também que isso não aconteceu por um motivo. E que pode estar sendo resolvido nos desenhos.
 

Isso que você está trazendo é muito legal porque, quando vejo seu desenho, o pássaro que você desenha, pra mim, não simboliza liberdade. Quando ele está misturado com a mulher e com o homem e com a angústia... 

Sim, com a gente. Ele não tem asas, só tem aquela cabeça ali, representando o que ele é, mas ele não voa. Mas ele tem pernas, está andando por aí. Podia estar voando.

 

Mas, talvez, por fazer essa mistura com o aspecto humano, aproxima a gente do bicho. Mas, ao mesmo tempo... 

A gente tem muito essa coisa de tentar humanizar os animais, uma coisa muito maluca. Eu fiquei numa ecovila durante dois meses e lá tinha muito essa ideia de não ter animais de estimação, pois isso é muito pesado. Porque a gente começa a humanizar os bichos e não tem nada a ver colocar eles na mesa, colocar na roupa. Eu não vejo problema, mas rola muito, ainda mais nas cidades. Aí, nessa época, eu fiquei [pensando] assim: puxa, eu tenho gatos em casa, o que eu faço? Então, não posso ter? Mas eu sei que eles são muito livres também, eles saem, dão sua volta, isso eu acho lindo. Essa questão com os animais é muito maluca, você pensar a humanização deles nas cidades. Então, eu acho que a junção do animal e do homem está nesse lugar também, de todo esse pensamento que a gente tem de tentar humanizar o bicho. É muito essa coisa de fazer com que todo mundo seja parecido e de que como nós, humanos, somos “os melhores”, rola muito isso.
 

Como é a sua relação com a liberdade? 

Ah, eu sou muito livre. É até estranho eu falar isso porque, aí, eu me prendo na liberdade. Eu faço tudo que eu quero. Estou num lugar de privilégio por ter conseguido vender uns trabalhos, conseguir viver disso, comprar material, essa é uma liberdade do artista. Eu acho que é isso: está aí a liberdade.
 

Você se sente preso a alguma coisa? 

Hoje, me sinto ainda preso aqui, Minas Gerais, BH. Não me vejo indo para outros lugares. Mas, mais por uma escolha mesmo. Eu sou muito tranquilo, fico muito em casa, gosto de ficar aqui. Isso, para mim, é liberdade: ficar na minha casa, ficar desenhando, abrir um papel gigante, ficar desenhando. Algumas vezes, quando eu saio para alguma exposição e fico muito tempo na rua, já penso “nossa, preciso voltar, desenhar alguma coisa”. Porque, às vezes, a gente se toca por alguma coisa ali e quer logo fazer. Eu acho que a liberdade está aí também, nessa coisa de você escolher a hora que você quer fazer. E eu sou bem assim mesmo: é agora! Aí, eu vou.
 

O desenho trata o quê, em você? Porque você fala dele quase como um imperativo: “preciso desenhar”. Tem relação com algum sentimento específico? 

Ah, eu acho que cada momento tem uma coisinha diferente. Mas vejo que, quando eu estou angustiado, são os melhores desenhos, é quando eles saem melhor! Porque, nesse momento, eu estou tratando de uma coisa, estou tratando de mim, me tratando, externando uma coisa que precisa mesmo sair para eu melhorar. [LB1] Eu vejo muito a arte como terapia, salvando pessoas. Incentivo muito todo mundo a pintar, desenhar porque eu acho que é uma coisa que vem como terapia também, além de tudo o mais. Eu vejo assim mesmo, [como] um lugar de relaxamento.
 

Quando você diz terapia, você sente um alívio ou que aquilo promove giros no modo de existir? 

Nossa, legal isso, nunca tinha pensado dessa forma! Mas eu acho que promove giros, com certeza! Porque, depois de um desenho, eu sinto que eu não sou mais a mesma pessoa. Até mesmo porque eu gosto muito de... Por exemplo: ponho um papel gigante aqui e desenho, desenho, desenho e gosto muito de ficar sentado, olhando e tentando entender o que que eu fiz. Porque, às vezes, não é da ordem do “eu sei o que vou fazer”, muito do gesto mesmo. Estou lá, rabiscando alguma coisa, escrevo uma letra e, de repente, pode virar uma palavra. E aí tem muito dessa análise, assim, auto-análise, de pensar o que eu estou fazendo, por que aquela coisa apareceu e que, ainda, pode ser mais uma coisa, pois posso colocar mais um elemento ali. Os desenhos grandes me dão mais essa possibilidade de leitura porque a eles podem ser adicionadas mais coisas. A cada vez, mais um pouquinho. Daí, vira um universo mesmo. Estou gostando muito de desenhar grande, são dias! Esse aqui [mostra um desenho grande] ainda está em processo: tem dias que eu venho e escrevo uma coisinha.
 

[Efe comenta algumas obras suas]: 

Tem esses acúmulos, mas tem essas faltas também. Aqueles [mostra uma pasta onde guarda] que não quero me desapegar ainda e os últimos.
 

[Aponta algumas fotografias antigas trabalhadas e diz o quanto elas são creepy].* 

Isso que eu quis dizer: o animal que você desenha não é da vertente humanista ou ativista, mas ele captura o bizarro no humano.
 

[Comenta que seus desenhos de capivara viraram um projeto, no qual ele veste a cabeça de capivara e vira um de seus personagens]: 

Eu virei o desenho. Eu senti o que um dos meus personagens sentiria. Eu dei umas voltas pela Pampulha e andei de MOVE [sistema de transporte coletivo rápido]. Os guardas não me pediram para tirar a máscara, eu achei super estranho numa cidade, numa capital, andar de máscara no metrô. Isso foi muito maluco. E foi bem na época em que uma criança tinha falecido [devido à doença transmitida pelo carrapato da capivara] e, aí, me chamaram de assassino, materializaram a coisa.
 

Eu acho que vejo esses desenhos como registro de pensamento, do inconsciente mesmo. 

Tem um aspecto fragmentário, tem um quê de universo, mas não faz todo.
 

Tem muito! Total.
 

[Terminei a entrevista levando para casa dois seres imaginários].
 

[LB1] Lembrei dos pássaros na gaiola.


* Gíria inglesa usada para definir pessoas ou coisas estranhas, bizarras, assustadoras.

 

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