Resenha de A vida com Lacan, de Catherine Millot

 

Cristina Marcos

 

 

O livro A vida com Lacan, de Catherine Millot, evidencia aquilo que Roland Barthes afirma em Fragmentos de um discurso amoroso no verbete “Escrever”:

Querer escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: essa região tumultuada onde a linguagem é ao mesmo tempo demais e demasiadamente pouca, excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela submersão emotiva) e pobre (pelos códigos sobre os quais o amor a projeta e a nivela). (Barthes, 1977/1986, p. 93, grifos do autor)

Esse pequeno livro encontra-se novamente com Barthes através da noção de “biografema”. Em Sade, Fourier, Loyola, Barthes (1971) constrói esse neologismo afirmando que, se fosse um escritor morto, gostaria que sua vida fosse reduzida, “pelos cuidados de um biógrafo amigo e desenvolto, a alguns pormenores, a alguns gostos, a algumas inflexões, digamos biografemas”.

No retrato do homem Lacan, Millot volta-se de tal modo para o detalhe, para a força do insignificante, do ínfimo da memória imprecisa ressuscitada pela escrita, que somos levados a pensar no biografema. O fato torna-se signo, rico em significações, revelando uma imagem fragmentada impossível de ser capturada em uma totalidade estereotipada. Daí talvez a sensação com a qual ficamos após lido o livro: a de termos conhecido Lacan. Desvela-se uma espécie de crônica cotidiana, plena de simplicidade e detalhes que desmistificam, de certo modo, o psicanalista. Ficamos com a impressão de termos compartilhado com Millot os pequenos detalhes da vida cotidiana de Lacan: os hábitos diários, os restaurantes frequentados, o gosto pela velocidade, as viagens à Itália, os fins de semana em Guitrancourt, os domingos em família. Não encontramos grandes confissões ou segredos escandalosos, mas antes os pormenores e a trivialidade da vida, como se a vida se reduzisse enfim a alguns traços.

A vida com Lacan não é minha vida com Lacan. Não se trata tanto do relato dos últimos anos de vida de Lacan compartilhados com Millot, mas de um desejo de homenagem, no sentido que Lacan (1965/2003) deu a esse termo em “Homenagem a Marguerite Duras”. Desde as primeiras linhas do livro, lemos a admiração, a gratidão e o amor por Lacan como um modo de reencontrá-lo através de um olhar carinhoso, apaixonado, fascinado e divertido. Seu livro é, antes de tudo, uma celebração da vida e do amor, do seu amor por Lacan.

Entramos diretamente nesta homenagem, logo no começo. O livro se inicia assim:

Houve um tempo em que eu tinha a sensação de ter apreendido o ser de Lacan em sua essência. De ter uma espécie de intuição de sua relação com o mundo, um acesso misterioso ao lugar íntimo de onde emanava sua ligação com os seres e as coisas, e também com ele próprio. Era como se eu houvesse deslizado para dentro dele. (Millot, 2017, p. 5)

Millot nos diz que “a memória é precária, mas a escrita ressuscita a juventude das lembranças”. Sua bela escrita nos convida a nos deixarmos guiar, segui-la como ela fez junto a Lacan, inclinados para frente, obstinados em seguir o fio da vida.

A primeira vez que o vi caminhando foi nas trilhas de Cinque Terre, na Itália, para onde ele arrastava, depois do almoço, sob o sol inclemente - estávamos em agosto -, as pessoas de seu círculo, que não ousavam protestar. Liderava a marcha, com uma determinação feroz. Os riscos de insolação, para ele mesmo ou para os outros, não eram sequer avaliados. Íamos assim de uma aldeia costeira a outra pelas colinas que sobranceavam o mar, e voltávamos no trenzinho local. (Millot, 2017, p. 7)

Obstinado, impondo prosseguir, seja nas pesquisas de psicanálise, seja nas caminhadas sob o sol escaldante da Itália, é esse o Lacan que Millot nos dá a ver – concentrado, perseverante, destemido, na vida pública e privada.

Um dia, entretanto, manipulando as rodelas de barbante, ele diz, de repente, a Millot: “Está vendo, isso é você!” (p. 6). Millot nos diz que ela era, como qualquer um, aquele real que escapava ao seu controle. Toda sua narrativa vai então se reduzir a traços elementares, em uma escrita sóbria e econômica, como se ela buscasse capturar o real. Este real que ocupa Lacan cada vez mais nos últimos anos de sua vida.

Embora nenhuma proibição ou limite convencional o fizessem desviar de seu percurso, ele de todo modo sabia reconhecer o real que lhe barrava o caminho. Talvez justamente porque as proibições não entravam em consideração é que ele estava em conexão direta com o que se tornou, com o tempo, o objeto principal de sua reflexão. O real era coisa séria, valia a pena ser levado em conta. O real é aquilo contra o qual nada podemos, com que nos chocamos, é o intransponível, o impossível de contornar, de negociar. Para ele, tanto na vida como numa análise, tratava-se de alcançá-lo, esse indestrutível núcleo da realidade, e tudo o que o isola, o mantém à distância ou mascara pertence à esfera da frivolidade. (Millot, 2017, p.12)

O homem dedicado e infiel, convivial, mas também silencioso, exige a presença de Millot junto a ele como uma criança de 5 anos. Aliás, ele próprio assim se define. São os pormenores, os detalhes insignificantes, os resíduos dos dias vividos em sua companhia que vão formando o retrato do homem Lacan. Verdadeiro perigo no volante, amante da velocidade, se imobilizava na mesa do escritório. Leitor voraz, conferencista brilhante, amava estar na companhia das pessoas, o auditório, as viagens, os museus. Tinha senso do trágico, e a teatralização fazia parte da sua arte oratória, mas no domínio privado era de uma simplicidade absoluta. “Lacan não tinha psicologia, não tinha pensamentos ocultos, não atribuía intenções aos outros. Sua simplicidade residia igualmente em não hesitar em pedir o que queria da maneira mais direta possível.” (Millot, 2017, p. 36)

Millot afirma que ele nunca tergiversava com a verdade com seus pacientes. “Esse ponto em que Lacan se posicionava em sua relação com o outro era o da irredutível solidão de cada um, vizinho do lugar onde a existência confina com a dor.” (Millot, 2017, p. 51) Um dia, quando ela falava do que vivenciava, como o desconforto de ser mulher, ele diz: “Você não é a única, isso não a torna menos sozinha” (p. 51).

Sua escrita desenha um retrato breve e fragmentado daquele que ela amava em uma narrativa que captura o detalhe, o pormenor que toca a vida. Para Barthes, esse detalhe viajaria “fora de qualquer destino”, indo contagiar “como átomos voluptuosos algum corpo futuro, destinado à mesma dispersão!” (Barthes, 1971/1979, p. 14), o que evidencia que essa escrita se constrói não apenas a partir de uma relação de amor entre Millot e Lacan, mas entre o texto e o leitor.


Referências

Barthes, R. (1971). Sade, Fourier, Loyola. Lisboa: Edições 70, 1979.

Barthes, R. (1977). Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

Lacan, J. (1965). Homenagem à Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein. In: ___. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

Millot, C. (2017). A vida com Lacan. Rio de Janeiro: Zahar.

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