O SONHO DO PACIENTE DE ELLA SHARPE – QUANDO A

INTERPRETAÇÃO FAZ DORMIR[1]

Laura Rubião

 

 

Para retomar o tema do sonho no Seminário 6, Lacan revisita o livro de Ella Sharpe, Análise dos sonhos, no qual ela dedica um capítulo inteiro à análise do sonho daquele a quem chama Robert, paciente antigo e assíduo na análise. O foco lacaniano é certamente o estilo interpretativo da analista, embora não deixe escapar o menor detalhe do que enuncia o paciente e, aos poucos, nos entrega sua própria interpretação. Um trabalho de fôlego, designado por Miller como uma superinterpretação (MILLER, 2013/2014, p. 32).

Trata-se de um paciente que sofre de graves fobias que o paralisam no exercício de suas funções como advogado. Ele é descrito pela analista como alguém que tem “pavor de sentir” e que é de um perfeccionismo rígido. Costumava repetir em análise rituais psíquicos e corporais, para que nada variasse ou saísse do previsível. A analista observa, com precisão, que seu problema não é recuar no trabalho por medo de fracassar, mas porque “seria bem-sucedido demais”, e recorda a frase do pai em seu leito de morte: “Robert deve tomar o meu lugar”. Infere-se então que, para esse paciente, crescer é equivalente a morrer e que ele deveria ficar imóvel, tão morto como o pai deveria permanecer para ele (SHARPE, 1937/1971, p. 85).

O prelúdio do sonho

Esse sonho apresenta o que Lacan identifica como sendo um prelúdio, o qual ganha importante relevo na análise crítica que ele constrói. Antes de ser relatado na sessão, o sonho é precedido por algumas falas do paciente. Esse sujeito, que nunca era notado ao chegar, apresentou naquele dia uma tossezinha, como se estivesse anunciando sua chegada. Inicia então sua sessão, isolando esse ato como significativo. Ele não sabe o que isso quer dizer, mas sabe que quer dizer algo. Lacan confere uma importância especial a essa fala do sujeito, apontando aí a presença do sujeito suposto saber, ou seja, um índice da marca do inconsciente para esse paciente que, pela primeira vez, pôde se apresentar inserido no discurso do Outro. O Outro que ele quer calar a qualquer custo se faz, enfim, presente no contexto transferencial (LACAN, 1958-1959/2016, p, 154-56).

Mas o que diz o sujeito sobre a tossezinha? Diz que é um ruído que pode ser feito para que seja anunciada a entrada de um terceiro quando dois amantes estão se beijando e se lembra de já ter lançado mão desse recurso ao surpreender desse modo seu irmão com uma namorada. Emitiu esse pequeno sinal para que eles pudessem ter tempo de interromper o que estavam fazendo. Além disso, ele prossegue em suas associações, dessa vez enunciando uma fantasia. Imaginou que “estando em algum lugar e não querendo ser encontrado lá – por que não deveria estar ali – poderia latir como um cão.” O latido seria um índice de seu desaparecimento, pois todos diriam: oh! É apenas um cão. Em seguida, lembra-se de uma ocasião em que um cão veio masturbar-se em sua perna e ele temeu ser surpreendido nessa situação. Acentuou seu constrangimento em dizer isso, uma vez que não interrompera a atividade masturbatória do cão. Lacan nos propõe a seguinte leitura: a tosse evoca um casal que tem prazer; por outro lado, o sujeito fantasia o latido do cão para desaparecer, ele próprio, de uma cena de prazer, pois temia ser surpreendido onde estava. O sujeito está em toda parte: tanto fora, como aquele que desativa o gozo do Outro, quanto dentro da cena com o cão, mas fazendo-se novamente desaparecer. Esse sujeito se anuncia para se fazer outro, para cair fora, para ser ninguém como quando latia como um cão. O latido é, portanto, “o significante do que ele não é” (LACAN, 1958-1959/2016, p. 181).

Lacan chama ainda a atenção para o fato de que ele apresenta essa tosse na antessala do consultório e que há aí um elemento transferencial importante. Essa tosse quer evidentemente dizer: estou aqui. Se você está fazendo algo divertido e que não seria divertido se fosse visto, é hora de pôr um fim nisso” (LACAN, 1958-1959/2016, p. 168). Mais uma vez algo atrás da porta deve ser interrompido.

O SONHO

Estava fazendo uma viagem com minha mulher ao redor do mundo e tínhamos chegado à Tchecoslováquia. Eu encontrava uma mulher numa estrada, uma estrada que agora me faz lembrar a estrada que lhe descrevi faz algum tempo nos outros dois sonhos em que eu fazia um jogo sexual com uma mulher na frente de outra mulher. Desta vez minha mulher estava presente enquanto a atividade sexual se dava. A mulher que eu encontrava parecia superapaixonada. Nesse sonho, a mulher queria ter uma relação sexual comigo e tomava a iniciativa, o que, como você sabe, é uma coisa que me ajuda muito. No sonho, a mulher estava, de fato, em cima de mim. Ela tinha a intenção de introduzir nela o meu pênis. Eu percebia pelas manobras que fazia. Eu não estava de acordo, mas ela ficava tão decepcionada que pensei que deveria masturbá-la.

Passado algum tempo, ele acrescenta:

Lembro-me de que sua vagina agarrou meu dedo. Posso ver a frente de seus órgãos genitais, a extremidade da vulva. Algo grande e saliente pendia para baixo, como uma dobra de um capuz. Era como um capuz e era disso que a mulher fazia uso ao manobrar para agarrar-me o pênis. A vagina pareceu fechar-se em torno do meu dedo. O capuz parecia estranho (LACAN, 1958-1959/2016, p. 89).

A primeira observação feita pelo paciente e endossada tanto por Ella Sharpe, quanto por Lacan é a de que o verbo to masturbate em inglês é intransitivo e que, de fato, tratava-se, simplesmente, de masturbar-se e não de masturbar a mulher. A analista conclui tratar-se no sonho de uma fantasia de masturbação que ela entende como uma fantasia de onipotência.

O elemento mais fecundo para as associações do paciente é o capuz ou essa protuberância da vagina. Ele pensa em uma caverna que costumava visitar com a mãe na infância. O lugar possuía um topo imenso, muito similar a um lábio, donde a relação metonímica entre lábios da boca e lábios vaginais. Desse ponto ele chega à capa de golfe que um amigo queria lhe vender feito do mesmo material que a capota de um carro; em seguida, lembra-se da capota de um carro em que esteve na infância e das correias que o prendiam no carrinho de bebê. Das correias se recorda de quando foi dominado pela compulsão de colecionar tiras de couro e também de cortar as tiras da sandália da irmã. O paciente acrescenta ainda uma lembrança de ter sido preso ao berço para “não cair pra fora”.

A pista cardeal do sonho: o Falo Imaginário

A analista ressalta ser da maior relevância o fato de que esse sonho visa transmitir uma fantasia de masturbação infantil, a qual, segundo sua interpretação, traria à tona o tema da potência. Ella Sharpe concebe o pênis como órgão portador da rivalidade imaginária agressiva endereçada ao pai. É por ter sido um menino agressivo – que, com seu choro ou pela enurese, interrompera a atividade sexual do par parental – que ele deve temer a retaliação dessa vagina devoradora que remonta ao órgão sexual feminino. O capuz e o pico da montanha seriam o clitóris; a enurese e o ato de cortar as sandálias da irmã, suas compulsões agressivas; o fato de ter sido contido no berço, uma indicação de que isso preveniria a masturbação (SHARPE, 1937/1971 p. 93-99).

Sobre a interrupção da atividade sexual de um casal – tema fantasmático presente na tosse –, o paciente havia trazido outra lembrança tempos atrás. Tendo ido assistir a uma solenidade a que o Rei e a Rainha estariam presentes, desenvolveu uma ansiedade em relação à possibilidade de obstruir com seu carro a passagem do casal Real.

Lacan, apesar de render muitas homenagens a Ella Sharpe, acentua a precipitação da analista ao tomar os elementos do sonho separadamente, seguindo as pistas daquilo que brota das imagens analíticas (LACAN, 1958-1959/2016, p. 212). Nada, nem no sonho, nem nas associações do paciente, nos permite pensar que o falo é uma arma, um instrumento da agressão contra o pai. Ella Sharpe, no entanto, defende esse ponto de vista de modo ostensivo: para esse paciente havia “um reforço da fantasia inconsciente de uma imago materna devoradora, cujo amor e cuidado só terminava pela morte do pai” (SHARPE, 1937/1971, p. 85). Ela compara a análise a um “longo e arrastado jogo de xadrez” e que continuaria assim até que ela deixasse de comparecer na transferência como o pai vingador que tende a acuá-lo e pudesse lhe dar o “xeque-mate” (SHARPE, 1937/1771, p. 84).

Lacan ressalta a filiação kleiniana da autora, à qual remontaria sua interpretação, que privilegia claramente o falo imaginário. Sendo o corpo da mãe o depositário caótico da coexistência dos objetos bons e maus, a criança identifica-se primariamente a essa desordem e passa de uma fase fragmentária ao reconhecimento do outro como uma unidade. Toda a questão é que a teoria de Melanie Klein fica estacionada no eixo da especularidade imaginária e não concede ao falo o estatuto simbólico que ele tem, ou seja, de ser esse elemento que aponta para a falta do significante, para a falta a ser e, sobretudo, indica a castração do Outro – que seria justamente o nó subjetivo em questão.

Meu nome é ninguém, ou como se fazer desaparecer quanto ao desejo

Lacan, ao contrário de Ella Sharpe, conjuga as produções fantasmáticas desse sujeito ao sintoma de querer sempre desaparecer, cair fora da cena, nunca estar presente quando deveria estar. A tosse indica exatamente isso: quando ele chega, o gozo do Outro deve ser desativado e isso, a despeito da recusa da analista, se repete na transferência, pois ele diz, embora por meio de uma denegação, que ele nunca poderia imaginá-la em situação semelhante, ou seja, masturbando-se. Por sua vez, disfarçar sua presença, fazendo-se passar por um cão, traduz sua performance de anulação do ser[2]. Seu temor de que fosse surpreendido com o cão a se masturbar engendra a estratégia do desaparecimento diante da vergonha, caso fosse surpreendido pelo olhar do Outro.

Quanto ao sonho, Lacan valoriza a fantasia de masturbação para lê-la em uma direção oposta da que adota a analista. O ato de masturbar-se revela o seu estado de “pane sexual”, de evitação de qualquer risco quanto ao desejo, uma vez que anula a diferença sexual e nega, a qualquer custo, a castração do Outro. Ele enfatiza o fato de que a outra mulher (sua mulher) está no sonho, mas de um modo lateral, sem qualquer função.

Lacan se atém detalhadamente sobre a imagem do capuz (hood), para localizar o problema subjetivo em questão que, mais uma vez, teria passado desapercebido a Ella Sharpe. Nada indica que estamos diante da imagem da mulher fálica. O capuz (do carro, da capa de golfe, do carrinho de bebê) exprime exatamente essa condição de encapsulamento do sujeito, que realiza todas a manobras para não colocar o falo simbólico (o significante da falta de significante) em jogo. Trata-se, portanto, de alguém que nada quer arriscar quanto ao desejo. As lembranças de estar preso, tanto no carrinho, quanto no berço, sugerem essa imobilidade.

Quando o sujeito diz que, com seu carro, poderia impedir a passagem do casal real, é novamente esse voto de congelamento do Outro, de estancamento do desejo que estaria em questão. Se a análise pode ser comparada a um jogo de xadrez, só podemos considerá-la assim se entendemos que o sujeito não quer perder sua rainha, ou seja, não acede à verdade estrutural de que não se é e se tem o falo ao mesmo tempo – se temos o falo, não o somos e vice-versa. Segundo Lacan, a rainha só entraria aí como peça fora do jogo. O casal bloqueado, preso dentro do carro, evoca o episódio da Odisseia em que Vulcano, ao flagrar sua esposa Vênus com o amante Marte, joga sobre o casal uma rede, expondo-os diante do olhar de todos, o que provoca o riso inextinguível dos Deuses. O sujeito do sonho seria tanto o rei com sua rainha preso dentro do carro, quanto Vulcano que atira a rede (CASTRO, 2017). Ele é a rede e ao mesmo tempo o que fica enredado, como uma luva revirada ao avesso que mostra a sobreposição dos elementos feminino e masculino, indicando o efeito do que Lacan define como uma “pane sexual”.

Miller nos esclarece que aí é dado um passo a mais na sequência do ensino de Lacan, uma vez que a função da fantasia é colocada em destaque – há aqui uma primeira lógica da fantasia, antes do Seminário 14. Mas a fantasia, nesse momento, é uma defesa contra o real, uma resposta ao S (A/), tal como indica a parte superior do grafo do desejo, construído passo a passo nesse seminário. A fantasia torna-se um recurso do qual lança mão o sujeito diante do encontro com a opacidade do Outro, de seu caráter enigmático e radicalmente fora do sentido. “O desejo implica uma relação com o objeto através da fantasia” (MILLER, 2013/2014, p. 34). É apenas ao final deste seminário que Lacan recuperará o estatuto pulsional da fantasia, enfatizando a consistência do objeto pré-genital como objeto que introduz um corte, o que o situa ao lado do real, ou seja, como efeito de uma fissura impossível de ser recoberta pelo domínio, tanto do imaginário, quanto do simbólico.

Desse modo, no momento em que se dedica à análise do sonho do paciente de Ella Sharpe, Lacan não dispõe da elaboração da fantasia como modo de gozo. Ele insiste (tal como já havia feito quando da análise do sonho da injeção de Irma) que não se deve deixar capturar pelo plano da compreensão quando se quer fazer valer o lugar do analista diante de um sonho a ser interpretado. Temos, ao contrário, que nos posicionar no plano da estrutura, para que possamos cingir o ponto de enquadramento do sujeito com o desejo.

É Miller ainda que nos dá uma indicação preciosa, recolhendo um ponto essencial desse seminário. Ele assinala que o sujeito, enquanto ser falante, está sempre golpeado pelo ponto pânico (point panique) (MILLER, 2013/2014, p. 31), que é da ordem do desamparo freudiano. No fundo, ele estará, em algum momento, sem palavras, sem possibilidade alguma de apelar para uma representação; só depois, e exatamente por isso, ele se agarra ao objeto imaginário. A fantasia do cão latindo não seria exatamente o que vem remediar e camuflar esse ponto radical de desaparecimento/ apagamento do sujeito em seu encontro traumático com a língua? Haveria então uma dupla face desse “ser ninguém” na medida em que tanto designa a abolição estrutural do sujeito, quanto, num segundo momento, uma tentativa de se haver com isso por meio da fantasia de desaparecimento.

O uso feito pela analista na interpretação desse sonho vai exatamente na direção oposta, pois toma o falo como um instrumento agressivo de poder, cujo uso masturbatório e, portanto, onipotente, engendraria um temor da castração por meio da vingança do órgão sexual feminino devorador. Então é como se a análise servisse para inflar a potência fálica, encorajar a postura agressiva de enfrentamento do outro: vencido o medo, pode-se finalmente ter acesso a um bom uso da virilidade. Não sendo a questão neurótica ligada exatamente ao temor da castração, mas a uma evitação em se tomar o Outro como castrado, o que tende a ser remendado (encapsulado) o tempo todo é essa falha constitutiva do Outro. Seria possível dizer que a interpretação de Ella Sharpe alimenta o sonho de continuar dormindo preso à sua fantasia de encapsulamento, evitando o despertar e o encontro com a falta de garantia do Outro?

Nesse sentido, não deixa de ser curioso observar que, enquanto muitos dos sonhos de Freud recebem um nome, que funciona como marca singular do gozo do sonhador – o sonho do pai morto, da bela açougueira, dos lobos –, este se mantém como sonho “do paciente de Ella Sharpe”. O que se coloca em destaque é o imaginário da analista do qual o sujeito permanece como refém. Será que Lacan o teria batizado como sonho do capuz? Ou o sonho de Ninguém?


[1] Texto apresentado no Seminário de Orientação Lacaniana em Junho de 2019.

[2] Alusão ao célebre episódio da Odisseia em que Ulisses, interpelado pelo ciclope Polifemo, responde chamar-se Ninguém. Quando o gigante pede ajuda a seus companheiros, explica de modo insensato que ‘Ninguém’ havia lhe ferido o olho, perdendo, assim, toda credibilidade. Com esse ardil, Ulisses consegue, enfim, escapar da caverna.

 

Bibliografia

Castro, H. S. Interpretação, fantasia e sinthoma. Relatório apresentado durante o XII Congresso de Membros da EBP, abril 2017. Inédito.

LACAN, J. O seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação. (1958-1959) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016.

MILLER, J.-A. Uma introdução à leitura do Seminário 6. (2013) Opção Lacaniana, São Paulo, Edições Eolia, n. 68-69, p. 25-37, dez. 2014.

SHARPE, E. Análise de um único sonho. (1931) In: ___. Análise dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1971.

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