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Marguerite Duras: a vida escrita

 

Ruth Silviano Brandão

 

Marguerite Duras e a vida vivida, vívida, vida escrita, aí onde ela vive. Escrita e salto para a imagem, os filmes, as fotos. As fotos de La mer écrite mostram esse salto de uma poética que – dizem “do transbordamento”[1] – para uma outra forma de escrita, despovoada, dépeuplée, ela diria –, dos excessos de uma dramaticidade que foi além dos limites de sua escrita.

Pode-se falar de uma transposição nesse processo de uma cura da escrita, segundo Alain Badiou,[2] no texto em que associa cura analítica e cura poética. Compreendo a transposição como uma forma de tradução que faz um trajeto, desliza nas metáforas e metonímias dos textos e dos corpos que escrevem. É um salto. Outros escritores deram esse salto e apresentam algo da ordem da diferença em sua vida e suas obras. Uma ultrapassagem.

Escolhi apresentar neste Encontro uma leitura que fiz de Duras e alguns de seus livros, sublinhando sua relação com o mar. Se podemos falar em biografema,[3] o mar é o biografema de Duras e, em um de seus últimos livros, La mer écrite, apelando para a homofonia, lemos: La mer, la mère, l’amer (o mar, a mãe, o amargor).

O mar, para Duras, é um monstro, The thing, afirma ela, em entrevista para Jean-Pierre Ceton: “The thing, La Chose, oui...”,[4] é algo que convoca a lembrança dos abismos, o medo que invade as crianças pequenas o medo de tudo: dos lobos, das cavernas.[5] Um medo terrível, nunca totalmente vencido, uma potência do mal, diria o narrador de Barragem contra o Pacífico, uma força destrutiva que enlouquecia a mãe, real/ficcional.

Nos escritos de Duras há sempre ou quase sempre uma mistura de ficção e realidade, o que ela mesma confirma, várias vezes, em vários textos e entrevistas. Em Barragem contra o Pacífico, a vida de uma família francesa enfrenta a fúria do mar que avança sobre suas terras, enlouquecendo a mãe, que, como Sísifo, constrói e reconstrói barragens contra a violência das marés que invadem suas terras.

A escrita de Duras nesse romance, seu terceiro, excede, transborda passionalmente, na exibição de uma revolta que nada detém. A mãe, em sua loucura – significante que se repete no livro – com a força de suas palavras, investe contra o sistema colonial francês na Indochina, para onde fora com sua família. E aí tudo que constrói se desfaz, pela loucura do mar, pela voracidade dos caranguejos que corroem as pilastras das barragens, e tudo recomeça, e o fracasso se repete, sem se deter diante da fragilidade dos alicerces que desmoronam. Tudo é excessivo em Barragem contra o Pacífico, desde a dramaticidade, efeito de um sistema político surdo às dificuldades dos membros da família, até o incesto anunciado entre irmãos.

Diante da violência da guerra em Hiroshima, mon amour, dos restos dos corpos queimados, do horror que se estampa em fotos e filmes, as personagens principais – a Francesa e o Japonês – repetem que não se pode esquecer, que não se pode fechar os olhos diante do horror, onde amor, realidade e ficção se fundem nos nomes: Nevers e Hiroshima. “Você é Nevers, Você é Hiroshima”, os amantes se designam e se apontam, como espelhos que devem refletir, sempre, aqui e agora, o passado que não passa. Quando consegue falar sobre o que viveu na guerra, em Nevers, com seu amante alemão, a mulher francesa desata o nó das palavras que explodem, como algo que não se pode deter. Em entrevista a Jean Pierre Ceton, Duras fala do personagem de Verão de 80 e afirma: “Gdansk é mortal. É o menino de olhos cinzas. É isso”.[6] Ficção e realidade, passado e presente, lugares diversos do mundo inauguram nova geografia e outra temporalidade.

La mer écrite. Comprei esse pequeno livro há anos: é um livro de fotos, fotos do mar, que me lembraram, não por semelhança, mas por diferença os livros Barragem sobre o Pacífico, Hiroshima mon amour e Verão de 80 (L’été 80), este último composto de crônicas escritas para o jornal Libération e publicadas em livro, em 1980.

As fotos do mar que aí se exibem podem ser lidas como uma transposição, um outro lugar em que a escrita se depura, ou nas palavras de Erick Gontijo Costa,[7] se acuram, depois de todo um processo em que o escritor cria uma barra entre o que viveu e o momento da escrita. Não só se cria uma distância entre a violência vivida no corpo e na memória, mas a própria escrita se cura também.

Esse livro foi publicado em 1996, ano da morte de Duras e dezesseis anos depois de Verão de 80. Nesses escritos, em que se misturam ficção e realidade, as histórias contadas apontam para a situação política do momento e para situações em que as personagens esbarram no real do incesto. Essa questão se explicita em Agatha, peça teatral publicada em 1981. E é do incesto que Duras fala em “Le désir, l’inceste, l’homosexualité”, de Le livre dit, revelando a violência que incidiu em seu no corpo, sua memória, sua escrita. Duras em Agatha torna explicito o incesto que a marcou com violência e dor.

Mas é nas fotos de La mer écrite, fotos da mesma data de Verão 80 e de Agatha, que, através das imagens, num gesto de transposição, de um salto para uma espécie de cura da dramaticidade vivida e vívida, que a escritora pode dar um tratamento ao que viveu e de que era impossível falar. Nessas fotos há o desaparecimento do que viveu, mas há vestígios, restos de toda a sua vida, num mar barrado com frágeis barreiras. O que aí se vê, nessas fotos feitas durante dezesseis anos, não é apenas uma ilustração dos verões, nem uma continuidade, uma metonímia, mas um desaparecimento, um esvaziamento do eu narrador, sempre confundido com ela, narradora-Duras, tornada poema-Duras.

 

Derivas analíticas agradece a Ruth Silviano Brandão por sua amável colaboração com este número da revista.

Ruth Silviano Brandão é professora emérita da FALE-UFMG. Escritura, poeta e tradutora, ela publicou vários ensaios como Mulher ao pé da letra: a personagem feminina na literatura (Ed. UFMG, 2006). Ela assina a tradução brasileira de O nascimento da poesia: Antonin Artaud, de Jean-Michel Rey (Ed. Autêntica, 2002)

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[1] CETON, 2012, p. 45.

[2] BADIOU, 2002, p. 237-242.

[3] BARTHES, s.d., p. 14.

[4] CETON, 2012, p. 56.

[5] CETON, 2012, p. 57.

[6] CETON, 2012, p. 54

[7] COSTA, 2014.

 

Referências

BADIOU, A. Por uma estética da cura analítica. Escola Letra Freudiana: A psicanálise & os discursos. 2004.

BARTHES, R .Sade, Fourier, Loiola. Tradução de Maria de Santa Cruz. Lisboa: Edições 70, s.d.

CETON, J.-P. Entretiens avec Marguerite Duras. Paris: François Bourin Éditeur, 2012.

COSTA, Eric Gontijo. G. Acurar-se da escrita - Maria Gabriela Llansol. 2014. 160 f.Tese (Doutorado em Estudos Literários) - Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014.

DURAS, M. Agatha. Tradução de Sieni Maria Campos. Rio de Janeiro: Record, s. d. (Original publicado pela Éditions de Minuit, 1981).

DURAS, M. Barragem contra o Pacífico. Tradução de Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: ARX, 2003.

DURAS, M. Escrever. Tradução de Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

DURAS, M. Hiroshima, mon amour. Scénario et dialogue. Gallimard, 1960.

DURAS, M. La mer écrite. Marval: 1996.

DURAS, M. Le livre dit. Entretiens de Duras filme. Paris: Gallimard, 2014.

DURAS, M. O verão de 80. Tradução de Sieni Maria campos. Rio de Janeiro: Record, s. d. (Original publicado pela Éditions de Minuit, 1980).

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