Freud: uma tradução para o século XXI

Entrevista com Gilson Iannini e Pedro Heliodoro Tavares sobre a coleção Obras incompletas de S. Freud

 

SELO DERIVAS (1)Desde que caiu no domínio público, várias edições com novas traduções da obra de Freud têm surgido no mercado. Em que se distingue a edição que vocês coordenam? Em outras palavras: quais são as singularidades das traduções da editora Autêntica no trato com a obra de Freud, considerada, sem dúvida, um clássico da literatura mundial?

Gilson IanniniHá algumas décadas, o único acesso que tínhamos em português à obra de Freud era através da Edição Standard, da Imago. Havia também uma antiga tradução da Editora Delta, mas que, por alguma razão, não circulava muito. Talvez seja importante traçar um panorama da questão, antes de responder à sua pergunta. A recepção brasileira de Freud se ressentia há muito tempo por não dispor de uma tradução direta do alemão. A Edição Standard, de James Strachey, tinha méritos inegáveis. Contava com um alentado aparato crítico, com remissões precisas no interior da obra e notas sobre a redação dos manuscritos em geral bastante precisas. A tal ponto que uma versão corrigida desse aparato chegou a ser incorporada à Edição de Estudos Alemã, a Studienausgabe. Mas, como todos sabem, a tradução incorria em erros graves, não apenas quanto à terminologia, mas também quanto à ambiência, ao registro da língua e à construção frasal. Freud se tornava, em inglês, um cientista da “mente” humana. O leitor brasileiro de Freud não conhecia seu talento literário, a não ser por ouvir dizer, não podia perceber o esmero formal da escrita freudiana. Na década de 1980, principalmente na Folha de São Paulo, surgiram textos criticando a tradução brasileira de Freud. Marilene Carone e Paulo César de Souza escreveram textos duros e colocaram a questão da tradução de Freud na cena pública. Carone, por exemplo, disse que a tradução brasileira era “selvagem”. Todo psicanalista brasileiro, mesmo aquele que não sabe alemão, sabia discutir, com maior ou menor acerto, a tradução de alguns conceitos fundamentais como Trieb ou Verdrängung.

A psicanálise brasileira se acostumou a um estranho exercício de leitura substitutiva. Aprendemos a ler “instinto” e substituir mentalmente por “pulsão”, “repressão” por “recalque”, “ego” por “eu”, “catexia” por “investimento ou carga”, etc. Esse estranho procedimento de leitura acabou deixando o debate acerca da tradução polarizado em questões meramente terminológicas, deixando em segundo plano diversos outros aspectos envolvidos na tarefa da tradução. Na década de 1990, o debate sobre usos freudianos da língua alemã e os desafios de sua tradução ganharam tratamento teórico sofisticadíssimo com a publicação, um pouco mais tarde, do Dicionário comentado do alemão de Freud, de Luiz Alberto Hanns (Imago, 1996) e deAs palavras de Freud, de Paulo César de Souza (Ática, 1999). Parecia que o sonho de um Freud mais fidedigno estaria perto de se concretizar a partir de 2010, quando sua obra entraria em domínio público. A editora Imago, detentora dos direitos até então, saiu na frente e encomendou a Hanns, antes que a obra entrasse em domínio público, uma nova tradução. O projeto de Hanns, contudo, foi prematuramente interrompido, e foram lançados apenas três volumes.

Outro projeto que surgiu então foi a edição das obras completas pela editora Companhia das Letras com tradução de Paulo César de Souza. Mas a chegada da tradução de Paulo César, mesmo com grandes qualidades, foi em muitos aspectos um balde de água fria. Num certo sentido, ela é primorosa, justamente porque conseguiu restituir a prosa literária freudiana no mais alto grau. Mas, por outro lado, ela incorre em escolhas terminológicas duvidosas. A comunidade psicanalítica recebeu a tradução de Souza como uma espécie de desconsideração de décadas de discussão conceitual muito sofisticada e amadurecida. Para pegar o exemplo mais eloquente: no século XXI traduzir “Trieb” por “instinto” foi um soco no estômago para muita gente. A referida tradução manteve termos como “repressão”, onde deveria usar recalque ou recalcamento, “id” onde deveria usar “isso”, e assim por diante. Mas talvez o mais grave não sejam nem esses casos. Para Souza, o texto de Freud é um texto literário, e não um texto que embasa uma prática clínica. Tudo indica que ele mantém uma relação ambígua com a psicanálise enquanto prática. Isso implica que alguns termos não são tratados como conceitos. Nem sempre há uniformidade dos conceitos, justamente porque para ele são palavras e não conceitos que embasam uma prática. O mesmo problema ocorreu com a tradução que ele havia feito de Nietzsche. Também é primorosa literariamente. Talvez incomparável. Mas os especialistas se ressentem da terminologia, da uniformidade conceitual. Nem sempre, claro, é possível manter o mesmo termo nas duas línguas. Mas quando se trata de um conceito fundamental, é preciso informar o leitor. Por exemplo: “Angst”, conforme o contexto, pode ser traduzido por angústia, ansiedade ou medo. O contexto acaba determinando um pouco isso. Mas são nuances importantes, não apenas do ponto de vista da língua, mas conceitualmente falando. Como o tradutor deve proceder? Como o editor deve agir? Para ficar mais claro: o pequeno Hans tinha medo ou sentia angústia diante do cavalo?

Foi nesse contexto, diante de todos esses desafios, que percebi um vácuo. Não havia uma edição brasileira de Freud que realizasse o anseio da comunidade analítica. A gente continuava sonhando com um Freud que pudéssemos ler, sem ficar fazendo exercícios de substituição. Quando apresentei minha leitura do cenário a Rejane Dias, a editora Autêntica resolveu bancar o projeto. Fiz uma ampla pesquisa e acabei percebendo que o Brasil não dispunha de uma tradução à altura de nossa prática, assim como não tínhamos uma edição temática. As edições cronológicas são importantes. Mas me lembro bem dos cursos de psicanálise: para estudar as estruturas clínicas, fazíamos uma coletânea com fotocópias de diversos volumes e de diversas épocas. Para todo tema, ocorria isso. Num belo dia, pensei em uma edição temática. Um volume com todos os textos sobre “Neurose, psicose, perversão” ou “Fundamentos da clínica” reunidos. Então montamos um projeto que a Autêntica abraçou. Começou então a busca por um tradutor que pudesse coordenar a tradução.

Num certo sentido, esse projeto nasce da minha ignorância. Eu não sei alemão, não o suficiente. Mas nasce também do desejo que vem do querer saber. Eu queria ler Freud, e nenhuma tradução existente me satisfazia. Sabia que era preciso montar uma equipe de tradutores. Queria, com isso, driblar o narcisismo do tradutor. É meio inevitável que o tradutor acabe se tornando um pouco autor, mas era preciso desfazer essa relação imaginária com o texto. Queria uma equipe multidisciplinar e suprainstitucional. Mas queria que houvesse uma pessoa responsável pela coordenação da tradução, pela revisão técnica de todos os volumes e pelo estabelecimento da terminologia. Pesquisei muitas pessoas. Quando finalmente me deparei com o livro Versões de Freud, de Pedro Heliodoro Tavares. Era um estudo de pós-doutorado sobre as diferentes traduções brasileiras e estrangeiras de Freud, que ele havia feito no famoso Programa de Estudos da Tradução (PGET) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Entrei em contato com Pedro, e a afinidade foi imediata. Pedro é psicanalista, com clínica em Florianópolis, e é professor da área de alemão da USP. Vive entre São Paulo e Florianópolis. Era o perfil exato que procurava: alguém envolvido com a clínica, com o texto de Freud e com a língua alemã.

Pedro Heliodoro TavaresPois é, justamente nesse pós-doutorado, que acabou gerando o Versões de Freud, fui percebendo como tal autor particulariza e evidencia de um modo muito privilegiado o quanto toda e qualquer tradução é fruto de um viés de compreensão. Como Gilson coloca, traduções anteriores e mesmo atuais de Freud, como as elaboradas por Renato Zwick para a L&PM mostram grandes qualidades. Contudo, ao destacar algum aspecto da obra, precisam colocar outro em segundo plano. É algo inevitável. O grande e central desafio, em se tratando de Freud, é aliar o apurado valor estético de sua obra com a precisão conceitual. Ainda que entendamos que esses dois aspectos em Freud sejam mais confluentes que antagonistas, havendo necessidade de opção, em nosso viés de tradução, procuramos primar pela ênfase no referencial conceitual.

Na área acadêmica de Estudos da Tradução uma das preocupações mais centrais desde Friedrich Schleiermacher é também verificar se o tradutor procura se aproximar mais do autor, sendo o mais próximo possível de seus recursos estilísticos, muitas vezes inerentes à língua e à cultura do texto de partida (do original), ou se busca ambientar tal autor à cultura e à língua de chegada, tornando a obra um pouco mais distante de aspectos sintáticos e morfológicos da língua do autor, de modo a tornar o texto mais “palatável” e compreensível ao leitor em sua cultura. Quer dizer, traduções podem deliberadamente ou não ser “pró-fonte”, mais próximas do autor e preocupadas com a preservação do original, ou “pró-alvo”, mais próximas ou preocupadas com o leitor, com certa ambientação. Nesse sentido, procuramos ao máximo explorar a “sabedoria” e os recursos da língua portuguesa falada no Brasil, mas, novamente, em nome de um compromisso com a precisão, nossa ênfase tende a privilegiar os aspectos do texto-fonte alemão.

SELO DERIVAS (1)Por que “obras incompletas”?

Gilson IanniniSomos por demais acostumados a organizar a obra de Freud entre textos metapsicológicos, escritos técnicos, textos sociológicos, casos clínicos, etc. Mas
 podemos ler Totem e Tabucomo uma teoria do pai. Podemos ler os textos sobre arte como formalização de material que interessa à clínica. Podemos ler um escrito técnico como uma apresentação de conceitos fundamentais. Ao mesmo tempo: que critérios foram usados nas edições completas para excluir textos como Sobre a concepção das afasias? Como justificar isso? Por isso publicamos logo de saída nossa tradução desse importante estudo. Há algo de muito pretensioso no adjetivo completo, pois não quer dizer apenas todos os textos, mas também acaba querendo controlar a recepção, o ‘texto-todo’. E não é assim. As cartas de amor de Freud para sua noiva fazem parte ou não das obras completas? E o que dizer de “obras psicológicas completas”? O “psicológicas” parece meio saído da cartola. Nem todo texto importante de Freud cabe nessa rubrica. OProjeto para uma psicologia é escrito em vocabulário neurológico, mas apresenta a lógica da psicanálise de uma maneira às vezes mais clara do que outros textos. O mesmo vale para os textos sobre as afasias. Além disso, a incompletude é uma aposta fundamental. Não apenas porque envolve o leitor, mas também porque a “incompletude”, embora não seja um tema explícito em Freud, pode ser lido como uma marca da clínica psicanalítica. Freud falava do umbigo dos sonhos, dos “fueros”, de “das Ding”, etc. Marcas da incompletude da determinação inconsciente, sem a qual nem mesmo o tratamento analítico tem sentido.

Pedro Heliodoro TavaresQuanto aos aspectos especificamente tradutológicos envolvidos no adjetivo “incompletas”, acho essencial confrontar o leitor com a inevitabilidade do fragmentário. Vilém Flusser, um grande teórico tcheco-brasileiro que pensava em alemão, mas escrevia em diversas línguas, sempre fez da autotradução um exercício de questionamento das próprias ideias. Ele argumenta que mesmo numa formulação teórica, como poderíamos pensar a então nascente psicanálise freudiana, a passagem da elaboração do pensamento para uma formulação escrita já é uma “tradução imperfeita”, algo transformado com certas perdas. De certo modo, quando Freud assume, em seu último texto teórico, o Compêndio de psicanálise, que suas ideias sobre as pulsões formam um “ensino”, uma “doutrina” (Lehre), mas não propriamente uma “teoria” (Theorie), vocábulo que reservava para algo mais sólido e acabado, vemos aí uma evidência de que o adjetivo “completas” ser-lhe-ia algo muito incongruente.

SELO DERIVAS (1)Considerando o seu argumento, me pergunto se não é a própria concepção de tradução que estaria em cheque no sintagma “obras incompletas”… Em outras palavras, conceber uma obra como “incompleta” é reconhecer que tal obra se presta a leituras diversas em momentos distintos. Nesse sentido – e contrariamente a uma hermenêutica que visaria esclarecer e mostrar a coerência do texto, encerrando a obra em si mesma –, me parece que, ao conceber uma coleção que se quer incompleta, você admite as várias leituras possíveis de um mesmo texto. Mais do que isso: me parece que você insere essas “obras incompletas” numa lógica que diríamos “lacaniana”: nem tudo pode ser dito assim como nem tudo pode ser lido ou escrito. O limite da interpretação coincide com certo real do intraduzível. Poderíamos dizer: “Freud ou a obra aberta”?

Pedro Heliodoro TavaresDe fato, o intraduzível é algo fundamental na clínica psicanalítica, e não poderíamos pensar de modo diferente os textos que embasam tal prática. Os “momentos distintos” são também diferenciados em cada língua e cada cultura. Peguemos dois exemplos. No inglês, Freud aparece inicialmente com Jones e Strachay, sob a égide do Standard, do que é rigidamente padronizado, deixando como incompletos os aspectos geniais do Freud escritor e esteta. Na nova tradução coordenada por Adam Phillips, a visada tende ao literário e à diversidade de leituras entre os tradutores. Na França o movimento foi inverso. De uma fragmentação absurda das primeiras décadas, somos levados finalmente nas décadas de 1980 e 1990 do século XX à padronização, por vezes extrema, da edição da PUF. No Brasil atual o aspecto mais gritante da “incompletude” diz respeito justamente a uma leitura psicanalítica, clínica, do texto de Freud feita, enfim, diretamente do alemão. Tivemos a importante colaboração de Marilene Carone e de Luiz Alberto Hanns nesse sentido, mas infelizmente tais projetos foram interrompidos.

SELO DERIVAS (1)Como vocês conceberam o plano da obra? Em que medida ele é influenciado por Lacan?

Gilson Iannini Não há por que ocultar o fato de que eu e Pedro Heliodoro trabalhamos com uma leitura lacaniana de Freud, tanto em nossa prática, como na nossa formação. Minha tese de doutorado foi sobre Lacan; a dele em vários aspectos também. Mas ao mesmo tempo, não há sentido em falar de uma tradução lacaniana de Freud ou mesmo uma edição lacaniana. Isso não existe. É claro que, ao escolhermos um título como Neurose, psicose, perversão fica clara uma certa orientação. Mas ela também é incompleta. Lendo Freud com atenção, as fronteiras entre as estruturas clínicas são um pouco mais borradas do que gostaríamos de acreditar. Do mesmo modo, a tradução de um mecanismo fundamental como a Verwerfungpor “forclusão” parece difícil de justificar filologicamente. Mas a principal influência de Lacan nessa coleção é a necessidade do retorno a Freud. Na verdade, percebemos que o Brasil ainda não fez o retorno a Freud, por conta das traduções disponíveis.

SELO DERIVAS (1)Os primeiros volumes das Obras incompletas de Sigmund Freud contemplam, além de notas de tradução, alguns ensaios. Qual é lugar que esses ensaios ocupam e como se harmonizam com essa edição de Freud?

Gilson Iannini –Cada volume receberá um tratamento singular. Como na clínica. Há sessões curtas, mas às vezes uma sessão pode ser muito longa. Há sessões no divã, outras não. Há sessões onde o silêncio do analista impera, outras não. Do mesmo modo, há textos que exigem uma edição bilíngue, porque Freud trabalha nuances da língua que têm incidência na forma do pensamento. Será o caso de Das Unheimliche, por exemplo, que será uma edição bilíngue. Há textos que pedem comentários e notas porque são mais obscuros, mais decisivos, ou que concentram questões terminológicas fundamentais. Foi o caso de nossa tradução de As pulsões e seus destinos, que contou com três ensaios, que de certa forma apresentavam nossa visão do Freud. Será o caso do Abriss der Psychoanalyse. O Abriss, que nos acostumamos a chamar de “esboço” é, na verdade, um “compêndio”. É uma espécie de testamento. Ali Freud acaba por plasmar a maior parte de sua terminologia. É também um texto incompleto. Na verdade, atualmente o Compêndio de psicanálise em versão bilíngue é o volume que está em fase final de preparação. Devemos lançá-lo em outubro. Já os volumes temáticos terão em geral apenas uma breve apresentação, contemplando aspectos de tradução e de edição, além de um ensaio mais livre de um eminente especialista daquela obra ou assunto.

Pedro Heliodoro TavaresQuanto aos colaboradores, que redigirão os ensaios apresentando ou comentando cada volume, certamente procuraremos privilegiar o convite aos membros de nosso conselho editorial. O leitor atento perceberá que nesse conselho não somente figuram especialistas provenientes de diferentes matrizes de leitura da obra de Freud, o que consideramos algo fundamental. Ele verá também que o grupo é constituído de forma pluralista no que tange às diferentes modalidades de aprofundamento na leitura da obra do autor: aspectos clínicos, metapsicológicos, epistemológicos, estéticos, linguísticos, etc.

SELO DERIVAS (1)O próximo volume das obras incompletas de S. Freud a ser publicado pela Autêntica deve reunir os chamados “textos literários” de Freud, ou seja, textos em que Freud faz referência às artes. Por que a escolha editorial por esses textos agora (em detrimento de outros), considerando a vastidão das obras de Freud?

Gilson Iannini–O próximo volume será o Compêndio de psicanálise. Trata-se de um volume muito especial. O Compêndio [Abriss der Psychoanalyse], de 1938, conhecido entre nós como Esboço de psicanálise, é uma espécie de testamento de Freud. Ali nos deparamos com a terminologia freudiana em seu último estágio. Trata-se de um texto em que Freud faz um balanço da psicanálise e que tem o mérito de apresentar uma maneira peculiar de trabalhar junto a primeira e a segunda tópicas. Estamos no processo final de revisão. É um trabalho difícil, porque fizemos uma edição bilíngue, bastante anotada. São notas muito instigantes do Pedro Heliodoro, que de certa forma abrem a caixa preta de uma tradução desse porte. Junto com o Abriss, vamos publicar dois outros opúsculos também inacabados: o texto sobre a Ichspaltunge as Algumas lições elementares, ambos de 1938. Esse volume vai se chamar Compêndio de psicanálise e outros escritos inacabados. Estamos fazendo de tudo para lançá-lo ainda em outubro.

Depois dele, começaremos os volumes temáticos. O primeiro será Arte, literatura e os artistas. Esse volume está sendo traduzido pelo professor de estética e filosofia da arte Ernani Chaves, da UFPA, que tem uma excelente leitura não apenas de Freud, mas também de autores como Benjamin e Nietzsche. Freud tem muitos textos sobre arte, sobre literatura e sobre os artistas. Esses textos estão espalhados ao longo da obra. A gente reuniu em um único volume. Esses textos são riquíssimos. Leitura obrigatória para quem quer entender arte, mas também são textos bastante clínicos. Por exemplo, o Poeta e o fantasiar, que conhecíamos como Escritores criativos e devaneios, é uma aula sobre a fantasia.

Diversos outros volumes estão sendo traduzidos neste instante. A equipe é grande. Maria Rita Salzano, da Unicamp, está traduzindo o volume Neurose, psicose, perversão; Emiliano Rossi, que traduziu Sobre a concepção das afasias, está traduzindo Amor, sexualidade e feminilidade. Os casos clínicos estão sendo traduzidos por Tito Lívio Cruz Romão, experiente tradutor de literatura e filosofia e professor da UFC, e Os fundamentos da clínica, por Claudia Dornbusch, professora da USP. Todos os tradutores são muito tarimbados e experientes. Além disso, eles têm um contato muito próximo com o coordenador da tradução, Pedro Heliodoro Tavares, que fará também a revisão técnica. De minha parte, cuido de todos os aspectos editoriais, desde a escolha dos textos, dos agrupamentos, do aparato, digamos assim, do aspecto epistêmico da coleção. Cada tradutor tem seu ritmo. Cada volume tem suas especificidades.

SELO DERIVAS (1)Em que essa referência às artes foi importante para Freud?

Gilson Iannini Freud era um médico extremamente culto. Versado não apenas na melhor ciência de sua época, mas leitor dos clássicos gregos e latinos; conhecedor de história das religiões, antropologia, psicologia social. Conhecia a literatura alemã muito bem. Quanto às artes, Freud tinha um gosto predominantemente clássico. O livro de François Regnault a esse respeito parece definitivo. Mas a arte e os artistas forneceram a Freud não apenas material para reflexão clínica, mas também o que poderíamos chamar de suplementos. Suplementos para quando a cadeia de razões subitamente se interrompia, diante de um impasse, por exemplo. Não há um texto de Freud de extensão um pouco maior que não contenha, em articulações essenciais, incursões na literatura e nas artes. Às vezes, o estatuto desse recurso é apenas ilustrativo; às vezes, tem uma função heurística; às vezes, uma função epistemológica. Além disso, o romance acaba fornecendo modelos e estruturas narrativas que ajudaram a constituir o gênero “caso clínico” (“Krankengeschichte”, isto é, a história de doentes/pacientes). É isso que estou pesquisando no meu pós-doutorado e que quero apresentar como livro, dentro de uns dois anos.

SELO DERIVAS (1)Justamente, além de pensador da cultura e grande teórico da psicanálise, Freud é igualmente escritor. A escrita freudiana tem estatuto de escrita literária. Vale lembrar que Freud foi agraciado com o prestigiosoPrêmio Goethe. Como pensar a tarefa daquele que se propõe a traduzir Freud? Como conciliar a tradução de descrições clínicas com a tradução de ensaios que interpretam as artes, a antropologia, a arqueologia e a própria literatura? É possível assegurar um “estilo” da tradução ou do tradutor diante de uma obra tão vasta quanto versátil?

Gilson Iannini A história do Prêmio Goethese explica sim pela qualidade da prosa teórica de Freud, mas há também outros aspectos envolvidos. Podemos voltar a isso em outra oportunidade, se a Derivas se interessar. Até que ponto a instância de Thomas Mann foi decisiva? Freud é dono não apenas de um estilo, mas de vários estilos. O livro de Pedro Heliodoro mostra isso com muita argúcia. Freud é às vezes o polemista; às vezes, estabelece uma relação íntima com o leitor; às vezes, inventa um interlocutor imaginário e, de certa forma, coloca o leitor dentro do texto (como em o Futuro de uma ilusão). Mas tem também o Freud mais árido, dos textos de metapsicologia, ou quase romancista, dos casos clínicos. Não há como nem por que unificar o estilo. O desafio é precisamente outro: recriar as diversas habilidades estilísticas de Freud. Porque elas obedecem a uma lógica do objeto. O objeto de cada pesquisa acaba determinando, pelo menos em parte, o gênero do discurso. Há, claro, elementos retóricos: para quem o texto é endereçado? Por exemplo, nas famosas Conferências introdutórias Freud adota um tom professoral mas íntimo, convidativo. Outras vezes, Freud é falsamente assolado por dúvidas e hesitações. Finge não saber onde tal linha de raciocínio vai conduzir, embora textos mais antigos já nos mostrem que ele sabia muito bem o que estava dizendo. Outras vezes essas hesitações fazem parte da própria marcha do pensamento.

Gostaria de concluir retomando um comentário do professor Ernani Chaves, que está traduzindo o volumeArte, literatura e os artistas. No dossiê A língua de Freud e a nossa, que organizei para a Revista Cult no ano passado, Ernani retoma o famoso texto de Walter Benjamin Atarefa do tradutor. “Tarefa”, em alemão, éAufgabe, que quer dizer também “renúncia”. A tarefa do tradutor é também renúncia do tradutor. Claro que isso não quer dizer que vale tudo. Ao contrário. A tarefa-renúncia do tradutor é tanto mais importante e exige ainda mais cuidado justamente porque é preciso renunciar à pretensão de reproduzir fielmente uma língua numa outra. Essa renúncia impõe ainda uma tarefa que também é política. Concluo passando a palavra ao tradutor:

Uma tradução não pode ser indiferente ou neutra em relação aos contextos, dos quais ela não é apenas dependente, reprodutora, mas também contra os quais ela pode resistir e se posicionar. E, qual é o “nosso” contexto, o que nos assola e bate diariamente a nossa porta, invade nossas casas e se instaura no nosso cotidiano? É um contexto cada vez mais neuronal, cognitivo, biologizante, normativo na medida em que explícita ou implicitamente se refere a uma ordem que é da “natureza”, contexto de esvaziamento de qualquer subjetividade. Um contexto em que uma teoria do psiquismo passa a ser vista como uma espécie de estágio pré-científico a ser definitivamente superado pelas conquistas da ciência, a única verdadeira, a que comprova, trata e cura. Nesta perspectiva Trieb por “pulsão” não é apenas uma tradução válida e legítima em relação ao contexto teórico, mas continua cumprindo muito bem sua função de resistência, em um contexto político que procura sempre desqualificar a psicanálise. Não apenas o texto freudiano, a teoria, mas igualmente sua prática, sua intervenção institucional, sua inserção nas lutas no interior das discussões sobre as políticas públicas para a saúde ou ainda nos fóruns importantes de discussão da violência urbana, sexual, sem contar, evidentemente, as relativas à saúde mental e ao uso de drogas. O objetivo último deste combate é, sem dúvida, eliminar o que insiste em resistir, ou seja, a “pulsão” (CHAVES, E. A pulsão de Freud a Benjamin. Revista Cult, n. 181, jul.2013, p. 39). Ver também <http://revistacult.uol.com.br/home/2013/07/a-lingua-de-freud-e-a-nossa>.

 

Derivas analíticas agradece a Gilson Iannini e Pedro Heliodoro Tavares pela concessão desta entrevista que prima, sobretudo, por sua dimensão elucidativa. A entrevista foi conduzida por Yolanda Vilela em agosto 2014.

 

Pedro Heliodoro Tavares

Psicanalista, germanista, tradutor. Professor da área de alemão – língua, literatura e tradução (USP). Doutor em Psicanálise e Psicopatologia (Université Paris 7). Autor de Versões de Freud – breve panorama crítico das traduções de sua obra (7Letras), Fausto e a psicanálise (Annablume) e coorganizador de Tradução e Psicanálise (7Letras).

Gilson Iannini

Psicanalista, filósofo, editor. Professor do Departamento de Filosofia da UFOP. Doutor em Filosofia (USP) e Mestre em Psicanálise (Université Paris 8). Autor de Estilo e verdade em Jacques Lacan (Autêntica Editora). Bolsista do CNPq (PDJ).

 

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