O corpo investigado na dança [Entrevista]

A equipe da Derivas analíticas convidou um grupo de bailarinas com diferentes perfis profissionais para uma conversa sobre o corpo e a dança. Durante o bate-papo com Cecília Lana e Camila Alvarenga, elas expuseram suas percepções com relação às possibilidades de formação e de atuação no campo da dança, falaram sobre as particularidades da dança clássica e do contemporâneo e sobre as diferentes formas de usar o corpo como instrumento de trabalho e de arte.

 

Andréa Anhaia
Carolina Amares
Danielle Ramalho
Deborah Lopes
Ester França
Andréa atuou na Companhia Cisne Negro, na Companhia Vias da Dança e no Grupo de Dança Primeiro Ato. Trabalhou como assistente de direção na Companhia de Dança do Palácio das Artes em 2006. É cofundadora e integrante do Coletivo Movasse.
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Carolina foi bailarina na DeAnima Ballet Contemporâneo, na Companhia de Dança Deborah Colker, na São Paulo Companhia de Dança e no Grupo Corpo. É sócia da produtora de eventos culturais ENTRE_ponto de encontro.
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Danielle integrou o Ballet da Cidade de Niterói e o corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi bailarina do Grupo Corpo por 15 anos. É professora da Sesc Companhia de Dança e do Centro de Arte Savassi (CASA), do qual também é fundadora e diretora artística.
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Deborah é fundadora, diretora e professora de balé do Centro de Arte Savassi (CASA). Conduz projetos de dança com crianças na periferia, de produção cultural e faz trabalhos como performer e arte-educadora.
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Ester participou da Companhia Sesiminas e do Grupo de Dança Primeiro Ato. Participou de festivais internacionais na Argentina, , Espanha, Colômbia e nos Estados Unidos. É cofundadora e integrante do Coletivo Movasse. Desenvolve o projeto de profissionalização Dança Jovem.
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Derivas: A dança clássica visa um enquadre maior do corpo, enquanto a dança contemporânea parece oferecer ao bailarino mais liberdade para colocar seu corpo em cena. Há, de fato, um uso diferente do corpo em cada modalidade? Quais seriam as particularidades de cada modalidade?


Carolina Amares
: Sim. Se estivermos falando de cena, podemos dizer que são duas coisas distintas. O balé clássico, como indica o próprio nome, é “clássico”. Os passos estão prontos e organizados como técnica. Alguns coreógrafos transformaram o uso da técnica ao longo dos anos. Cito Forsythe como exemplo. Porém, dança contemporânea é pensamento, e não técnica. Você pode ser uma bailarina que usa a técnica clássica de forma contemporânea. Ou você pode ser um bailarino contemporâneo que usa a técnica clássica como treinamento.

Danielle Ramalho: Mas quando se dança clássico, é preciso ser perfeito no palco, não se tem muita liberdade de movimento. Ao passo que, na dança contemporânea, há uma liberdade maior para executar uma movimentação menos quadrada, para fazer o que o seu corpo permitir naquele dia. O SESC, por exemplo, permite que bailarinos possam dançar o clássico e o contemporâneo em uma mesma companhia, o que é, ao mesmo tempo, uma dificuldade e uma possibilidade. Na São Paulo Companhia de Dança eles já separam os grupos. A meu ver, penso que talvez existam corpos com maior aptidão, se posso dizer assim, para o clássico, e outros para a dança contemporânea.

 


Bailarina: Carolina Amares / Fotografia: João Caldas


Derivas: Qual seria a diferença entre os pensamentos clássico e contemporâneo?

Andréa Anhaia: Não acho que o contemporâneo seja uma modalidade. Você pode fazer um espetáculo inteiro de contemporâneo usando a técnica clássica, por exemplo. Assim como é possível fazer uma peça de dança contemporânea com pessoas cujo treinamento seja o basquete. Quando a gente fala em dança contemporânea, estamos trabalhando com a ideia, com o conceito. Agora, a técnica, o preparo para chegar àquilo que você quer colocar em cena, isso é outra história.

Danielle Ramalho: Mas quando se fala em balé clássico, essa liberdade já é relativa.

Andréa Anhaia: De fato. Tem o balé clássico, tem a dança moderna, tem a dança do ventre, mas a dança contemporânea é democrática. Por quê? Porque é possível fazer uma peça, colocar nela o nome “dança contemporânea” e levar um homem gordinho para dançar. Se a forma desse homem se movimentar for própria, aquilo ali é dança contemporânea. Já vi bailarinas clássicas dançando dança contemporânea. Acho que dança contemporânea não é uma modalidade, penso que é outra coisa. Balé clássico é uma técnica, dança moderna é outra técnica. Mas dança contemporânea é um pensamento que organiza a técnica que se tem. Por exemplo: uma aula de dança contemporânea nunca será a mesma, ela dependerá das técnicas pelas quais o professor já passou, dependerá do estilo de cada um.

Ester França: Acho que essa discussão tem a ver com a questão da reprodução. Acho que essas modalidades, que já têm os passos [de dança] organizados, são técnicas de estruturação corporal. O balé clássico é uma técnica vertical, que estrutura o bailarino com uma determinada força, que trabalha a rotação do quadril de determinada forma, etc. O mesmo vale para o jazz ou para a dança do ventre. Eles já têm os passos definidos, é aquilo ali. Já a expressão, se relaciona mais com arte, com outra perspectiva, que não tem a ver só com a técnica que uso para estruturar meu corpo. Assim, quando falamos de expressão, de um corpo em cena, é preciso considerar muitos outros elementos que não têm a ver com uma determinada técnica, mas com uma escolha corporal.

 


Bailarinas: Ester França e Andrea Anhaia / Fotografia: Bruno Vinelli


Derivas: O contemporâneo seria mais poroso a essas escolhas corporais?

Ester França: Sim, porque o contemporâneo não está definido.

Andréa Anhaia: Porque ele leva para a cena aquilo que você definir.

Ester França: A expressividade tem a ver com o sujeito, com uma coisa que escapa à técnica – a não ser que você trabalhe a expressão e descubra uma técnica para desenvolvê-la, o que também é possível. Mas sempre vai haver uma menina gordinha com dificuldades para desenvolver tecnicamente o balé clássico, e que é maravilhosa em cena! Há algo que escapa à técnica, algo do sujeito, que talvez tenha a ver com as pulsões, com o desejo.

Andréa Anhaia: As técnicas também vão se transformando. O balé clássico ensinado hoje fez com que a técnica se modificasse. Nada é estático, tudo tem uma porosidade. Não se pode querer colocar tudo dentro de gavetinhas.

 


Bailarina: Danielle Ramalho / Fotografia: Marllon Ribeiro

 

Ester França: Sim, as coisas não são tão fechadas. Colocamos as coisas em gavetas para entendê-las, explicá-las. Acontece que as coisas se atravessam, são porosas. No caso do balé clássico de repertório, trata-se de uma técnica voltada para a reprodução, e não para a criação. Trata-se muito mais da expressão de uma reprodução do que de algo do sujeito.

Carolina Amares: Parece que todas as danças necessitam de certa expressividade. Umas são mais dramáticas, deixando aparecer mais o sujeito. Em outras, a beleza é dos encaixes e fluxos de movimento. Sempre me lembro do coreógrafo e bailarino Merce Cunningham. Em seus últimos trabalhos, ele criou movimentos com um software chamado life forms, em que ia compondo um passo pra cá, com uma perna pra cima... Ou seja, ele misturava tudo... Parecia humanamente impossível [risos]!

Andréa Anhaia: Mas o artista é ele.

Carolina Amares: Exatamente. O artista não é apenas o bailarino.

Danielle Ramalho: Há coreógrafos que gostam de criar espetáculos narrativos, e outros que preferem criar espetáculos que são expressividade somente da forma. Pode acontecer de o bailarino querer dar uma emoção relacionada à música, mas ele precisa ser também uma forma... Acho que é isso que dá a liga da arte.

 

 

Derivas: O corpo, na dança, encena ou expressa o que a palavra não diz?

Carolina Amares: Acredito que o corpo não diz palavra, assim como a palavra não diz movimento. São linguagens distintas.

Derivas: É possível apreender algo da subjetividade de um bailarino ao assisti-lo dançar, ao observar as escolhas que ele faz para articular os movimentos, a maneira como cada um escolhe para colocar seu corpo em cena, em movimentação?

Andréa Anhaia: Depois de um tempo nessa lida, é possível olhar para um corpo e saber por que experiências ele já passou. E isso tem a ver comigo também, porque eu me reconheço um pouco no aluno, como um espelho, o que pode gerar inclusive um estranhamento.

Carolina Amares: Às vezes penso muito quando tenho que executar um movimento. Por isso, quando dou aula, costumo propor alguns exercícios em que o foco é deixar o movimento fluir, sem controlá-lo. É lindo perceber amplitudes e áreas de entendimento diferentes de bailarino para bailarino. É muito rico. As escolhas do corpo de cada um... As escolhas de cada um.

Derivas: Existe hoje uma discordância quanto à pertinência do uso do espelho nas aulas. O que vocês pensam disso?

Ester França: Depende da dança. Na dança de rua, por exemplo, as pessoas não usam espelho.

Andréa Anhaia: Acho que o espelho afasta você de você mesmo, cola você em sua imagem. Olhando no espelho, você não sabe onde está de fato o seu pé. Quando você vê o seu pé no espelho, na realidade, não sabe onde ele está. Em minhas aulas de balé clássico, orientadas por um pensamento contemporâneo, uma das coisas que faço é colocar os alunos de costas para o espelho. Acredito que você tem que ter a consciência de onde está o seu pé, de como você faz com seu corpo para conseguir girar. É aí que você vai entendendo seu corpo. Quando você está diante espelho, você está na cópia, no outro.

Derivas: Os psicanalistas se interessam pela questão das marcas, da escrita. Fica alguma marca, alguma escrita no corpo do bailarino?

Andréa Anhaia: Nossa ferramenta primeira é o corpo. A primeira linguagem do corpo é a dança. Ao dançar, parece que a gente se conecta com alguma coisa que não passa tanto pela reflexão. Depois é que vem o pensamento. Nós precisamos nos mover por uma questão de saúde, mas a dança tem também o lado artístico, que a coloca em um lugar diferente em relação ao esporte. A dança tem uma ligação com a música, o corpo dança na música.

 


Bailaria: Andrea Anhaia / Fotografia: Ed Felix

 

Derivas: O que move alguém em direção à dança?

Carolina Amares: Você pode se apegar pela facilidade ou pela dificuldade. Quando criança, eu amava muito dançar. Ficava improvisando de porta fechada dentro do quarto, inventando coreografias no pátio do prédio... Era algo que já estava lá. Mas acredito que muito do meu estímulo para continuar veio do outro, quando diziam que eu tinha talento. Porém, o contraponto sempre foi meu físico “mole”, muito flexível. Essa sempre foi a parte mais difícil do meu dia a dia.

Andréa Anhaia: Mas tem pessoas que foram tocadas de outro jeito. Que decidiram dançar justamente porque tinham dificuldade e porque aquilo era um desafio.

Ester França: Penso que escolhe a dança quem vê sentido naquilo, em investigar um corpo, ainda que seja mais ou menos profundamente e independentemente da técnica.

Andréa Anhaia: O que é dança? Foi ela que me escolheu ou eu que a escolhi? Não sei, isso eu já perdi. Sei que é o meu trabalho, minha profissão. Acho que eu entendi isso desde cedo, até para conseguir chegar em grandes companhias. É óbvio que é bom dançar e fazer uma aula bacana. Mas se você sai do amadorismo e eleva a dança a um lugar de profissionalismo, a coisa não é mais utópica, um encontro com o divino. É ser bailarino como ofício.

Carolina Amares: Concordo, mas no momento em que perco essa sensação, preciso parar e respirar. Estou nesse momento agora. Quando temos que dançar uma coreografia profissionalmente todos os dias, há que achar algum sentido para aquilo, ou nos tornamos um simples “repetidor” de movimentos.

Andréa Anhaia: Sim, é claro que tem que haver um esforço para manter aquele desejo vivo.

Ester França: Para manter a coisa pulsante. Porque nós estamos falando de arte.

Andréa Anhaia: É por isso que eu acho que o lugar do bailarino amador é maravilhoso. Amador. Ele ama. Esse é um lugar onde a dança ocupa um lugar mágico. Quando começa a profissionalizar, aparecem os problemas. A dança, nesse ponto, é como qualquer outra profissão. Quando ela se torna profissão, vira algo obrigatório. É preciso, então, se reinventar e refazer a sua escolha diariamente.

 


Bailarina: Ester França / Fotografia: Ed Felix

 

Conheça alguns trabalhos do Coletivo Movasse:

 

 

Entrevista realizada e editada por
Cecília Lana e Camila Alvarenga

Derivas analíticas agradece às bailarinas Carolina Amares, Ester França, Andréa Anhaia, Danielle Ramalho e Deborah Lopes por compartilharem generosamente as singularidades de suas relações com o corpo e a dança.


 

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