Meu poema perfura a história

Sobre a obra de Márcio Sampaio

 

Ruth Silviano Brandão

 

Escrever sobre o que me intriga, sobre o que muito já tenha sido analisado e comentado por outros escritores ou pintores: a relação escrita e pintura, não só como ilustração ou referência dentro do texto literário ou em letras e escritas que se colam à tela. Uma relação que pode ser de atrito, excesso ou falta e que não é estranha aos que escrevem, pintam ou desenham. O que me importa é esse ponto de passagem ou travessia.

Cada pintor/escritor/pintor tem uma relação singular, própria, com as duas linguagens. Relação de esgotamento da escrita, às vezes, ou de um excesso que transborda das páginas que se fazem cores e linhas, atenuando a linha produzida entre territórios, na criação de espaços que dialogam entre si ou criam rupturas. Artaud as fazia quando as palavras não bastavam e a folha de papel era alvo de suas pulsões destrutivas e de uma vida que ali pulsava.

Escolho falar do artista mineiro Márcio Sampaio, pela relação estreita que estabelece entre poema, desenho e cores, além da leitura de si próprio, poeta, diante da história. Sobretudo a história de Minas, aquela antiga dos inconfidentes e seus artistas, que acabam convivendo com Vermeer, Velázquez, Manet, Picasso, Mondrian, Magritte, na obra de Sampaio. Com seu retrato nas telas, interferindo ludicamente em suas leituras, o poeta escritor não esconde sua presença − presença crítica ou contemplativa − diante daquilo que exibe, ao mesmo tempo perfurando os fatos, rasurando-os, suturando-os, saturando-os. Veja-se a Figura 1.

 


Figura 1- O grito (autorretrato)
Cinquentenário do Manifesto Antropófago

Pintura: acrílica sobre tela, 1978

 

Sua marca, sobretudo nos anos 1970, é a leitura, através das artes plásticas, do eurocentrismo que os escritores, os filósofos, os historiadores gastaram rios de palavras para desconstruir. O impacto das cores em suas telas revela uma força, talvez maior do que a escrita discursiva universitária, que às vezes se caracteriza por ser excessiva.

O impacto da imagem é sempre forte e é marca da pintura de muitos artistas que refletem sobre a cultura brasileira − seja como ilustração, seja como crítica social − como se vê em Siron Franco, para dar só um exemplo. A obra de Sampaio realiza na dimensão da imagem uma narrativa da história e da cultura, através da ironia, do humor, do lúdico, reavaliando-as, revalorizando-as, apontando, assim, para novos paradigmas.

Não é uma questão de afirmar que a imagem vale por mil palavras, mas, sem desmentir o aforismo, o que importa é sobretudo observar o uso que o pintor faz dessa força. As citações picturais presentes em seus quadros se distribuem parataticamente: lado a lado, sem os elos sintáticos que tendem a tornar rígido o texto escrito. A pintura de Márcio faz escrita, no sentido amplo e no sentido psicanalítico do termo − ao pé da letra. A letra é suporte do escrito, sua condição, onde a linguagem se amarra. Não é ainda representativa nem metafórica. Lembremos de O bloco mágico, de Freud,[1] e da afirmação de Derrida sobre ela: “litografia anterior às palavras: metafonética, não linguística, a-lógica”.[2]

Acredito, por isso, que seu trabalho seja uma novidade (ainda hoje), por ter criado uma virada na maneira de propor uma nova representação para o olhar do espectador e intelectual brasileiro desde os anos 1970. Escrita-imagem-escrita.

E, assim, suas galinhas mineiras, branquinhas, convivem com os pintores daqui e de lá. E, assim, se reescreve a Santa Ceia dos Inconfidentes (d’après Aleijadinho e Pedro Américo) e se produz todo um processo crítico de descentramento e desconstrução em relação ao eurocentrismo. É clara a presença de Oswald no trabalho de Sampaio, o que ele mesmo confessa:

Acontece que, na impossibilidade de me apropriar diretamente de uma obra, eu passei a tomar posse dela em ideia, em imagem, falsificando-a em miniatura com um máximo de fidelidade. Nesse instante, me encontrei com a proposta antropofágica de Oswald − é nosso o que transformamos em nossa carne − e comecei a pintar a série das galinhas antropofágicas, em fins de 1971.[3]

 

Figura 2 - A ceia dos Inconfidentes (d’après Aleijadinho e Pedro Américo)
Pintura: acrílica sobre tela, 1989

 

A Ceia dos inconfidentes, que se vê acima, ressignifica o olhar do espectador dos anos 1970, nas exposições do pintor/poeta, intituladas Galeria antropofágica, de 1972, e Projeto para o Labirinto Antropofágico, exibido no MAM do Rio de Janeiro.

A referência à Ceia, de Da Vinci, ganha outra dimensão, com a presença de galinhas na mesa, vivas, rodeando a bandeira de Minas, Libertas quae sera tamem, tendo ao lado um portentoso cacho de bananas lembrando a música de Braguinha Yes, nós temos bananas.

Os anos 1970 marcam uma volta ao Modernismo brasileiro, 50 anos depois e, lógico, com outra mensagem, num novo contexto político. E as galinhas passeiam nesse novo galinheiro pictural, e põem ovos soberbos em sua ovalidade, ressoando um eterno retorno, não das semelhanças, não do mesmo, mas da diferença que impulsiona a roda do tempo.

Num tempo em que se misturam índios brasileiros antropófagos com Mondrian, lá no fundo da tela e Le déjeuner sur l’herbe, de Manet, embaixo, à direita, com novo título: Jeux sur l’herbe II.

 

Figura 3 - Jeux sur l’herbe II
Pintura: Acrílica sobre tela, 1980

 

O gesto antropofágico presente nos múltiplos quadros remonta ao Oswald, também comido numa festa de deglutição, interminável banquete de letras que se rearranjam num jogo de sentidos infindáveis, sempre se desdobrando e redobrando significações:

O déjeuner, a deglutição festiva do banquete antropofágico seria um jogo começado com a apropriação da obra de Monet (sic) na qual os personagens se travestiriam em abaporus, índios e outras figuras emblemáticas da cultura e da arte brasileira.[4]

 

MEU POEMA

                                   Perfura

A HISTÓRIA

 

Assim Márcio Sampaio em seu Manifesto/2000 define sua maneira de escrever nossa história, onde faz furos, não só furos, mas diálogos menipeicos, satíricos, à moda de Luciano de Samósata, à moda de Oswald de Andrade, que fez a releitura de História do Brasil às vezes com o olhar apontado de Paris para o Brasil, pois de longe se vê melhor, como provam os que não são míopes.

Revendo a estética fragmentária de Oswald, Márcio faz outra coisa. Diferente, pois é outro o tempo. E a diferença é que sua obra é de outra época, que se lê às suas margens, onde habita o novo leitor.

Indissociáveis são a letra e a imagem em Márcio Sampaio, com elas fazendo pintura e literatura, relendo a literatura, recriando-a. Não sendo apenas um ilustrador, mas ilustrando, escrita e pintura não se separam. Não há rupturas entre uma outra, talvez passagens, passarelas que lembram o modo benjaminiano de contar a história: história sem progresso, sem hierarquia, sem uma impossível verdade pronta.

O soneto da Figura 4 tem como título Soneto com chave de ouro.

 

Figura 4 - Soneto com chave de ouro
Poema: colagem com objetos achados, 1977

 

Colagem com objetos achados (botões, argolas, fivelas, chaves, gilete, alfinete, clipe, rosca), que, podemos dizer, rimam ou se repetem como as rimas, que são sons que se repetem, marcando ritmos, cadências, danças, jogos, numa quase batida lúdica. O soneto seria um jogo de maré ou o que queremos ver.

Mas é um soneto e segue regras. E, assim, no 1º quarteto, temos rimas tipo ABAB, como no 2º; nos tercetos, CDC. São rimas entrecruzadas. Rimas ricas ou pobres, impossível dizer, pois os objetos são objetos perdidos e achados, recolocados em outro espaço, restos que caem e se recriam. Assim, é o poeta que lhe dá sentido, numa estratégia de ressignificação, de doação de novos sentidos, sem as ligações sintáticas da língua estabelecida, que amarram os velhos sentidos paralisantes.

Por isso, é preciso deixar o próprio poeta falar sobre a aventura de seu olhar:

Materiais da vida: Estas coisas que povoam o mundo emergem de repente da escura viscosidade em que pareciam fadadas a dormir eternamente. Saltam do anonimato para apresentar-se aos nossos olhos, ao nosso sentir como objeto significante, retomando, nessa nova situação, sua força poética: explodem, envolvendo-nos com sua magia, provocando novos gestos; e os gestos inéditos desenham nas coisas uma nova poesia, e ela se multiplica em nós, e nós nos multiplicamos. Os músculos tensos: o domador diante de. E já lançamos o olhar mais além em busca de novas experiências.[5]

O novo sentido que possa emergir dessa experiência de mudar as coisas de lugar. Entretanto, não caberá nunca no senso comum, pois é o não sentido das coisas soltas – que nosso olhar nem sempre vê nas coisas do mundo – as pequenas, residuais, humildes, que me fazem lembrar o poeta Manoel de Barros, amante dos pequenos objetos, mínimas coisas do chão, com que reorganiza o mundo.

A criação de um todo fechado paradoxalmente se abre numa nova invenção, e de novo o gesto de perfurar se realiza no momento em que os objetos avulsos, quase todos, com furos em sua estrutura, modificam a rigidez das formas do soneto tradicional. Dessublimação das formas clássicas, exibindo o que não se vê, o que não se valoriza: os restos de coisas inúteis que se tornam poéticas em seu ineditismo, petits a transformados em outra coisa, ‘petitás’ brasileiros ou o que o leitor queira ler/ver.

E tudo isso com o Certificado de autenticidade:

Certifico que esta autêntica tela com assinatura falsa de A. Volpi foi pintada por mim em 24 e 25 de junho de 1979, capítulo de Falsyficações táticas, da série Galeria antropofágica. Juro e dou fé.

Assinado. Márcio Sampaio.

E para concluir, uma boa refeição!

 

Figura 5 - Em família - registro da ação: pratos, talheres, arroz, 1988

 

Ruth Silviano Brandão é professora emérita da FALE-UFMG. Escritora, poeta e tradutora, ela publicou vários ensaios como Mulher ao pé da letra: a personagem feminina na literatura (Ed. UFMG, 2006). Ela assina a tradução brasileira de O nascimento da poesia: Antonin Artaud, de Jean-Michel Rey (Ed. Autêntica, 2002).
E-mail: <O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.>

__________________________________________________

Referências

DERRIDA, J. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 1971.

FREUD, S. Uma nota sobre o bloco mágico (1925 [1924]). In: ______. O ego e o id e outros trabalhos. Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 282-290. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 19).

MILLER, J.-A. Introdução à leitura do seminário da angústia de Jacques Lacan. Opção Lacaniana - Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo: Eolia, n. 43. p. 1-91, maio 2005.

SAMPAIO, M. Declaração de bens. Belo Horizonte: Edição do autor, 2008.

SAMPAIO, M. Poesia além do verso. Catálogo da exposição. Belo Horizonte / Galeria de Arte do Espaço da Cemig. 30 abr. a 19 maio 2010.

_______________________________________________________________

Notas

[1] FREUD, (1925 [1924]) 1976, p. 282-290.

[2] DERRIDA, 1971, p. 193.

[3] SAMPAIO, 2008, p. 23.

[4] SAMPAIO, 2008, p. 62.

[5] SAMPAIO, 2008, p. 202.

 Imprimir  E-mail