Ella também sabia sem Lacan aquilo que ele ensinava!

Márcia Rosa

A recente publicação, em francês, de O seminário, livro 6, O desejo e sua interpretação trouxe a público a homenagem feita por Lacan a uma psicanalista das primeiras gerações: Ella Sharpe (1875-1947). Psicanalista inglesa, membro da British Society of Psychoanalysis (BSP), Sharpe começou a sua carreira como professora de literatura e encontrou a psicanálise depois de um período de angústia e depressão causado pela morte de muitos de seus alunos nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. Tratada em Londres, decidiu se tornar psicanalista e, então, começou a ir a Berlim para fazer fatias de análise com Hanns Sachs, amante de literatura como ela.

Tendo se tornado membro da British Society of Psychoanalysis (BSP) em 1923, a partir de 1930, Ella Sharpe se responsabilizou por uma série de atividades destinadas aos analistas em formação no Instituto de Psicanálise. Entre 1934 e 1936 ela realizou ali uma série de conferências sobre os sonhos, as quais impactaram seus ouvintes pela franqueza concernente ao relato do seu trabalho enquanto psicanalista e pela honestidade com a qual ela convidava seus ouvintes a considerar o trabalho do próprio inconsciente.

Como nenhum analista tinha, até aquele momento, lido o diário da análise do Homem dos Ratos, redigido por Freud, essa teria sido “a primeira vez que um psicanalista teve a ideia de dar um relato completo de uma sessão de análise, como se ela tivesse sido gravada”, observou Ernest Jones. E o colega inglês continua:

[…] ela escutava com uma orelha minuciosa cada som emitido por um paciente e tomava ao pé da letra e com o maior cuidado cada palavra pronunciada. Provavelmente em razão dos seus interesses literários, ela tinha uma fineza particular para analisar as conotações verbais e linguísticas do material fornecido.

Lacan, por sua vez, destacou e apreciou nela a sua “profunda valorização do caráter significante das coisas. Ela colocou o acento sobre a metáfora de um modo que não é absolutamente dissonante das coisas que eu vos explico”, dirá ele em sua homenagem. Impossível não evocar aqui a homenagem rendida a Marguerite Duras, essa que também sabia sem Lacan aquilo que ele ensinava.

Se a escritora de literatura francesa sabia que “a prática da letra converge com o uso do inconsciente”, é também essa convergência da letra com o inconsciente que encantará Lacan em Sharpe, só que, desta vez, isso é demonstrado não através de um texto literário, mas do relato minucioso de um sonho trazido a uma sessão de análise. Esse relato constitui o capítulo V de Dream Analysis – A practical Handbook for psychoanalysts, publicado em 1937 pela Hogarth Press e o Institute of Psycho-analysis.

Lacan se ocupará dele no decorrer de cinco lições do seu seminário sobre o desejo e sua interpretação. Embora homenageie Sharpe, ao se colocar na posição de um supervisor, ele não deixa de convocá-la de volta à escuta do significante nos momentos em que ela trata de modo imaginário tanto o falo quanto a relação do sujeito ao pai:

[…] trata-se de saber onde está o falo para esse sujeito, mas para isso, é necessário dar a ele seu caráter significante e não ficar ligado nessa velha ideia imaginária de rivalidade impossível com o pai, uma vez que nada do que é relatado [na sessão] aponta nessa direção.

O livro Ella Sharpe lue par Lacan: textes choisis et commentaires, publicado em 2007 em Paris por Hermann Éditeurs, teve os textos de Sharpe escolhidos, traduzidos do inglês e comentados à luz do ensino de Lacan por Marie-Lise Lauth, a qual contou com a contribuição de Méchinaud, J.-Y., Samacher, R. e Triol, J.

Nos comentários aos textos traduzidos, entre eles o capítulo Análise de um sonho único (1937), a editora e sua equipe nos possibilitam saber um pouco da biografia de Ella Sharpe; além disso, nos permitem considerar o que está politicamente em jogo na instituição psicanalítica regida pela IPA no momento em que Lacan, ditando o Seminário 6, em 1958-1959, escolhe comentar uma analista inglesa dos anos 1940.

Méchinaud observa que em 1959 se acentua a pressão das instâncias da Internacional Psychoanalytic Association (IPA) quanto à validação da prática clínica e didática de Lacan. Em vista disso, “apoiado sobre o sólido material trazido por Ella Sharpe, Lacan defende sua técnica mostrando que ela é absolutamente freudiana e que o seu rigor lhe permite até mesmo enriquecer e reorientar a interpretação desse ‘sonho único’”. Se isso lhe foi útil nesse momento, a mesma estratégia usada poucos anos depois não lhe foi de muita valia.

Em 1963, no seminário sobre a angústia, ele se serve das contribuições das analistas anglo-saxãs Lucy Tower, Margaret Little e Barbara Low, mostrando que elas se perdem na contratransferência. Ao substituir a contratransferência pelo desejo do analista, Lacan deixava à mostra o fato de ser mais freudiano do que aqueles que, logo depois, o excluiriam.

Se não fosse pelo que já exposto, ainda assim o livro Ella Sharpe lue par Lacan seria interessante e atual por trazer o ensaio da analista inglesa, intitulado A impaciência de Hamlet ou o luto não realizado, redigido em 1929. Esse ensaio marca o seu retorno à literatura inglesa, depois do encontro com a psicanálise. Nele, Sharpe tenta demonstrar que a de Hamlet não é uma tragédia da procrastinação (ruminação, abulia, dificuldade de agir, etc.), mas uma tragédia da impaciência, da impaciência de um luto não realizado. Lacan não desconhecia esse ensaio e chegou mesmo a afirmar que Sharpe disse coisas sobre o Hamlet que não são sem interesse!

Para uma época como a nossa, marcada por dificuldades com o tempo, com a pressa, com a impaciência, nada melhor do que um encontro com Ella Sharpe lue par Lacan!

Márcia Rosa é psicanalista membro da EBP-AMP, doutora em Literatura Comparada (UFMG) e professora na pós-graduação em Psicologia (Psicopatologia/Psicanálise) da UFMG.

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