Correspondência entre Freud e Zweig: arqueólogos da linguagem


Fabiana Campos Baptista
 

Apesar de tudo,
não posso me familiarizar com a miséria e
com o desamparo da velhice,
e espero, com uma espécie de impaciência,
passar para o não ser.
Freud, aos 18 de maio de 1936.
 

Se a correspondência trocada entre Sigmund Freud e Stephan Zweig data do período entre 1908 e 1939, não podemos negar que alguns dos conteúdos das cartas são de uma atualidade impressionante, sobretudo os que se referem à Segunda Grande Guerra.[i] Como reflexo dessa correspondência banhada de admiração recíproca, o austríaco Zweig acaba publicando, nos idos dos anos 1940, sua autobiografia − O mundo de ontem − em que trata, em alguns capítulos, sobre os horrores da guerra:

Tivemos de dar razão a Freud quando via em nossa cultura, nossa civilização, apenas uma fina camada que a qualquer momento poderia ser varada pelas forças destrutivas do mundo subterrâneo, tivemos de nos habituar paulatinamente a viver sem o chão debaixo dos nossos pés, sem direito, sem liberdade, sem segurança.[ii]


Extremamente fragilizado pelo domínio mortal de Hitler, Zweig escreve ainda que chegou a conversar com Freud sobre a guerra em diferentes ocasiões. Em uma delas, ele se recorda que, embora Freud estivesse profundamente abalado com o momento destruidor, ele não se dizia surpreso com “essa aterrorizante erupção de bestialidade”.[iii] Freud via, assim, confirmada − da forma mais terrível possível – sua opinião de que a barbárie, instinto elementar de destruição, não poderia ser extirpada da alma humana.

Se ambos são tocados pelo horror da guerra e pela “agonia da paz”, é preciso acrescentar que a estreita relação de amizade estabelecida entre o escritor e o psicanalista não se deixou paralisar pela crescente dominação do que Zweig veio a chamar de “psicose coletiva da guerra”.[iv] Admirador assumido de Freud, Zweig passou a se corresponder com o mestre desde a publicação de sua primeira obra teatral, Tersite, em 1907. Zweig, que tinha 25 anos a menos que Freud, passou a endereçar-lhe, sem cessar, todas as suas obras.[v] Freud as recebia, as corrigia, acrescentava algumas críticas, mas sempre reagia aos textos de Zweig como a um fervoroso admirador, como nesta carta de 03 de maio de 1908: “[...] por ter lido As primeiras grinaldas, sei que o senhor é poeta, e o escoamento majestoso de seus belos versos, que cantam aos meus ouvidos quando abro o livro, me promete uma hora de inefável prazer [...]”.[vi]

Essa relação durará cerca de trinta anos, até a morte de Freud. Na correspondência entre eles, podemos ler – ao menos nas cartas que nos restaram – uma relação delicada, tecida de estima recíproca, mas também de mal-entendidos, sobretudo no final da vida do mestre.

É preciso dizer que Zweig, leitor de Freud, foi o escritor que ofereceu ao grande público a primeira interpretação da psicanálise, em A cura pelo espírito,[vii] embora o livro contenha, de acordo com o próprio Freud em carta endereçada ao escritor, um erro de interpretação.[viii] De fato, Zweig se dava conta de que alguns de seus romances não poderiam ter sido escritos sem a leitura de textos psicanalíticos e escreve, na carta do dia 8 de setembro de 1926:

Deixe-me expressar claramente, ao menos uma vez, o que lhe devo, o que muitos lhe devem – a coragem na psicologia. O senhor removeu as inibições de incontáveis personalidades, assim como as da literatura de toda uma época. Graças ao senhor, vemos muitas coisas. – Graças ao senhor, dizemos muitas coisas que, caso contrário, não teriam sido vistas nem ditas. Tudo isso não é ainda muito claro hoje, porque nossa poesia não é ainda julgada do ponto de vista histórico, nem em suas relações de causalidade.[ix]

Em uma carta datada de 19 de outubro de 1920, Freud comenta o ensaio Três mestres − Balzac, Dickens, Dostoievski,[x] que acabava de lhe ser enviado por Zweig. Freud
 sublinha que, embora a análise de Zweig sobre Balzac e Dickens tenha sido interessante, ainda que simples de ser feita, Freud nota que o escritor deixou de resolver enigmas importantes na análise que faz de Dostoievski. O mestre se propõe a acrescentar alguns comentários oriundos da psicopatologia, relacionando o ímpeto criativo do escritor russo com sua histeria e destacando que seus sofrimentos na idade adulta têm relação com uma punição feita por seu pai na infância. Primeiramente, Freud mostra que, ao contrário do que escreveu Zweig nesse ensaio, ele não deveria ter dito que o autor russo era epilético. Freud explica que a epilepsia é uma “[...] afecção orgânica do cérebro, exterior à constituição psíquica e geralmente ligada a uma diminuição e a uma simplificação das capacidades psíquicas”,[xi] o que não é caso de Dostoievski. Freud o corrige, dizendo que todas as grandes figuras que foram consideradas epiléticas eram, na verdade, histéricas. E acrescenta:

A histeria tem sua origem na própria constituição psíquica, ela é a expressão da mesma força original arcaica que se desenvolve na atividade do artista genial. Mas ela é também sintoma de um conflito particularmente poderoso e não resolvido, que provoca estragos entre as disposições originais e que, em seguida, separa a vida psíquica em duas partes. Acredito que todo o Dostoievski poderia ter sido construído com base em sua histeria.[xii]

Mais adiante, Freud acrescenta que havia lido uma biografia do autor russo e que havia uma passagem que estabelecia relações entre os sofrimentos ulteriores de sua vida adulta e uma punição infligida ao menino pelo pai em circunstâncias muito graves. É essa cena infantil, dirá Freud, que, mais tarde, dará origem ao fato de que Dostoievski passará toda a sua vida em uma atitude ambivalente em relação ao pai − a figura da autoridade.

Críticas à parte, Freud não se cansa de elogiar Zweig em sua capacidade de trabalhar com a linguagem como a um arqueólogo e diz nesta carta de 14 de abril de 1925:

[...] será preciso que eu lhe diga, um dia, o quanto o senhor consegue obter, com a língua, alguma coisa que, de acordo com meus conhecimentos, nenhuma outra pessoa realiza. O senhor sabe aproximar de tão perto a expressão do objeto, que seus mais finos detalhes se tornam perceptíveis, e acreditamos apreender relações e qualidades que, até o presente momento, não haviam absolutamente jamais sido expressas pela linguagem. Já fazia bastante tempo que eu quebrava minha cabeça para encontrar algo equivalente à sua forma de trabalhar; finalmente, algo me veio ontem, evocado pela visita de um amigo epigrafista e arqueólogo. Trata-se de um procedimento comparável ao de se fazer um decalque de uma inscrição sobre uma folha de papel [vegetal]. É bem conhecido: aplica-se uma folha de papel úmido sobre a pedra e força-se esta matéria maleável a tomar forma nos menores vazios da superfície inscrita. Eu não sei se essa comparação lhe satisfará.[xiii]

Mais tarde, por ocasião do octogésimo aniversário de Freud, Zweig retoma a importância da teoria do mestre para as futuras gerações e escreve, ao final de uma carta datada de 04 de maio de 1936:

Caro e estimado Professor, que devo eu desejar-lhe no dia de hoje? Antes de tudo, uma boa saúde, assim que a consciência de ter criado alguma coisa de durável e imperecível em um mundo que está oscilando e se desmoronando, como também de ter socorrido milhões de seres humanos. Não conheço ninguém que, hoje, teria razões sólidas para dizer isso de si mesmo, nem ninguém a quem nós devêssemos tanto.[xiv]

Avesso aos aniversários, Freud responde a carta em 18 de maio de 1936 com entusiasmo, dizendo ter-se esquecido que a carta foi escrita por um mestre do estilo:

Antes de responder, eu reli sua carta – [...] Ela me soa tão simplesmente verdadeira. Ela teria quase me convencido de minha importância. Não porque eu duvide da verdade de meu ensino, mas é difícil para mim acreditar que ele poderia exercer uma influência demonstrável sobre a evolução do futuro próximo. Sinto-me também menos importante do que o senhor julga; e prefiro continuar com aquilo que reconheço como muito mais certo, com os sentimentos tão amáveis que o senhor exprimiu em todos esses esforços [feitos] para o meu aniversário.[xv]

Com o andar dos anos, Freud começa a escrever sobre a debilidade física que o acomete e sobre a tristeza em relação aos tempos de guerra. Em 17 de novembro de 1937, ele diz:

[...] sofro da nossa época como o senhor e, como o senhor, encontro meu único consolo no sentimento de pertencer ao mesmo círculo que um pequeno número de outras pessoas, na certeza de que as mesmas coisas continuam sendo para nós bastantes caras e que os mesmos valores nos parecem incontestáveis.[xvi]

Na mesma carta, Freud duvida da duração da psicanálise em gerações posteriores e escreve:

Ninguém pode dizer como as gerações futuras a avaliarão. Eu mesmo não estou seguro, em todo caso, a dúvida é inseparável da pesquisa, e nós, certamente, encontramos apenas uma pequena parcela da verdade. O futuro próximo parece bem sombrio, mesmo para a minha psicanálise. Em todo caso, durante as semanas ou meses que me restam para viver, eu não sentirei mais nenhuma alegria. [...] Espero que o senhor não me faça esperar muito tempo para ler seus próximos livros, cheios de coragem e de beleza. Com meus cordiais cumprimentos, seu velho Freud.[xvii]

Já ao final da correspondência publicada neste volume, Zweig envia cerca de quatro cartas a Freud solicitando uma visita na companhia de um então jovem pintor de origem catalã, Salvador Dalí, que é, segundo ele, o único gênio da pintura.[xviii] Freud parece aceitar a visita e envia, em 20 de julho de 1938, já bastante debilitado pela doença, sua última carta a Zweig agradecendo o encontro:

Sinceramente, é preciso que eu agradeça ao senhor por ter trazido em minha casa os visitantes de ontem. Pois eu estava, até então, inclinado a considerar os surrealistas, que parecem ter me escolhido para santo padroeiro, como loucos absolutos (digamos a 95%, como o álcool). O jovem espanhol, com seus olhos cândidos e fanáticos e seu inegável domínio técnico, me permitiu outra apreciação. Com efeito, seria muito interessante examinar, de um ponto de vista analítico, a criação de um quadro como esse. Pode-se sempre criticar e dizer que a noção de arte se recusa a toda ampliação, quando a relação quantitativa do material ics[xix] e do trabalho do precs[xx] não respeitam um limite determinado. Mas, em todo caso, problemas psico[xxi] sérios.[xxii]

Em nota, o tradutor da Correspondance traz uma declaração de Zweig, publicada posteriormente em seu livro O mundo de ontem, em que diz que, nesse encontro, Dalí havia feito dois croquis da cabeça de Freud, mas que Zweig não quis mostrá-los ao mestre, pois achava que Dalí, tal como um adivinho, havia representado, nesses desenhos, a morte em Freud.

 

      

Fabiana Campos Baptista é doutora em psicopatologia e psicanálise (Universidade Paris Diderot Sorbonne Cité), mestre em psicanálise (Universidade Paris 8), mestre em psicologia (UFMG), professora adjunta do Departamento de Psicologia do UNI-BH.

Derivas analíticas agradece a Fabiana Campos Baptista por sua contribuição com este número da revista.

Notas

[i] As cartas aqui comentadas foram extraídas da versão de bolso do livro Correspondance – Sigmund Freud, Stefan Zweig, traduzido do alemão por Didier Plassard e Gisella Hauer e publicado pela Rivages Poche em 1995.

[ii] Zweig, (1958) 2013, p. 28.

[iii] Freud apud Jaccard, 1995, p. 10.

[iv] Zweig, (1958) 2013, p. 35.

[v] Ao que consta nas cartas dessa Correspondência, Freud recebeu os seguintes títulos de Zweig: Tersite, As primeiras grinaldas, A cura pelo espírito, Três mestres - Balzac, Dickens, Dostoievski, Magellan, O combate com o demônio, Jérémie, A cadeia, Caleidoscópio e Maria Antonieta – retrato de uma mulher comum. Para este último exemplar, que está na biblioteca de Freud em Londres, Zweig fez a seguinte dedicatória: “Ao Professor Sigmund Freud, que nos ensinou a compreender o humano, com os agradecimentos e a fidelidade de Stefan Zweig, 1932” (Correspondance, p. 94).

[vi] Correspondance, 1995, p. 21.

[vii] Zweig foi igualmente escolhido – ao lado de Ernest Jones – para fazer a leitura da elegia final diante das cinzas de Freud.

[viii] Ao que parece, Zweig teria dito, nesse livro, que a paciente Ana O. confessou, sob hipnose, ter sentido, na cabeceira de seu pai doente, alguns sentimentos ilícitos e que os recalcou.

[ix] Correspondance, 1995, p. 52.

[x] No Brasil, esse livro faz parte de uma coletânea: Obras completas de Stefan Zweig, 20 volumes 1938-1949. Rio de Janeiro: Guanabara, 1951; Delta, 1953 e 1956. 10 volumes, 1961 e 1963.

[xi] Correspondance, 1995, p. 25.

[xii] Correspondance, 1995, p. 25.

[xiii] Correspondance, 1995, p. 24.

[xiv] Correspondance, 1995, p. 106.

[xv] Correspondance, 1995, p. 107.

[xvi] Correspondance, 1995, p. 114.

[xvii] Correspondance, 1995, p. 114.

[xviii] Zweig propõe a visita de Dalí nas cartas de 10 de julho de 1938, 15 de julho de 1938, 18 de julho de 1938 e 19 de julho de 1938. A resposta de Freud que consta na Correspondance é já após a visita de ambos, em 20 de julho de 1938.

[xix] Abreviado no original.

[xx] Abreviado no original.

[xxi] Abreviado no original.

[xxii] Correspondance, 1995, p. 128.

Referências

Correspondance Sigmund Freud Stefan Zweig. Traduzido do alemão por Didier Plassard e Gisella Hauer. Paris: Rivages Poche, 1995.

JACCARD, R. Prefácio. In: Correspondance Sigmund Freud Stefan Zweig. Traduzido do alemão por Didier Plassard e Gisella Hauer. Paris: Rivages Poche, 1995.

ZWEIG, S. O mundo de ontem: recordações de um europeu (1958). Lisboa: Assírio e Alvim, 2013.

 

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