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Mensagens na garrafa: aventuras contemporâneas da subjetividade

Reginaldo Luiz Cardoso

Pequeno ensaio fotoliterário

“O que é que orienta a percepção? A fascinação pela cena representada ou a fascinação pelo modo de representação? A imagem fotográfica tem sempre uma existência ambivalente. Comparada à pintura, na observação da fotografia predomina a primazia, a proximidade da realidade que lhe é inerente. Mormente, são imagens que querem redescobrir a cidade, pela noção da cidade enquanto texto, lida como um conglomerado de signos (r. l. c)”

náufragos I - reginaldo l. cardoso
 
 
náufrago II - reginalddo l. cardoso
 
Quarenta e dois anos após a publicação de Minima Moralia (1951), em 1993, foram publicados postumamente na New Left Review textos inéditos do filósofo frankfurtiano Theodor Adorno que, por motivo obscuro, deixaram de ser publicados na obra citada. Para esses textos curtos, essas pílulas filosóficas, Adorno (1903-1969) adotou o sugestivo nome de “mensagens numa garrafa”.
 
 
 
  náufragos III - reginaldo l. cardoso     náufragos IV - reginaldo l. cardoso
   
Sabemos, desde Robinson Crusoé, que mensagens em garrafas são os últimos sinais que os náufragos lançam quando lhes sobra uma terra firme para sobreviver. Sozinho ou não, para o náufrago abandonado pelo destino em uma ilha deserta, longe dos outros, em posse apenas da memória, essa pode ser a chance única de seu encontro com a liberdade. O que resta da sua subjetividade é lançado junto com a mensagem na garrafa. Se as garrafas forem muitas, as primeiras mensagens serão de socorro, de apelo ao outro, a alguém, para seu resgate.
   
  náufragos V - reginaldo l. cardoso   náufragos VI - reginaldo l. cardoso
   
Com o tempo — e é importante pensar aqui na memória,que é uma das dimensões do tempo —, as mensagens vão deixando o campo do apelo, pelo menos do apelo imediato, e passam para outra ordem de apelo. Passa o náufrago, então, a elucubrar sobre o mundo, o mundo que lhe restou no presente, aquele que ficou para trás e, inutilmente, o mundo futuro. Como talvez haja muitas garrafas, mesmo que não sejam infinitas, as mensagens devem, necessariamente, ser regradas e conter o máximo possível de informações,e sempre com algo da primeira mensagem: a provável localização do náufrago, as suas atuais condições, etc., pois não há razão alguma para que se pense que uma mesma pessoa receba duas ou mais mensagens na garrafa de um mesmo náufrago.
 
 náufragos VII - reginaldo l. cardoso
 
 
 náugrafos VIII - reginaldo l. cardoso
 
 Diferentemente de outras ocasiões de sua vida, a não ser que seja resgatado, o náufrago está inexoravelmente preso àquele território, àquele espaço desconhecido dos outros. Tudo pode acontecer, e nada pode acontecer. Entre um limite e outro, há a existência de infinitas possibilidades. Como ensina a lógica do universo, o limite de um homem, quando ele tende a zero, é infinito. Dessa maneira, posto à condição de refletir e de necessariamente lançar tais pensamentos ao mar em um texto de minimalismo atroz, o nosso náufrago inaugura em si e para si pensamentos em pílulas, condensados no papel e transportados pelo mar a bordo de uma garrafa.
 
 
náufragos IX - reginaldo l. cardoso
 
 náufragos X - reginaldo l. cardoso
 
Isso é um aforismo. Tal é a questão do aforismo. Essa é a única escapatória do sujeito: através de aforismos, transformar a sua dor em sofrimento e lançar apelos. A única maneira de o homem pós-moderno sair de sua condição de “último homem”, revelada por Nietzsche, é se transformar em náufrago, é lançar mão da alegoria do naufrágio e se projetar enquanto náufrago, emitindo apelos que busquem transformar a sua dor em sofrimento. Se assim não for, a condição de náufrago, abandonado pelo destino, é solitária, individual, sem espelhismo, sem outro. O único outro possível é a sua memória, que deverá ser resgatada, cultivada quase à força equivalente de uma alucinação, de imagem sem objeto.
 
náufragos XI - reginaldo l. cardoso
 
náufragos XII - reginaldo l. cardoso
 

Derivas Analíticas agradece a Reginaldo Luiz Cardoso pela generosa colaboração com este número da revista e também a Ariela Bueno, pela curadoria e tratamento das imagens.

Reginaldo Luiz Cardoso nasceu em Ouro Preto, em 1961. Graduou-se em psicologia pela FAFICH – UFMG. É mestre em ciência política (DCP – UFMG) e doutor em planejamento urbano (IPPUR – UFRJ). A fotografia sempre acompanhou seu percurso acadêmico, como “parte de suas evidências empíricas”. Sua primeira exposição de fotografia, “poses urbanas” (UFRJ – RJ), data de 2008; a última exposição foi com o coletivo “geografias imateriais”, como parte das comemorações dos 25 anos do Centro Cultural da UFMG (BH), em 2014.

 

 

 

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