Psicose ordinária:

uma invenção linguageira para nosso tempo

 

Véronique Voruz

 

 

Introdução

Para esta intervenção, escolhi não falar especificamente de psicose ordinária, mas situar o conceito no aggiornamento radical da teoria psicanalítica em curso na Associação Mundial de Psicanálise, impulsionado por Jacques-Alain Miller e alguns outros. Farei isso isolando alguns momentos-chave em nossa orientação desde a invenção do conceito de psicose ordinária, em 1998. Esses momentos-chave estão cristalizados em conceitos que podem ser considerados conceitos de estofo,[1] pontos de basta que redefinem e reorientam nossa prática analítica.

Por que escolhi esta abordagem?

Num primeiro nível, ela está em consonância com o modo como Lacan nos ensinou a abordar a função da linguagem: no quilting, um ponto de estofo é necessário para reunir e ordenar as significações produzidas em um campo, para especificar retroativamente e determinar as intenções de significação, que às vezes não são claras mesmo para aqueles que falam e, assim, interromper por um tempo o desdobramento das cadeias de significações, que produz cada vez mais sentido e cada vez menos certeza. Um significante novo ou usado de uma nova maneira funciona como um nome para um “momento de concluir” após anos de elaboração e, retroativamente, dá sentido ao que foi dito. Por outro lado, esse ponto de basta produz um novo ponto de partida para nossa reflexão como comunidade: um efeito de verdade é produzido pela introdução de uma nova invenção linguageira, e se esse efeito de verdade ressoa com nossa experiência, ele nos impele a reorganizar nossas premissas, nossa experiência e nossa prática. Um efeito de verdade semelhante ao gerado pelo conceito de psicose ordinária foi produzido mais recentemente pela proposição de Jacques-Alain Miller de substituir o inconsciente freudiano pelo corpo falante: o corpo falante vem como um ponto de basta, o nome de um momento de concluir após anos de elaboração dedicados a reorientar a psicanálise para longe do sentido, na direção do real como bússola da nossa prática.

Num segundo nível, escolho essa abordagem, a abordagem do “mapeamento”, porque ela serve bem para impedir que um significante, uma invenção linguageira adquira a consistência de uma categoria objetiva. Como usamos significantes? Para quê? Com que efeitos? Essas são questões que nunca devem estar ausentes da nossa prática, dado que estamos bem familiarizados com os efeitos segregativos do significante.[2]

Psicose ordinária

De fato, o conceito de psicose ordinária deve ser entendido precisamente como um ponto de basta − Foucault o teria chamado de princípio de inteligibilidade: um conceito extraído de um campo ex post facto, que pode, então, ser usado para ordenar esse campo. Na década de 1990, o trabalho das seções clínicas do Campo Freudiano atesta uma proliferação de casos não classificáveis em sua prática. Essa experiência compartilhada levou a três conversações clínicas que ocorreram em Antibes, Angers e Arcachon.[3] Esses encontros culminaram com o ponto de basta de Jacques-Alain Miller: para nomear, ordenar e reunir os fenômenos clínicos observados pelos analistas em sua prática − fenômenos clínicos que evidenciaram as transformações nos efeitos subjetivos de nossa civilização −, ele utilizou o significante “psicose ordinária”. A invenção do nome − psicose ordinária − foi muito importante: deu um novo ímpeto à nossa pesquisa clínica por algum tempo e forneceu uma alternativa para o impasse borderline na teoria psicanalítica. O fato de que a palavra “psicose” tivesse sido mantida − como para o título do Congresso da NLS,[4] ainda que no plural − significou que o que havia sido adquirido no tratamento psicanalítico das psicoses poderia ser mantido, enquanto o adjetivo “ordinária” veio para atenuar as reações que podem ser causadas pela palavra “psicose”. Mais importante ainda, permitiu que os clínicos deixassem de lado sua rede de segurança, nossa crença arraigada na objetividade das categorias de neurose e psicose. Forçou-nos a reaprender como pensar a partir dos fenômenos e não da categoria: o que está acontecendo em vez de o que isso significa? E é isso que Jacques-Alain Miller juntamente com o comitê executivo da NLS definiu como um objetivo para o Congresso NLS em Dublin: sinais discretos. O título do Congresso de Dublin ecoa a orientação decidida da Associação Mundial de Psicanálise: a resistência à redução da prática clínica a uma ordenação de seres falantes sob significantes.

Além disso, certamente a psicose ordinária é um significante, isto é, uma invenção linguageira. Assim, sua introdução teve efeitos em nossa comunidade: durante pelo menos uma década, os analistas tentaram correlacionar esse ser fictício com uma “estrutura real”, uma estrutura que seria a referência para esse significante. As proposições foram abundantes: psicose ordinária é psicose não desencadeada, psicose estabilizada, psicose suplementada, uma forma de psicose específica à hipermodernidade com identificação à norma como solução, etc.

Por isso, em 2008, em sua intervenção no Seminário Paris-Inglês Efeito do retorno à psicose ordinária,[5] Miller enfatizou que a psicose ordinária era uma categoria epistêmica: portanto, uma categoria de cujo status de ficção da linguagem devemos estar plenamente advertidos. Resta ainda que, a partir da sua invenção, Jacques-Alain Miller se empenhou em repensar radicalmente a teoria psicanalítica para o século XXI, como alguns de seus textos e nossos congressos indicaram em seus títulos.

O sintoma como acontecimento de corpo

O próximo ponto de basta no aggiornamento da psicanálise em nossa comunidade veio quando J.-A. Miller, em seu curso de 1998-1999,[6] decidiu colocar em primeiro plano uma dimensão do sintoma que até então tinha sido deixada de lado, embora esteja presente no texto de 1926 de Freud Inibição, sintoma e angústia. Refiro-me ao sintoma como um acontecimento de corpo, que muitas vezes se encontra equiparado com o sinthoma na literatura atual. De nosso ponto de vista, esse movimento de Miller iniciou uma reversão completa da perspectiva que Freud − e depois Lacan até seu último ensino − dera à psicanálise: onde se via a psicanálise tropeçar em um real irredutível, algo intratável pela linguagem e, assim, falhar em alguma medida, Miller argumentará gradualmente que o sinthoma, o sintoma como acontecimento de corpo, é a única bússola que nossa modernidade nos deixou, na medida em que mesmo o dispositivo do passe deve ser repensado para levar em consideração o fato de que o que Lacan chamou assim em sua Proposição de 1967 não leva o sinthoma em consideração. Em seu curso de 2011, Miller sugeriu que chamemos a isso outrepasse. Então, qual é esse sintoma como acontecimento de corpo?

No curso de 1998-1999, o sintoma como acontecimento de corpo é apreendido de duas maneiras: em primeiro lugar, o sintoma é uma modalidade de satisfação libidinal (o que Freud observa no texto de 1926); em segundo lugar, o sintoma como acontecimento de corpo é um efeito das marcas do discurso sobre o corpo do ser falante (não uma representação reprimida, como no sintoma conversivo). De que maneira a redefinição do sintoma como acontecimento de corpo nos ajuda a encontrar uma bússola para a nossa prática? Removendo o sintoma do conjunto clássico das formações do inconsciente, identificadas por Freud como distintas modalidades do retorno do recalcado por meio de mecanismos da cadeia significante tais como deslocamento, transferência e condensação. Também equivale a reconhecer que aquilo que Freud chamou de restos sintomáticos, não analisáveis, não são um efeito do protesto viril ou feminino do sujeito diante da castração, hipótese postulada por Freud em Análise terminável e interminável. Os restos sintomáticos são equivalentes ao sintoma como acontecimento de corpo.

Em seu curso de 2011, Miller dará um novo estatuto ao sintoma como acontecimento de corpo: é o que, na experiência humana, pertence ao registro da existência, na medida em que resiste ao jogo diferencial dos significantes. O sinthoma é o que permanece idêntico a si mesmo, independentemente de todas as operações de sentido que podem ser realizadas sobre / por um sujeito em análise. Como tal, é também o que salva o sujeito do interminável jogo da diferença que estrutura a dimensão do ser.

Para que isso faça um pouco mais de sentido, vou ligar a passagem ao primeiro plano do sintoma como acontecimento de corpo a outro momento de estofo fundamental no ensino de Miller: é seu último curso na Paris 8 e fornece uma reordenação abrangente do pensamento de Lacan a partir da perspectiva à qual, de maneira crucial, Miller se refere como a renúncia de Lacan à ontologia (11 maio 2011). Concluirei com uma consequência fundamental que Miller extrai daí com relação à prática psicanalítica.

Renúncia à ontologia / des-ontologização da prática analítica

A que Miller está se referindo aqui com essa expressão? Essa “renúncia à ontologia” é também referida como “des-ontologização da prática analítica” (25 maio 2011). É impossível fazer justiça ao incrível tour de force de Miller aqui, mas podemos sumariamente dizer que é nesse seminário que ele radicaliza a diferença entre ser e existência, e reordena o ensino de Lacan de acordo com o que é pertinente ao registro do ser e o que pertence ao registro da existência. Aqui está uma das formulações da proposição:

O Outro não existe quer dizer exatamente que é o Um que existe... O Um do significante. O Outro não existe não significa que o Outro não é. O Outro, o grande Outro, é... Não se compreende nada desse conceito maravilhoso do grande Outro que Lacan criou sem compreender que esse Outro se inscreve no nível do ser, distinto do nível da existência. É impossível encontrar o caminho sem distinguir o ser da existência (16 mar. 2011).[7]

Colocando o argumento de forma muito simples − Miller leva-o através das escansões epistêmicas da filosofia ocidental, através das três fases do ensino de Lacan, através de conceitos como o falo, a fantasia, o gozo feminino, a castração, etc. −, exceto pela parte que Miller mesmo identificou como o ultimíssimo ensino [tout dernier enseignement] em um curso anterior [2008-2009], Lacan buscou tratar o real com o ser; podemos expressar a mesma ideia dizendo que ele tentou transformar o gozo em desejo − este seria o efeito desejado de uma análise. Certamente vocês podem ver que essa é uma forma de entender a metáfora paterna: Nome-do-Pai sobre o Desejo da Mãe, com DM como um possível nome de gozo. Ou ainda se pensarmos na segunda metáfora paterna desenvolvida por Miller em 1986[8] e tomada por Éric Laurent no Congresso NLS em Tel Aviv:[9] usar o todo da linguagem para abrigar todos os fenômenos de gozo.

Vamos colocá-lo de outra maneira: Lacan procurou, por anos, através de muitas invenções e leituras bastante engenhosas dos textos freudianos, mostrar como todo o gozo podia ser negativado pela linguagem; em outras palavras, como tudo o que pertence ao registro da existência poderia ser traduzido no registro do ser. Mas a partir do Seminário 19: ...ou pior – até o Seminário 23, Lacan afirma que há algo que existe [Yadl’Un]: não é, no entanto, nenhuma referência ingênua a uma vida pré-ontológica, animal, mas ao Um do significante. O Um não deve ser confundido com S1, primeiro significante da cadeia. Ele é o Um-sozinho, o significante que, na medida em que está fora do sentido, marca o corpo humano e produz o gozo e o sintoma como acontecimento de corpo.

Para além disso, o que existe é a condição do que é:

Esse real... é o do significante. Não tem nada a ver com a presença palpitante [isto é, não confundamos a existência com a vida animal]. E é graças a esse significante que é possível ter todos os seres que se quer, é necessário que o significante se molde como discurso para que os seres apareçam na superfície do real, mesmo que possam estourar como bolhas de sabão. O significante enquanto real... há apenas um... O significante na medida em que existe como real preside e condiciona todos os equívocos, todos os semblantes do ser no discurso.[10]

Esse Um é o Um do gozo, que aparecera na obra de Freud como o momento de fixação da pulsão como raiz do sintoma, antes de seu desdobramento semântico. É o Um que itera fora do sentido para cada sujeito, o sinthoma que uma análise pode esperar circunscrever [serrer] ao seu final.

A política da des-ontologização

Por que Lacan renuncia à ontologia e Miller também depois dele? Se Lacan começou seu ensino argumentando que o particular das identificações de um sujeito deveria ser subsumido sob o universal do significante (quando sua ideia era que a causalidade psíquica pertencia ao registro imaginário), no ultimíssimo ensino a universalização do significante é o que impede que a singularidade de um sujeito seja circunscrita na fala. Assim, em seu curso, Miller fala de sua apresentação de pacientes e de seu aborrecimento porque os pacientes com quem conversa são sistematicamente introduzidos como psicóticos. Cito:

Eu me esforço para frustrar a inscrição do caso na universalidade. Deixo de lado o universal para que possamos focar na singularidade, na invenção original da qual o sujeito em questão é a prova... para poder vê-la devemos apagar, esquecer o conhecimento que derivamos do universal. O que Lacan chama de pai, em última análise, é o que faz uma exceção e ascende à existência, em relação à universalidade... o universal está no nível da função, mas só pode ser encarnado, só pode operar sob a forma de singularidade. Isso significa que convém não sufocar a existência por nossa crença no todo – isso é válido para todos − mas substituir a perspectiva do todo pela do Um. Essa é a indicação que a declaração apaixonada de Lacan Yadl’Un nos dá. Eu a tomo aqui no nível clínico como um convite para sacrificar o totalitarismo do universal à singularidade do um.[11]

A partir desses pontos, podemos redefinir o que precisa acontecer em uma análise: primeiro, um esvaziamento do ser (vidage de l’être, du sujet qui vit de l’être), isto é, a redução das invenções linguageiras de um sujeito, o aspecto “redução” [“shrinking”]. Precisamos, então, do próximo ponto de estofo de Miller, o do corpo falante, como uma orientação para o restante do tratamento. O sujeito tem um corpo: “devemos passar pela diferença entre ser e existência para dar seu valor à diferença entre ser e ter. Ter um corpo está do lado da existência. É um ter que só é marcado a partir do vazio do sujeito”.[12]

Aqui estamos falando do gozo como um acontecimento de corpo e como “a verdadeira causa da realidade psíquica”:

O corpo aparece então como o Outro do significante, na medida em que é marcado, na medida em que o significante produz aí um acontecimento, e então este evento, esse acontecimento de corpo que é o gozo tem o valor de verdadeira causa da realidade psíquica[13] (11 maio 2011).

Espero que vocês possam ver de imediato a correlação entre a objeção de Miller ao uso da categoria de psicose ordinária para qualquer outra coisa além de uma categoria epistêmica e seu argumento quanto à des-ontologização de Lacan da prática analítica.

Consequência: “Uma declaração de equivalência clínica fundamental entre os falasseres”[14]

Jacques-Alain Miller traça as consequências lógicas do aggiornamento da teoria psicanalítica, iniciado pela invenção do significante psicose ordinária como uma invenção linguageira para o nosso tempo, em sua apresentação do tema do Congresso do Rio, em abril de 2016. Em primeiro lugar, o corpo falante se tornou o objeto da psicanálise do nosso tempo, substituindo o inconsciente freudiano na medida em que o inconsciente freudiano pode ser dito do registro do ser. Em segundo lugar, a prática da psicanálise em si deve ser “des-sublimada”: deve se tornar “uma prática sem verdade, uma prática sem a ficção da verdade, sem a ficção dos universais, é uma prática des-sublimada”.[15] Finalmente, em sua apresentação de 2014, Miller profere sua “declaração de igualdade clínica fundamental entre os falasseres”,[16] afirmando que todos nós somos afetados pela debilidade (imaginário), pelo delírio (simbólico) e pela tapeação (real). No mundo des-sublimado de nossa prática contemporânea, a nossa bússola é o sinthoma, que vai levar ao que Miller chama de “conclusão existencial” para uma análise: “há um gozo que não se deixa ser negativado [pelo ser]. Há um gozo que não está no registro ontológico, o qual é um registro de ficção”.[17] Nessa perspectiva, a orientação da nossa prática analítica é circunscrever [serrer] o real do sintoma, independentemente da nossa hipótese sobre a estrutura como correlata às invenções linguageiras que usamos.

Tradução: Louise Lhullier [Derivas analíticas agradece a Louise Lhullier, nossa colega da EBP-SC, por sua preciosa colaboração com este número da revista. Esse texto de Véronique Voruz foi publicado originalmente em inglês e faz parte dos textos preparatórios do Congresso da NLS Signos discretos nas psicoses ordinárias, realizado em Dublin em 2 e 3 de julho de 2016).

Véronique Voruz é psicanalista em Leicester /Londres. É A.E da ECF e da NLS (AMP).

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Notas

[1] Ponto de estofo ou ponto de basta são as duas traduções adotadas em português para o termo de Lacan “point de capiton”, que a autora traduziu para o inglês como quilting point. Por analogia, um quilting concept se traduz como “conceito de estofo” ou “conceito de basta”. (N.T.).

[2] Ver, por exemplo, MILLER, J.-A. The Turin Theory of the School.

[3] Para um panorama contextual da psicose ordinária, ver LAURENT. Ordinary Psychosis. Psychoanalytical Notebooks 26, p. 11-22 ou LAURENT, É. La psicosis ordinaria (2006). ¿Cómo se enseña la clínica? Buenos Aires: Instituto Clínico de Buenos Aires, 2007.

[4] New Lacanian School, uma das escolas que compõem a rede da Associação Mundial de Psicanálise. (N.T.).

[5] MILLER J.-A. Efeito do retorno à psicose ordinária. Opção Lacaniana online nova série, São Paulo, ano 1, n. 3, p. 1-28, nov. 2010. ISSN 2177-2673.

[6] MILLER J.-A. Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n. 41, p. 7-67, dez. 2004.

[7] MILLER J.-A. L’orientation lacanienne. L’être et l’Un. Leçon du 16 mars 2011: “L’Autre n’existe pas veut dire exactement que c’est le Un qui existe... L’Un du signifiant… L’Autre n’existe pas, ça ne veut pas dire que l’Autre n’est pas. L’Autre, le grand Autre, est... on ne comprend rien à ce concept merveilleux que Lacan a forgé du grand Autre si on ne saisit pas que ce grand Autre s ‘inscrit au niveau de l’être, à distinguer du niveau de l’existence. Impossible de se retrouver là-dedans sans distinguer l’être de l’existence”.

[8] MILLER, J.-A. Extimidad. Curso (1985-1986). Buenos Aires: Paidós, 2010. Lições de 29 jan. e 5 fev. 1986.

[9] LAURENT, É. Psychosis or Radical Belief in the Symptom. Hurly-Burly 8, p. 243-251.

[10] MILLER J.-A. L’Être et l’Un. “Ce réel... c’est du signifiant. Rien à voir avec la présence qui palpite. Et c’est grâce à ce signifiant que vous avez ce que vous voulez d’êtres, il faut que le signifiant se monte en discours pour que des êtres fassent leur apparition à la surface du réel, quitte à éclater comme des bulles de savon. Du signifiant en tant que réel... il n’y en a qu’un... Le signifiant en tant qu’il existe comme réel préside et conditionne toutes les équivoques, tous les semblants de l’être dans le discours.”

[11] “Je m’efforce de déjouer l’inscription du cas dans l’universalité. Je fais néant de l’universel pour qu’on se focalise sur la singularité voire sur l’invention originale dont fait preuve le sujet en question... pour l’apercevoir, il faut effacer le savoir que nous prenons de ’universel. Ce que Lacan, au dernier terme, appelle le père, c’est ce qui fait exception et existence par rapport à l’universalité... l’universel est au niveau de la fonction, mais elle ne s’incarne, elle n’opère que dans la forme de la singularité. Cela veut dire qu’il convient de ne pas noyer l’existence par notre croyance au tout – “cela vaut pour tous” – mais au tout, au point de vue du tout substituer celui de l’Un. C’est l’indication que nous donne la jaculation de Lacan: Yadl’Un. Je la prend ici au niveau clinique comme une invitation à sacrifier le totalitarisme de l’universel à la singularité de l’Un.” (4 avril 2011).

[12] MILLER J.-A. L’Être et l’Un. “[...] il faut en passer par la différence de l’être et de l’existence pour donner sa valeur à la différence de l’être et de l’avoir. L’avoir un corps est du côté de l’existence. C’est un avoir qui ne se marque qu’à partir du vide du sujet.”

[13] MILLER J.-A. L’Être et l’Un. “Le corps apparaît alors comme l’Autre du signifiant, en tant que marqué, en tant que le signifiant y fait événement et alors il vaut, cet événement, cet événement de corps qu’est la jouissance apparait comme la véritable cause de la réalité psychique.”(11 mai 2011).

[14] MILLER J.-A. The unconscious and the speaking body. Hurly-Burly 12, 131. Cf.: <http://www.wapol.org/pt/Template.asp>.

[15] MILLER J.-A. L’Être et l’Un. “Une pratique sans vérité, c’est une pratique sans la fiction de la vérité, sans la fiction des universaux, c’est une pratique désublimée.” (25 mai 2011).

[16] MILLER J.-A. The unconscious and the speaking body. Hurly-Burly 12, 131. Cf.: <http://www.wapol.org/pt/Template.asp>.

[17] MILLER, J.-A. L’être et l’Un : “[...] il y a une jouissance qui ne se laisse pas négativer [par l’être]. Il y a une jouissance qui n’est pas dans le registre ontologique qui est un registre de fiction”. (25 mai 2011).

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